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Full text of "Monumentos e esculturas (seculos III-XVI)"

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Correia,  Vergilio 

Monumentos  e  esculturas 


V^H 

NA 
1321 
C6 
1919 

1 

MONUMENTOS  E  ESCULTURAS 

(SÉCULOS    III -XVI) 


4 

/     L?^  ^  DIREITOS   RESERVADOS 


Depositaria -LIVRARIA  FERIN,  Lisboa 


^ERQILIO  CORREIA 

Const.iv;idor  (lo  Museu    Nacioiuil  ile  Arle   Anli{;a 


MONUMENTOS 
E5CULTURA5 


(5ECUL05   III-XVI) 


Com   uma   capa  desenhada  por  Henrique    Santos  Júnior 
e  ilustrado  com  mais  de  40  desenhos  e  fotografias 


1919 

IMPRENSA  L1BAMO  DA  SILVA 

Trav.  do  Fala-Só,  24. 

LISBOA 


/-" 


DO   AUTOR 


Lisboa  preistórica  (3  fascículos) 1912-1913 

ídolos  preistóricos  tatuados,  de  Portugal 191Ò 

Azulejos  Datados  —  1."  Serie  (esgotado) 1915 

Etnografia  Artística  (obra  ilustrada  com  mais  de  80 

desenhos  e  fotografias) 1916 

Coninibriga  (esgotado) 1917 

Arte  preistórica  (2  íascculos) 1917-1918 

Um  ti'imulo  Renascença  —  A  sepultura  de  D.  Luís  da 

Silveira,  em  Gois 1919 

Azulejos  Datados  (2.'  edição,  aumentada  e  profusa- 
mente ilustrada) 1919 


Não  pretende  o  presente  volume  apresentar-se  como  iivi 
manual  de  história  de  arte^  nem  intenta^  sequer,  documentar 
a  história  de  qualquer  ciclo  artístico  oií  arqueológico  por 
meio  de  uma  série  de  estudos  concernentes  a  monumentos  e 
esculturas  de  determinado  século  ou  época.  O  desejo  do  seu 
autor  ao  escrevê-lo  foi  somente  enfeixar  em  manipido  homo- 
géneo as  breves  monografias  de  uma  dezena  de  monumentos 
arcaicos  que  descobrira  ou  estudara  desde  1911  a  1016,  e 
cuja  publicação^  por  demorada,  ia  perdendo  interesse. 

Dada  a  raridade  dos  estudos  deste  género,  entre  nós,  a 
divulgação  de  mais  uns  tantos  monumentos  ou  píças  artís- 
ticas antigas,  considerando  ainda  as  dijiculdades  materiais 
da  impressão  de  um  livro  de  um  género  que  os  editores  não 
acolhem,  representa  certamente  uma  obra  meritória.  Espera 
o  autor  que  os  leitores  lhe  retornem  em  acolhimento  benévolo 
o  esforço  que  fez  para  bem  o  elaborar  e  apresentar . 


Lu  m. 


KiS.   1 


CASTELO   DE   VIDE.     l-^orta   romana 
tra>:icla  cie  Aramenlifí  (Ocxtniida) 


^rcos  [Romanos  de  Portugal 


}as  seis  provincias  em  que  se  dividia,  ao  tempo 
de  Diocleciano,  a  cUoecesis  Hispaniarum  —  Be- 
tica,  Lusitânia,  Cartliaginiense,  Gallecia,  Tar- 
raconense  e  Mauritânia  Tingitana — ,  o  Portugal  de 
hoje  assenta  em  territórios  de  três,  ocupando  terras 
que  pertenceram  á  Lusitânia  i  do  Douro  ao  Guadiana), 
á  Tarraconense  (do  Douro  ao  Minho)  e  á  Bética  (mar- 
gem esquerda  do  Guadiana). 

Embora,  porem,  em  todos  os  recantos  da  nossa  boa 
terra  portuguesa  aflorem  ainda,  á  superfície  do  solo, 
os  alicerces  de  edifícios  que  pertenceram  a  agregados, 
ruraes  ou  citadinos,  luso-romanos,  poucas  regiões  dela 
conservarão  tantos  e  tão  valiosos  documentos  desse 
periodo  como  o  território  do  conventus  pacencis^  que 
abrangia  toda  a  Estremadura  transtagana,  o  Alentejo 
e  o  Algarve. 

E'  neste  que  se  nos  deparam,  com  maior  frequência, 
inscrições,  mosaicos,  louças,  moedas  e,  por  maravilha 
quasi,  edifícios  ainda  de  pé,  embora  roçados  fortemen- 
te da  corrida  acelerada  dos  anos,  como  os  templos  de 
Évora  e  Santana  do  Campo  (Arraiolos),  as  muralhas 
de  Évora,  as  termas  de  Milreu  e  os  arcos  de  Évora, 
Beja  e  Vila  Viçosa. 


Ora,  destes  poucos  edifícios  ainda  de  pé,  devemos, 
quando  mais  não  seja  por  caridade  para  com  os  vin- 
douros, arquivar  os  aspetos  e  os  planos.  Deixar  perder 
qualquer  migalha  do  que  nos  ficou  desse  passado,  se 
não  glorioso,  pelo  menos  feliz,  é,  mais  do  que  incúria, 
quasi  um  crime. 

Tendo  conseguido  reunir  um  certo  numero  de  foto- 
grafias de  um  dos  mais  curiosos  aspetos  da  construção 
romana,  os  arcos  dos  portaes  de  carater  monumental, 
aqui  as  apresento,  numa  intenção  simplesmente  do- 
cumental. 

Não  se  pense,  porem,  que  se  vae  deparar  com  arcos 
de  triunfo,  como  os  de  Roma,  Aosta,  Orange,  etc,  ou, 
sequer,  com  portas  monumentaes,  bastante  simplifica- 
das, como  as  de  Merida.  Se  as  tivemos,  levaram-nas 
todas  a  onda  das  invasões  ou  a  sanha  dos  assédios,  a 
boçalidade  dos  antepassados  ou  a  fúria  civilisadora  das 
edilidades.  De  um  arco  monumental,  revestido  de  már- 
mores, se  sabe  como  desapareceu.  Era  o  que  ficava  ao 
topo  da  praça  do  Geraldo,  em  Évora,  e  que  o  cardeal 
D.  Henrique  mandou  apear  para  lhe  ceder  os  mármo- 
res aos  seus  amigos  jesuítas  da  Universidade.  Como 
hoje  ficaria  bem  o  monumento  naquela  praça,  tão  ca- 
rateristica  ainda,  que  eu  julgo,  pela  sua  forma  retan- 
gular,  e  pela  própria  existência  do  arco,  ter  sido  o 
fórum  da  cidade,  o  autentico /oram  da  Évora  imperial ! 

O  que  nos  resta,  ou  o  que  nos  restava  ainda  ha 
pouco,  é  apenas  uma  meia  dúzia  de  portaes  de  volta 
redonda,  fortes  e  bem  lançados,  erguidos  no  seu  pri- 
mitivo iugar  ou  transportados  para  longe,  aos  quaes  a 
silharia  grossa  dos  seus  encostos  ou  aduelas  tem  pro- 
tegido, eficazmente,  contra  os  homens  e  contra  o  tempo. 

Um  dos  mais  interessantes  de  todos  era,  sem  duvi- 


dii,  o  de  Aramenha, — povoado  distante  umas  três  lé- 
guas de  Portalegre,  —  que  foi  levado  para  Castelo  de 
Vide  (fig.  1)  em  1710  e  colocado  numa  das  entradas 
desta  vila,  até  que  em  1891  ('j  vandalica  e  inutilmen- 
te o  destruiram. 

Dos  três  arcos  representados  nas  figuras  2,  3  e  4,  e 
que  perienceram  a  antigas  entradas  da  cidade  de  Beja, 
só  o  ultimo  se  conserva  de  pé,  tendo  os  dois  primeiíy^s 
sido  desmanchados,  e  o  de  Aviz  ainda  não  ha  muitos 
anos^  em  1883. 

O  que  existe,  fica  por  traz  do  Largo  da  Piedade,  ás 
portas  de  Évora,  dentro  de  um  quintalorio  do  prédio 
que  tem  o  u."  2  e  é  pertença  do  sr.  Eduardo  Rego,  e 
ergue-se,  afogado  de  construções  de  pequeno  porte^ 
entre  dois  cubelosinhos  da  muralha  medieval,  apenas 
afastado  uns  20  metros  de  uma  das  esquinas  da  cele- 
bre Torre  Menagem,  de  Beja,  que  é,  diga-se  de  passa- 
gem, do  mesmo  gosto  e  quasi  tão  interessante  como  a 
de  Estremoz,  e  fundação  do  mesmo  monarca. 

Todos  os  três  arcos  os  reproduzo  de  aguarelas  ex- 
postas no  Museu  Etnológico  e  feitas  pelo  malogrado  e 
modesto  artista  que  foi  Guilherme  Gameiro,  que  co- 
piou, os  das  figuras  2  e  3,  provavelmente,  de  antigos 
desenhos  existentes  na  Biblioteca  de  Évora,  e  o  da 
figura  4,  do  natural. 

Seguindo  as  informações  que  acompanham  as  pró- 
prias aguarelas,  e  aproveitando  as  referencias  de  Ga- 
briel Pereira,  que,  em  1895,  descreveu  as  portas  e  as 


(')  César  Videira.  Memoria  histórica  da  muito  notável  vila  de 
Castelo  de  Vide.  —  Lisboa,  1^8.  A  destruição  começou  em  2  de 
novembro  de  1891. 


10 


vulgarisou,  e  as  do  sr.  Chrisfcovam  A\'res  ('),  conclue-se 
que  a  6gura  2  representa  a  Porta  de  Évora,  e  a  fignra  3, 
a  Porta  de  Avis. 

E  o  arco  da  figura  4  ?  Esse,  que  na  aguarela  de 
G-ameiro  aparece  apenas  designado  «por  arco  romano 
de  Beja»,  é,  em  verdade  e  afinal,  a  única,  verdadeira 


1* 


..n 


.ir' 


BEJA.  lr»orta  cie  Mertol.-i?  f/)f,s/nií(/<u 
(Seuuiulo  uni  desenho  antigo) 

e   antiga  porta  romana    «de   Évora».    E  vou  explicar 
porquê. 

Numa    brochura    intitulada    Beja    no    anno    de    ISán 
{Funchal-184:7),    encontram-se   referencias    ás    portas 


(')  Cfr.  Boletim  da  A.  dos  Archeologos.  —  Lisboa  1895,  pag.  2G, 
e  Cristovam  Ayres  na  Htst.  do  K.  Porlii</ucs,  vol.  I,  pag.  448  e 
vol.  II,  pag.  226-223. 


11 


antigas  da  cidade.  No  capitulo  II  do  folheto,  lé-se  : 
«Cingem  ainda  a  cidade  de  Beja  os  muros  que  os  Ro- 
manos construiram,  nos  quais  existem  três  portas 
(ainda  do  tempo  deles),  que  são  :  a  de  Aviz,  a  de  Mer- 
tola,  e  antiga  de  Évora,  da  qual  só  aparece  o  pórtico 
tapado,  junto  da  Torre  de  Homenagem».  Segundo  este 


Kig.  3 

BEJA.  Porta  de  Avia  (Destruído) 
(Segundo  um  desenho  anti}$o) 


autor,  portanto,  o  arco  entaipádo  junto  da  torre  é 
o  das  antigas  portas  de  Évora;  de  acordo  com  a  des- 
crição e  localisação  que  fix,  esse  é  também  o  repre- 
sentado na  figura  4. 

Havia  então   duas  portas  romanas  de  Évora,   e  si- 
tuadas a  tão  curta  distancia,  que,  entre  o  arco  ergui- 


12 


do  e  desconhecido  ('i  e  o  estreitamento  do  Largo  da. 
Piedade,  onde  as  outras  campeavam,  antes  da  destrui- 
ção, não  medeiam  talvez  cem  metros?  Mas,  nesse  caso, 
porque  as  não  cita,  a  ambas,  o  autor  do  folheto-Zíeyfi 
no  anuo  de  1845,  que  me  merece  a  maior  confiança  ?  (-) 
Seria  esta  nova  porta  de  Évora  tansportada  para 
aqui,  de  outro  ponto  ? 

Eis-nos  era  face  de  ura  problema  de  que  se  poderá 
talvez  indicar  a  resolução. 

A  figura  n.°  4,  que  data  de  1903,  não  representa  já 
com  fidelidade  o  local,  tal  como  hoje  se  encontra.  O 
pedaço  de  muralha,  quo  sobrecarregava  o  arco,  veio 
abaixo;  a  chaminé  do  fundo  desapareceu;  e  o  casinho- 
to tosco  do  primeiro  plano  foi  substituido  por  uma 
outra  construçãosinha  do  mesmo  teor.  O  arco,  porem, 
permanece,   felizmente,    em   bom   estado.   Mede  3"', (36 


(1)  Este  arco  é,  ainda  hoje.  desconhecido  de  grande  parte  dos 
habitantes  de  Beja.  Felicitemo-nos  cora  esta  ignorância.  Se  ele 
estivesse  situado  nalguma  rua  ou  praça,  já  teria,  decerto,  ido 
abaixo,  como  os  outros. 

Embora  uo  volume  VÍII  do  Arch.  Port.,  a  pag.  16",  o  sr.  Leite 
de  Vasconcelos  se  arrogue  a  prioridade  da  descoberta  deste 
arco  —  «...perto  do  castelo  da  cidade  e  das  antigas  ;)or<as  (/c 
JCrora,  hoje  destruídas,  existe  um  arco  ou  porta  romana  de  que 
ainda  não  vi  noticia  escrita.. .»  —  o  certo  é  que  tanto  o  autor 
da  brochura  citada,  em  1847,  como  o  sr.  Cristóvão  Ayres  a  pag. 
418  do  vol.  I  da  Hid.  do  E.  P.  (1898),  se  referem  a  ele. 

(-)  Mais  confiança  ainda  do  que  Cenáculo.  E  a  razão  disto  é 
que  o  autor  da  brochura  confessa  ter  á  vista  o  «manuscrito  de 
um  homem  imensamente  laborioso,  natural  de  Beja,  por  nome 
Félix  Caetano  da  Silva,  o  qual  reunia  com  admirável  perseve- 
rança uma  crescida  soma  de  apontamentos,  com  o  auxilio  dos 
quaes  começou  a  escrever  umas  Memorias  Históricas  da  cidade 
de  Beja». 


13 


ontre  os  encontros,  e  tem,  do  fecho  ao  solo,  3^81  de 
altura.  A  espessura  dos  encontros  é  de  0,77.  A  aduela 
que  serve  de  feclio  do  arco,  apresenta,  virada  para  o 
exterior,  certa  saliência  que  um  outro  investigador 
já  notou.  Segundo  me  informaram,  o  dono  do  quintal, 
tendo  mandado  limpar  da  terra  e  vegetações  parasita- 


Kig.   -4 

BEJA..   Antiga  porta  cie  Évora 
l.^.!>iia!vla  de  G.  (iyineiro) 


rias  essa  saliência,  verificou  que  ela  representava  uma 
cabeça  de  touro,  em  relevo,  do  mesmo  gosto  de  outras 
aparecidas  na  cidade.  Hoje,  porem,  nada  de  preciso  se 
distingue. 

E  este  o  arco  romano  por  onde  saía  a  estrada  de 


u 


Évora,  e  que  por  isso  tomou  o  nome  da  cidade  para 
onde  se  dirigia.  Entendendo  certa  vereação  de  Beja 
que  esta  porta  era  insuficiente  para  o  serviço  e  para 
o  movimento  da  cidade,  mandou  abrir  ao  fundo  do 
Largo  da  Piedade  nova  porta  que  tomou  o  nome  da 
antiga  e  passou  a  substitui-la.  Em  que  altura  se  efe- 
ctuou  essa   substitnição,  ignoro-o.   Mas  deve  ter  sido 


A  roo  dti  Bolítir.lelc.»  (Oliveira  do  Hospital) 
(Kolofínilla  de  Krancisc-o  l.iuirciro) 

do  século  XVI  para  cá,  visto  que  até  essa  época  o  inte- 
resse da  defesa  aconselhava  a  que  se  dificultasse  o 
mais  possível  o  acesso  á  povoação,  e  muito  especial- 
mente ao  Castelo  que  lhe  ficava  visinho. 

Toda  a  confusão  proveio,  a  meu  ver,  de  um  simples 
engano   do    desenhador  antigo  dos  arcos,   que  deu   á 


15 


porta  de  Mertola  o  nome  de  Évora,  arrastando  nesse  erro 
todos  quantos  posteriormente  se  ocuparam  do  assunto. 
O  arco  romano  de  Évora,  chamado  de  D.  Izabel  é 
suficientemente  conhecido,  havendo  até  dele  uma  re- 
produção em  postal  ilustrado.  A  figura  n.°  õ  repre- 
senta o  celebrado  arco  da  Bobadela. 


í^orta  cio  r^alac-io  Ducal  de  Vilaviçosa 
(lotogralia  do  autor) 

O  ultimo  arco  reproduzido  é  o  da  entrada  do  velho 
palácio  ducal  dos  Braganças,  em  Vila  Viçosa.  O  aspe- 
cto imponente  do  arco,  a  almofagem  rústica  do  apare- 
lho e  o  facto  de  a  silharia  ser  de  granito  —  Vila  Viçosa 
é  terra  de  mármore  e  de  schistos  —  levam-me  a  crer 
que  o  portal,  que  julgo  romano,  fosse  transladado  para 
aqui  de  outro  ponto,  como  sucedeu  ao  de  Aramenha. 


o  templo  romano  cleSanfAnadoCampo 

(ARRAIOLOS 


í*'^S^E  ha  muito  que  eu  conhecia,  do  «Suplemento» 
ao  a  Mapa  de  Portugal»,  composto  por  João 
Baptista  de  Castro,  a  noticia  da  existência  de 
um  importante  monumento  romano,  nos  arredores 
d'Arroiolos.  Resava  assim  a  respectiva  informação 
corografica,  extraída  de  um  artigo  publicado  no  «Pa- 
norama» (vol.  X.  pag.  130  e  seg.)  por  J.  A.  da  Cunha 
Rivara, 

Arrayolos  «Em  sitio  não  muito  remoto  do  assento 
da  vila  de  Arraiolos,  a  menos  de  uma  légua  para  nor- 
noroeste,  (aonde  hoje  está  a  pequena  aldeia  de  Sant'- 
Ana  do  Campo)  houve  povoação  romana,  o  que  se 
prova  pela  simples  inspeção  da  mesma  igreja  de  Sant'- 
Ana,  formada  nos  restos  d'um  templo  romano,  do  qual 
aproveitaram  uma  bôa  parte  das  paredes,  senão  que  a 
fouce  estragadora  do  tempo,  e  a  mão  devastadora  do 
homem  tem  derrubado  quasi  trez  quartas  partes  da 
construção». 

Mais  de  60  anos  haviam  passado  sobre  este  artigo. 
O  que  restaria  do  monumento  romano  ?  Conservar-se- 
ia  ainda  ? 

A  ausência  de  referencia  ao  importante  edifício  nas 
Religiões  da  Lusitânia  (fascículo  1  do  vol.  3." — Lx.^  1909) 


t 


18 


e  no  magnifico  trabalho,  Monuments  romains  du  PortU' 
gal  do  dr.  Mesquita  de  Figueiredo,  fez-me  acreditar 
durante  algum  tempo  na  sua  desaparição.  Um  dia, 
porém,  — nem  tudo  se  conhece  de  uma  vez  —  caiu-me 
sob  os  olhos  o  folheto  de  Gabriel  Pereira,  Antiguidacks 
romanas  em  Évora  e  seus  arredores,  (Évora  1891)  da  co- 
leção  dos  Estudos  Eborenses^  aonde  o  templo  era  nova 
e  minuciosamente  descrito.  Resolvi,  portanto,  visital-o, 
o  que  fiz  pela  Páscoa  de  1916. 

Ao  que  Rivára  e  Gabriel  Pereira  disseram,  pouco 
mais  posso  eu  juntar  do  que  as  fotografias  e  o  plano 
sumario  do  vetusto  monumento.  Ficam  assim  publica- 
dos os  documentos  do  estado  em  que  se  encontra,  em 
nosso  tempo,  a  igreja.  As  minhas  fotografias  e  plano 
não  terão,  portanto,  mais  valor  do  que  ilustrarem, 
piincipalmente  o  artigo  de  Gabriel  Pereira,  necessa- 
riamente melhor,  por  mais  recente,  que  o  de  Cunha 
Rivára. 

Quem  chega  perante  a  igreja,  depois  de  atravessar 
uma  paisagem  que,  de  ha  longos  séculos,  deve  ter  este 
mesmo  aspecto,  com  as  mesmas  azinheiras  de  copa 
verde  escura,  tonalisadas,  no  alto,  de  verde  mais  claro, 
não  pode  deixar  de  irapressionar-se  violentamente. 
Tem,  deante  de  si,  um  monumento  romano,  autentico, 
imponente,  conservando  um  pouco  da  severa  grandeza 
de  todas  as  edificações  que  o  povo  creador  da  nossa 
oivilisação  erigiu  na  metade  da  Europa  submetida  ao 
seu  dominio  (fig.  7j. 

De  facto,  no  dizer  de  Gabriel  Pereira,  «não  sofre 
duvida  que  esses  restos  do  primitivo  edifício  são  de 
época  romana;  teem  o  cunho  grandioso  e  solido  que 
essa  pasmosa  civilisação  sabia  imprimir  a  todas  as 
suas  obras ;   era  uma   construção   vasta,    de  robusta» 


fí* 


paredes  formadas  de  grossos  siihares  faciados  fortale- 
cidos por  contrafortes  bastante  próximos  para  susten- 
tarem superiormente  outros  silLares  de  grandes  di- 
mensões, formando  um  friso  qus  ainda  se  C(  nserva 
perfeito  na  face  oriental  da  egreja»  (opúsculo  citado, 
pag.  29). 


Líiçlo  poci^te  tio  toriiijlo 

Já  Cunha  Rivára  notara  a  forma  cruciai  do  edifício 
primitivo.  Efectivamente,  reconhece-se,  pela  parte 
ainda  existente  e  bem  conservada  dos  braços  lateraes, 
que  o  edifício  se  prolongava  bastante  para  o  poente  e 
nascente.    Do   lado   do    poente  uma  estrada  cortoue 


20 


arruinou  o  braço  em  cujo  extremo  se  abriga  hoje  a 
casa  do  sacristão;  do  lado  do  nascente,  o  cemitério  da 
aldeia  acantonou-se  dentro  dos  restos  do  braço  oposto 
(figura  8).  A  parte  mais  completa  do  edifício  é  aquela 
onde  fica  a  capela-mór,  e  esta  mesma  parte  suponho 
eu  que  terá  sido  sempre  a  cabeça  do  templo,  cuja  entra- 
da seria  também  pelo  lado  onde  hoje  se  abre  a  porta 
2^rincipal  do  santuário. 

Conserva  as  paredes  grossíssimas,  altas  uns  6  me- 
tros, apoiadas  em  contrafortes  enormes,  (fig.  7)  muito 
chegados  uns  aos  outros,  certamente  destinados  a 
aguentar  o  balanço  formidável  da  abobada,  que  tem 
mais  de  7  metros  de  vão. 

Do  lado  virado  ao  nascente  conserva- se  ainda,  no 
alto  do  edifício,  um  monolito  atravessado,  a  modo  de 
arquitrave.  Apoia-se  contra  essa  parte  um  anexo  da 
igreja',  a  sacristia,  que  Gabriel  Pereira  considerou 
também  romana.  Nisso  discordo  eu  do  ilustre  arqueó- 
logo. A  construção,  uma  quadra  quadrangular,  sim- 
ples, parece-me  posterior,  embora  levantada  com  si- 
Iharia  aproveitada  do  edifício  arruinado. 

Dentro  do  templo  pouco  ha  que  notar.  O  interior  é 
frio,  soturno,  com  pouca  luz.  Parece  mais  que  se  está 
dentro  d'uma  cisterna,  do  que  num  santuário.  O  altar- 
raór  fica  numa  absidiolo  que  se  projeta  pouco  fora 
da  j)arede.  A  porta  de  entrada  actual  para  a  capela- 
mór  rasga-se,  acanhada,  entre  dois  dos  grossos  gi- 
gantes. 

Para  a  esquerda,  abre-se  uma  passagem  para  a  sa- 
cristia, que  é  melhor  iluminada.  Em  toda  a  parte  as 
paredes  estão  lisas  e  nuas. 

O  corpo  da  egreja  é  desmonotonisado  por  4  pilas- 
tras,  sobre  cada  pár  das  quaes  se  arqueiam  dois  gros 


21 


SOS,  pesadíssimos  arcos.   Fariam  esses  arcos  já  parte 
da  construção  primitiva?  E'  muito  possivel. 

Gabriel  Pereira  acreditava  que  o  4.'*  braço  do  edifí- 
cio se  prolongava  uns  lõ  metros  para  o  norte,  ficando 
assim  o  templo  com  a  forma  de  cruz  latina.  Mas  seria 
isto  assim?  Não  apresentaria  a  construção  geral  o  fei- 


O  <ii.ie  resto  do  brac^o  >lo  v:>ocnlo 


tio  d'um  T?  O  lançamento  e  vastidão  dos  braços  le- 
vam-me,  embora  sem  convicção,  a  essa  hipótese. 

Pela  grossura  das  paredes  da  capela-mór  e  pelos 
seus  gigantes  vê-se  que  ela  deve  ter  sido  abobadada 

O  mesmo  não  pode  dizer  se  com  referencia  aos  la- 
dos, cuja  espessura  de  paredes  não  era  própria  para  •• 


aguentar  abobada.  O  tecto,  ahi,  apoiar-se  ia,  portanto, 
sobre  colunas. 

Que  tudo  aquilo  é  absolutamente  romano,  não  sofre 
duvida  alguma.  Basta  olhar  para  as  toscas  almofadas 
da  silharia,  iguaes  ás  da  porta  de  Aramenha,  da  ponte 
de  Vila  Formosa,  do  templo  de  Alcântara,  do  aque- 
duto da  Bobadela,  etc,  para  se  vêr  que  o  tipo  de 
construção  é  o  mesmo.  Quanto  à  época  de  erecção  do 
edifício,  pode,  talvez,  apontar-se  o  século  iii. 


O  que  era  o  vasto  edifício  romano  de  SanfAna  do 
Campo?  Com  toda  a  verosimilhança  um  templo.  E, 
dado  que,  segundo  os  antigos  autores,  ahi  apareceram 
inscrições  latinas  com  a  invocação  de  Carneiis,  prova- 
velmente seria  um  templo  dedicado  a  esta  divindade, 
deus  lusitanico  ou  anterior,  cujo  culto  prosseguiu. 

A  existência  de  um  templo  de  tão  avantajadas  di- 
mensões em  lugar  onde  outros  vestígios  romanos  não 
indicam  grande  povoação,  não  se  deve  estranhar.  Quan- 
tos santuários  famosos  não  se  isolam,  ainda  hoje,  en- 
tre meia  dúzia  de  casas  humildes? 

O  edifício  permanece  no  mesmo  estado,  pouco  mais 
ou  menos,  em  que  se  encontrava  no  meado  do  século 
xviii.  No  Diccionario  Geographico  do  P."  IjuÍz  Cardoso, 
de  que  o  distinto  arqueólogo  sr.  dr.  Mesquita  de  Fi- 
gueiredo extratou  para  o  Archeologo  Português  algumas 
informações,  depara-se  nos  a  seguinte  nota  sobre  a 
igreja  de  SanfAna: 

«He  a  capella-mór  e  parte  da  Igreja  feita  de  pedras 
de  desmarcada  grandeza,  lavrada  e  fabricada:  tem  cal 
até  o  telhado,  e  dizem  fora  obra  dos  Romanos,  o  que 


2ÍÍ 


pf.rece  se  prova  de  huma  pedra  mármore  onde  se  vem 
humas  letras  latinas.» 

E    continua  :    «Mandando  se   accrescentar  a  Igreja, 
taverá  dezaseis  annos...i)    Combinando   as   datas   da 


O  qvie  rest£i"cJo  liraço  do  nascente 


publicação  do  Diccionario  com  as  dos  prováveis  en- 
vios de  informações  paroquiaes,  e  com  a  de  1715,  que 
se  encontra  sobre  a  verga  da  porta  jírincipal,  podemos 
concluir  que  a  destruição  de  mais  um  bocado  do  ves- 
tuto  monumento  teve  lugar  no  começo  do  século  xviii. 
A  restauração  realizada  em  1884  poucos  mais  danos 
causou. 

O  que  resta  fazer? 


24 


Em  primeiro  lugar  levantar  uma  planta,  rigorosa, 
perfeita.  Depois  evitar  que  se  perca  o  resto  deste  ve- 
nerando monumento,  decerto  o  mais  importante  do 
Alentejo,  depois  do  templo  romano  de  Évora. 

Da  primeira  parte  poderá,   talvez,   encarregar-se  o 


L. 


Fig.  IO 
Planta  do  eclificio 


ilustre  professor  sr.  D.  José  Pessanha,  que,  com  os 
seus  alunos  de  Arquitetura,  já  levantou  as  plantas  de 
Balsemão  e  Lourosa.  O  resto  incumbe  ás  Comissões 
de  Monumentos,  tanto  mais  que  o  edifício  ó  já  consi- 
derado monumento  nacional.  Simplesmente  a  sua  de- 
signação está  errada.  Na  lista  respectiva  figuram  as 
ruinas  romanas  de  S.  João  do  Campo  (Arraiolos),  em 
vez  das  dô  SanfAna  do  Campo. 


A  Igreja  de  Louroza  da  5erra  da  Estrela 


[sTUDAVA  ainda  em  Coimbra  quando  tui  convi- 
dado por  um  amigo  (^)  a  visitar  o  seu  conce- 
lho, Oliveira  do  Hospital  onde,  dizia,  se  con- 
servavam interessantes  cousas  de  arte  e  arqueologia, 
como  a  capela  dos  Ferreiros,  a  Bobadela  e  a  igreja  de 
Louroza,  anterior  ao  ano  mil. 

Admirei  me.  Conhecia  as  mais  antigas  igrejas  de 
Portugal,  se  não  de  as  visitar,  ao  menos  das  referen- 
cias dos  entendidos  e  espantava-me  que  uma  de  tal 
antiguidade  tivesse  escapado  ao  estudo  dos  arqueólo- 
gos e  eruditos  portuguezes. 

Sabia  de  Balsemão,  que  uma  referencia  de  Filipe 
Simões  nos  «Escriptos  Diversos»  (-)  me  fizera  visitar 


(')  O  ilustre  artista  Antero  da  Veiga,  que  também  amavel- 
mente me  acompanhou  na  visita  a  Louroza. 

O  presente  trabalho  foi  publicado,  em  fins  de  1911,  na  «Folha 
de  Oliveira!,  jornal  de  que  aquele  meu  amigo  era  director. 

Avisado  por  um  amigo  da  região  de  que  eu  havia  estado  em 
Louroza,  o  sr.  Joaquim  de  Vasconcelos  apressou  se  sofrega- 
mente a  correr  lá  e  a  publicar  a  descrição  na  «Arte»  do  Porto, 
vindo  mais  tarde  acusar-me  de  falta  'de  originalidade.  O  meu 
trabalho,  saído  no  jornal  citado,  justifica-me  cabalmente  de  tal 
graçola.  O  facto  veio,  porem,  demonstrar  que  o  sr.  Joaquim  de 
Vasconcelos  é  da  espécie  do  José  Leite. . . 

(-)  «Escriptos  Diversos»  — Filipe  Simões,  pag.  156  e  seg. 


20 


e  que  uma  serie  de  artigos  do  sr.  Joaquim  de  Vascon- 
celos, na  «Arte»  (*)  do  Porto,  tornara  mais  conhecida. 
Considerava-a  o  mais  antigo  santuário  de  Portugal. 
Só  depois  apareciam  as  pequenas  igrejas  românicas  do 
Entre  Douro  e  Minho,  todas  porem  já  puramente  ro- 
mânicas e  posteriores  ao  milénio.  Ir-se-ia  preencher 
uma  lacuna  na  historia  da  arquitectura  portuguesa  ? 

Num  dos  derradeiros  dias  de  agosto  de  1911  parti 
de  Oliveira  do  Hospital  para  Louroza.  O  caminho  é 
delicioso.  Estrada  da  Beira  abaixo,  levando  a  acom- 
panhar, á  esquerda,  como  gigantesca  amiga,  a  serra  do 
Colcorinho,  dum  azul  muito  negro  em  que  as  capelas 
brancas  da  Senhora  das  Preces  mal  se  distinguiam, 
depressa  alcancei  as  Vendas  de  Galizes.  Deixando  en- 
tão essa  que  é  a  mais  linda  estrada  de  Portugal,  meti 
para  a  esquerda,  e,  tendo  avistado  primeiro  na  desci- 
da o  convento  de  Vila  Pouca,  cheguei  rapidamente  á 
igreja,  pouco  afastada  da  estrada. 

Louroza  é  uma  terra  antiga.  Quando  outra  cousa 
não  houvesse  para  o  demonstrar,  a  igreja  bastava ; 
mas  sobejam  por  lá  as  provas  documentaes. 

Em  volta  da  igreja,  em  frente  e  do  lado  direito, 
abrem-se  no  schisto  amarelado  da  região  umas  tantas 
sepulturas  com  a  forma  do  corpo,  perfeitas  ainda  al- 
gumas, destriiidas  em  grande  parte  as  restantes.  As 
melhor  conservadas  fazem  parte  de  um  grupo  de  oito, 
que  desde  debaixo  da  actual  torre  se  prolonga  uns 
três  metros  pelo  adro  fora,  á  esquerda  da  porta  prin- 
cipal, apreseutando-se  quatro  ou  cinco  quasi  comple- 
tamente perfeitas.  Ha-as  de  adulto  e  de  creança,  todas 
simples  e  de  arestas  vivas,  exceptuada  uma,  que  pos- 


C)  «A  Arte».  —  Revista  portuense,  1908. 


27 


sue,  excavado  em  toda  a  volta,  um  pequeno  resalto,  de- 
certo destinado  a  deixar  assentar  melhor  a  tampa, 
fosse  de  pedra  ou  de  madeira.  Todas  teem  no  alto  a 
■cavidade  circular  destinada  á  cabeça^  seguindo-se  de- 
pois o  resto  da  sepultura  cora  o  feitio  de  um  trapézio 
alongado  cuja  base  fosse  o  lado  onde  se  cava  a  cabe- 
ceira. Os  lados  dos  trapézios  onde  se  encontravam  os 
j)és  dos  defuntos  são  levemente  arredondados  era  al- 
gumas das  sepulturas  e  a  orientação  de  tudo  é  nitida- 
mente Este  —  Oest'i^,  ou  seja  a  cabeça  para  o  Oriente 
e  os  pés  para  o  Ocidente.  Noto-  que  são  demasiado 
estreitas,  comparadas  com  as  que  conheço  de  vários 
outros  pontos  do  nosso  pais,  onde  são  vulgares. 

Como  estas  existem  mais  no  concelho  de  Oliveira 
do  Hospital,  tendo-me  sido  apontadas  algumas  em 
Salgodins,  perto  de  S.  Paio,  e  dadas  informações  de 
que  muitas  mais  havia,  que  o  tempo  e  os  homens, 
mais  os  homens  que  o  tempo,  se  tinham  encarregado 
de  destruir. 

Para  o  lado  direito  da  igreja  prolongava-se  o  cemi- 
tério, e,  embora  muito  deteriorados,  reconhecera-se 
clararaente  cinco  leitos  sepulcraes. 

Deste  lado  ha  uma  porta  cujo  acesso  é  facilitado 
por  uma  escada  de  poucos  degraus.  Servindo  de  pavi- 
mento, no  patamar  desta,  encontra- se  ura  raonuraento 
funerário  romano:  uma  tampa  sepulcral,  em  feitio  de 
baú.  A  sua  posição  porem  está  invertida,  encontran- 
do-se  a  base,  maciça,  a  descoberto,  e  o  dorso  metid® 
na  parede  da  escada.  Nas  partes  que  tem  visíveis,  um 
<ios  topos  ©  a  base,  não  tem  inscrição  alguma,  sendo 
porem  provável,  ou  pelo  menos  possível,  que  a  tenha 
no  outro  topo,  ou  sobre  o  dorso. 

Estes  monumentos,  usados  pelos  luso-romanos  não 


28 


se  sabe  até  quando,  encontram-se  frequentemente  no 
Algarve,  Alentejo  e  Estremadura,  Colocavam-se  sobre 
os  túmulos  e,  quando  não  eram  apenigrafos,  diziam 
08  nomes,  filiação  e  idade  do  morto,  acrescentando 
em  geral  os  nomes  dos  parentes  que  mandavam  cons- 
truir o  monumento  e  uma  saudação  amável  como  o 
clássico  sit  tibi  terra  levis. 

Um  outro  achado  interessante  que  fiz  foi  o  de  uma 
ara  votiva.  No  lado  esquerdo  da  igreja  existe  um  ter- 
reno que  fica  entre  a  residência  paroquial  e  a  capela- 
mór;  esse  terreno  é  isolado  d'uma  horta  que  se  esten- 
de a  N.  E.,  por  um  grosso  muro  de  alvenaria  onde  se 
abre  uma  porta  que  estabelece  a  comunição  entre  os 
dois  terrenos.  A  porta  está  ligada  á  ombreira  esquer- 
da por  uns  duplos  gonzos,  afastados  um  metro.  No 
ponto  onde  se  cravam  as  ferragens  inferiores  encon- 
tra-se  deitada  uma  pedra  com  as  esquinas  chanfradas, 
cujo  feito  é  o  carateristico  das  aras  votivas.  * 

O  espigão  do  cachimbo  foi  pregado  precisamente 
sobre  a  inscrição,  inutilizando  algumas  letras.  Apezar 
disso  lê-se  ainda  claramente,  em  duas  linhas,  por  cima, 
O  M  e  inferiormente  V.  I.  As  letras  O  e  M  parecem 
da  usual  consagração  :  Deo  Óptimo  Máximo. 

As  aras  eram  também  monumentos  funerários  que 
os  devotos  ofereciam  e  consagravam  aos  manes  pelos 
mortos  queridos. 

Esta  nossa  é  de  granito,  dum  tipo  vulgar,  formada 
por  um  paralelepípedo  alongado,  de  secção  quadrada, 
que  nos  dois  extremos  alarga  formando  base  e  capitel^ 
desbastados  posteriormente  para  a  pedra  ser  adaptada, 
ao  uso  que  tem.  Na  parte  superior  conserva  ainda  a 
cavidade  sacrificial,  o  foculum. 

Espalhados  pela  povoação,  utilisados  nos  alpendres. 


29 


nas  lojas  e  nas  paredes  encontrei  vários  capiteis 
antigos  e  alguns  fustes  de  coluna  de  variados  diâ- 
metros. 

Para  detraz  da  capela-mór  da  igi'eja,  num  pequeno 
largo,  ergue-se  sobre  alguns  degraus  um  belo  e  forte 
pelourinho  que  me  parece,  pelo  apontamento  que  dele 
tenho,  do  ultimo  gótico. 

Nas  casas  nota-se  que  muitas  portas  e  janelas  tem 
as  esquinas  da  cantaria  chanfradas,  apresentando  uma 
agradável  distração  aos  olhos,  cançados  das  arestas 
modernas. 


liméMmÊmriíéki 


Kig.  11 
A.  inscriçfio 


Este  costume  de  chanfrar  as  arestas,  como  ornato, 
encontra  se  já  frequentemente  no  gótico,  aparece  mui- 
to no  manuelino,  toma  foros  de  cidade  durante  a  re- 
nascença e  o  seu  uso  prolonga-se  na  Beira  por  todo  o 
século  XVI  e  primeiro  quartel  do  XVII,  tendo  eu  eu- 


30 


centrado  já  na  região  portas  assim  ornadas,  com  as 
datas  de  1627  e  até  de  1632.  (i) 

Ha  também  na  freguezia  alguns  bons  exemplares  de 
edifícios  do  século  XVIII. 


Três  portas  estabelecem  a  comunicação  entre  o  in- 
terior e  o  exterior  da  igreja  :  a  principal,  emmoldurada, 
num  arco  banal  de  ombreiras  redondas,  do  século  XVII, 
a  da  direita,  de  que  já  falei,  onde  se  eníontra  a  tam- 
pa sepulcral  arciforme,  e  uma  terceira,  á  esquerda,  que 
serve  a  sacristia  e  a  capela- mór. 

Quem  descer  da  residência  paroquial  ao  terreiro 
encontra- se  em  frente  desta  ultima  porta,  que  á  pri- 
meira vista  nada  apresenta  de  notável  no  seu  simples 
caixilho  rectangular. 

Se,  porém,  olharmos  com  atenção,  depressa  repara" 
mos  que,  espalhados  pela  massa  da  parede  e  fora  dos 
se\is  logaros,  se  encontram  os  silhares  completos  de 
uma  primitiva  entrada,  cuja  armação  de  pedra  tinha 
na  parte  superior  a  forma  do  arco  de  volta  ultra  semi- 
circular. 

Entra-se  e  está-se  numa  pequena  sacristia,  logo  a 
seguir  na  capela  mór  e,  descendo  um  pouco,  encontra- 
mo-nos  dentro  do  corpo  principal  da  igreja,  em  cujo 
solo  levantaram  um  estrado  de  relativa  altura  para 
tornar  menos  sensível  a  diferença  de  nivel  entre  a 
capela-mór  e  o  resto  do  edifício. 


(1)  1627,  na  capelinha  da  S."  da  Ribeira,  sob  a  Povoa  das 
Quartas,  no  limite  do  concelho  de  Oliveira  do  Hospital,  e  1632 
no  portal  de  uma  casa  da  Bobadela. 


31 


O  corpo  da  igreja  acha-se  dividido  em  três  naves  de 
desigual  largura,  sendo  a  central  a  mais  ampla.  A  co- 
municação entre  elas  faz-se  de  um  e  outro  lado,  nas 
paredes  divisórias,  por  três  arcos  seguidos,  de  volta 
mais  que  semi- circular,  sendo  o  todo  estremaraente 
singelo  e  sem  ornatos.  A  serie  dos  arcos  apeia  se  nos 
dois  estremos  em  impostas  bastante  salientes  e  nos 
intervalos  em  ábacos  rectangulares  que  repousam  so- 
bre colunas  de  uma  espécie  de  ordem  toscana. 

Os  capiteis  são  do  tipo  vulgar  dessa  ordem,  iguaes 
ás  bases  de  coluna  de  S.  Pedro  de  Balsemão,  precisa- 
mente do  tipo  dos  muitos,  romanos,  que  aparecem  por 
todo  o  pais  e  especialmente  semelhantes  aos  de  Ida- 
nlia  a  Velha,  cidade  que,  como  é  sabido,  conservou 
importância,  até  á  conquista  árabe.  Os  fustes  são  lisos 
e  vão  perder-se  sob  o  taboado  do  estrado  que  cobre  o 
pavimento,  impedindo  que  se  veja  por  inteiro  a  cons- 
trução. 

Sobre  o  arco  da  capela-mór,  ao  centro,  olhando  o 
corpo  principal,  ha  um  retabulosiuho  de  pedra  com  a 
Crucifixação.  Assunto  e  logar  de  colocação  são  fre- 
quentes em  templos  góticos  do  distrito  de  Coimbra. 
Deste  género  existe  um,  muito  bom,  na  igreja  da  Pam- 
pilhosa do  Botão. 

Na  nave  esquerda  ha  algumas  particularidades  :  no 
topo  dela  aparece,  desemtaipado  já,  um  arco  que  esta- 
va metido  na  parede  e  estabelecia  outrora  uma  segun- 
da passagem  para  a  parte  superior  do  templo.  Esse 
arco  é  perfeitamente  igual  aos  restantes. 

Ao  fundo  da  mesma  nave  começa  uma  escada  de 
pedra  que  conduz  ao  coro.  Ali,  sob  uma  janela  gemi- 
nada cujos  arcos  também  são  de  ferradura,  encon- 
tra-se  embutida  na  parede,    ao    rez    do    soalho,   uma 


32 


grande  lage  onde  se  acha  gravada  a  certidão  de  idade 
da  igreja.  Lá  está  bem  claro  :  ERA  dccccx  :  A  ultima 
letra,  que  eu  primeiro  confundi  com  um  x  mal  feito, 
está  provado  definitivamente  que  é  um  l. 

Descendo,  encontramos  ainda,  a  seguir  aos  arcos 
lateraes,  quasi  debaixo  do  coro,  duas  capelas  modifica- 
das no  século  XVII  juntamente  com  o  portal  da  igreja. 
A  época  exacta  da  sua  reconstrução  é  talvez  1632 
porque  é  esta  a  data  que  se  encontra  no  altar  da  ca- 
pela da  direita. 

Nesse  mesmo  altar,  a  um  lado,  ha  uma  interessante 
virgem  gótica  do  tipo  das  que  o  Museu  do  Instituto 
guarda,  do  século  XIV,  e  igual  ás  duas  do  retábulo  da 
capela  dos  Ferreiros,  em  Oliveira.  A  imagem  está  co- 
roada de  coroa  baixa,  aberta,  assentando  no  lenço  que 
lhe  cae  sobre  os  ombros,  e  tem  o  menino  ao  colo,  de 
lado,  apresentando  ela  o  corpo  torcido,  ca^nhré  com  o 
movimento  de  o  segurar,  p.titude  que  é  cheia  de  vida 
para  a  rudeza  da  época. 

Sobre  a  parede,  onde  se  crava  a  ultima  imposta  da 
arcaria  esquerda,  no  fundo  da  igreja,  está  gravada 
uma  data  que,  pela  rapidez  da  minha  visita  e  pela  ca- 
mada de  cal  que  a  cobre,  não  pude  ler  completamente. 
As  letras  estão  em  duas  linhas  sobrepostas,  separadas 
por  um  traço  e  lê-se  por  cima  COXXVI,  e  inferior- 
mente, E.  M. 

Conhecida  já  a  época  da  construcção  do  monumento 
de  Louroza,  ocorre  perguntar.  No  tempo  em  que  foi 
levantado,  não  estava  a  Península  em  poder  dos  ára- 
bes e  africanos  ?  Consentiriam  eles  que  os  cristãos  eri- 
gissem templos  da  sua  religião  ? 

Facilmente  se  responde  a  estas  interrogações.  O 
árabe  era  tolerante  como  o  fora  o  romano  e  fechava 


na 


Aro  o  laternl 


OS  olhos  ante  essas  crenças  diferentes  que  humilde  e 
publicamente  se  praticavam,  porque  nenhum  perigo 
politico  lhe  traziam.  Construiram-se  até  igrejas  e  con- 
ventos. Numerosíssima  foi  a  população  monástica  mo- 
sarabe    porque    os    mahometanos    consentiram    a    sua 


M 


continuação.  Na  serra  de  Córdova  viviam  em  paz  mui- 
tos frades  e  em  Portugal  o  mosteiro  de  Lorvão,  da 
ordem  de  S.  Bento,  fundado  no  século  vii,  conserva- 
se  e,  progredia.  A  razão  da  raridade  das  construções 
religiosas  vigisodas  e  asturianas  deve-se,  não  aos  ára- 
bes, mas  sim  ao  furor  de  reformar  de  que  os  portu- 
gueses sempre  sofreram  do  século  xii  ao  xx. 

Podia  portanto  a  igreja  ter  sido  fundada  em  pleno 
domínio  sarraceno;  mas  não  precisamos  sequer  de  re- 
correr á  benevolência  dos  infiéis  :  basta-nos  o  exame 
da  cronologia  da  época,  apezar  dos  documentos  serem 
poucos  e  vagos,  para  ficarmos  convencidos  de  que  o 
devoto  ou  devotos  que  a  mandaram  construir,  viviam 
em  território  cristão  reconquistado. 

Os  árabes  entraram  na  Peninsula  em  711  ou  712  e 
depressa  a  tinham  em  seu  poder,  exceptuada  a  parte 
mais  norte.  Nos  fins  do  mesmo  século  viii  já  Afonso  ii, 
o  Casto,  faz  uma  correria  até  ás  margens  do  Tejo.  (^) 
Entre  866  e  910,  Afonso  iii  senliorea-se  das  regiões 
de  Lamego,  Vizeu  e  Coimbra.  (-) 

Coevas  de  Louroza  e  identicamente  construidas  são 
as  igrejas  asturianas  que  os  reconquistadôres  da  parte 
norte  da  Peninsula  iam  levantando  onde  quer  que 
assentavam  as  suas  tendas  com  demora. 

A  reconquista  começara  terminada  apenas  a  ocupa- 
ção árabe.  No  alto  das  montanhas  haviam  ficado,  inde- 
pendentes e  indomáveis,  os  rudes  habitantes  das  Astú- 
rias, e  agora  precipitavam-se   como   um  rio  em  cheia 


(')  «Historia  de  Portugal»  —Herculano.  l.''ilo. 
'  (2)  oPort.  Mou.  Hist  », — «Scriptores»,  20,  e  um  magniíico  arti- 
go sobre  cronologia  medieval  publicado  pelo  sr.  Pedro  de  Aze- 
vedo no  «Arqueólogo  Português»  Vol.  13,  pag.  t>7  e  seg. 


35 


sobre  o.s  seus  inimigos,  começando  um  embate  formi- 
dável que  só  sete  séculos  caídos  conseguia  romper  e 
levar  para  o  mar  as  muralhas  que  lhe  opunham. 

Essa  reconquista  teve,  do  século  viii  ao  xi,  o  pe- 
ríodo mais  perigoso  e  duro,  porque  de  um  momento 
para  o  outro  os  árabes  podiam  reunir  se  e  subverter 
os  incipientes  reinos  cristãos.  Nesse  espaço  de  três 
séculos  o  estilo  seguido  nas  construções  foi  o  anterior 
estilo  visigótico,  um  tudo  nada  modificado.  O  arco  de 
ferradura  adoptado  nos  edifícios  da  época  foi  uma 
natural  consequência  da  arquitetura  cristã,  cuja  tradi- 
ção os  asturianos  representavam.  Basta  citar  para 
exemplo  as  igrejas  de  Lino,  Naranco  e  Lena. 

Louroza  integra-se  portanto  dentro  de  um  ciclo  de 
construções  de  caracter  defioido,  infelizmente  sem 
outro  representante  em  Portugal.  Balsemão,  nos  arre- 
dores de  Lamego,  é,  segundo  o  ilustre  escritor  espa- 
nhol D.  Vicente  Lamperez,  visigótico  e  do  século  vil. 
Em  números  sucessivos  da  Arte^  revista  portuense, 
inseriu  em  1908  o  sr.  Joaquim  de  Vasconcellos  um 
■estudo  sobre  o  que  ele  chama  o  único  exemplar  da 
arquitectura  latino- bizantina  em  Portugal, 

A  nossa  historia  da  arte  tem  agora  para  colocar  ao 
lado  dela  a  não  menos  notável  igreja  de  Louroza,  do 
concelho  de  Oliveira  do  Hospital,  melhor  conservada 
<3omquanto  menos  interessante  nos  detalhes  do  que  a 
de  Balsemão. 

O  plano  nas  duas  ó  idêntico,  mas  o  tamanho  de 
Louroza  maior.  Ha  também  outras  diferenças  impor- 
tantes como,  por  exemplo,  nas  respectivas  capelas-mó- 
res.  Uma  completa  a  outra.  Por  ambas  se  pode  fazer 
ideia  do  estilo  de  construção  usado  na  terra  portu- 
gueza  anteriormente  ao  românico. 


36 


A  disposição  do  corpo  da  igreja,  em  ambos  os  san- 
tuários, encontra-se  em  momimentos  espanhoes  da^ 
mesma  época,  como  seja  em  San  Julian  de  Prados 
(Santullano)  que  foi  fundada,  pareoe-me,  por  Afonso  o 
Casto,  e  cujo  plano,  até  ao  cruzeiro,  é  igual  ao  das 
nossas  duas  igrejas,  podendo  bem  considerar-se  o  tipo 
perfeito  da  bazilica  latina  de  3  naves  e  3  absides,  de 
planta  quadrada  ou  rectangular  com  cobertura  de  ma- 
deira. O  mesmo  se  dá  com  S.  Salvador  de  Priesca,  de 
3  naves  e  3"  arcos  de  leve  ferradura  em  cada  parede 
divisória,  a  qual  foi  sagrada  na  era  de  DCCCCLVIII 
(920). 

Em  Balsemão  os  arcos  descançam  directamente  so- 
bre os  capiteis,  para  ali  trazidos  posteriormente  e 
adaptados,  pois  que  os  primitivos  deviam  correspon- 
der ás  bases  que  lá  se  vêem.  Em  Louroza  os  arcos  de 
volta  de  ferradura  assentam  em  ábacos  largos  qu^,  por 
seu  turno,  se  apriiam  em  capiteis  e  fustes  cujos  diâme- 
tros se  harmonizam  perfeitamente. 

Este  facto  esclarece  o  caso  de  Balsemão,  já  indica- 
do pelo  sr.  Vasconcelos.  Aos  arcos  deste  santuário 
foram  tirados  os  silhares  que  faziam  a  curva  inferior 
da  volta  d©  ferradura ;  e  os  capiteis  que  havia  substi- 
tuídos pelos  que  lá  estão  hoje  os  quaes  foram  á  certa 
trazidos  de  alguma  estação  romana  das  visinhanças.  (') 

Em  Balsemão,  a  comunicação  entre  o  corpo  do  san- 
tuário e  a  capela-mór  faz-se  por  ura  só  arco,  esse  com 
a  volta  de  ferradura  bem  clara,  mas  alteado  por  lhe 
terem  metido  de  cada  lado  um  novo  silhar,  o  que  deu 


(')  O  mesmo  facto  se  deu  em  Santa  Comba  de  Bande.  Os  ca- 
piteis da  igreja  foram  levados  para  lá  de  umas  termas  roma- 
nas, vizinhas. 


87 


lima  forma  extravagante  ao  conjunto.  Pelo  lado  de 
dentro  conhece-se  que  não  podia  ter  havido  outra 
passagem  para  o  corpo  da  egreja.  De  facto,  corre  na 
parede,  á  altura  das  impostas  e  partindo  delas,  um 
tríplice  cordão  gravado,  cuja  origem  vem  de  tão  lon- 
ge que  já  o  encontrei  nas  lapides  visigóticas  de  Mer- 
tola,  numa  tampa  sepulcral  do  templo  de  Endovelicò 
e  nas  portadas  das  cividades  minhotas  e  galegas. 

E  não  é  esta  a  uniua  aproximação  que  se  pôde  fazer 
«ntre  a  arte  decorativa  de  Balsemão  e  a  arte  protois- 
torica,  visigoda  e  mesmo  lusitana.  Os  sivasticas  e  as 
rosetas  sexifolias  aparecem  nas  cividades,  nas  inscri- 
ções luso-romanas,  na  arquitectura  visigoda,  asturia- 
na e  mosarabe,  e  até  na  românica. 

Para  exemplo  das  primeiras  basta  citar  Briteiros, 
Sabrôso  e  Monte  Redondo  ;  para  as  segundas,  as  4 
stelas  votivas  de  que  já  falei  e  muitas  outras  que  o 
Museu  Etnológico  possue.  Para  a  arquitectura  visigo- 
da serve  S-  Pedro  de  Nave  (Zamora)  em  que  a  meia 
altura  das  paredes  corre  uma  liuHa  de  gravuras  na 
pedra,  em  que  se  alternam  os  swasticas  &  as  rosetas ; 
para  a  asturiana,  S.^»  Cristina  de  Lena  e  a  sua  irmã 
Santa  Maria  de  Naranco  (Oviedo) ;  para  a  mosarabe  o 
Canecillo  de  San  Miguel  de  la  Cogolla  de  Suso  i;Lo- 
grôno) ;  para  a  românica,  por  exemplo,  os  arcos  do 
portal  de  S.  Pedro  de  Gailiganes,  emGerona  (rosetas), 
ou  os  ábacos  (como  em  Balsemão)  de  San  Pablo  dei 
Campo,  em  Barcelona.  (') 

Esta  barbara  ornamentação,  (de  que  Balsemão  tem 
tão   deliciosos  specimens)  alcança  tanta  brutalidade  e 

(')  Elementos  de  um  trabalho  em  preparação.  «A  roseta  sexi- 
íolia  como  motivo  ornamental  popular». 


•ÓS 


rudeza  no  tímpano  do  pórtico  de  S.  Fiz  de  Cangas 
(Galiza),  que  é  românico,  que  a  gente  qaasi  duvida  se 
a  pedra  não  seria  trazida  para  lá  dalguma  rude  «cita- 
nia»  dos  arredores.  Não  ha  duvida  que  todos  estes 
motivos  ornamentaes,  os  de  Balsemão  e  os  espanhoes, 
são,  como  diz  Lampérez,  «la  turbia  cristalizacion  á 
través  los  siglos  de  formas  tradicionales.» 

Infelizmente  toda  esta  brilhante  arte  decorativa  fal- 
ta em  Louroza. 

Terminando.  Louroza  aparece  frequentemente  cita- 
da em  documentos.  Nas  Inquirições  de  Afonso  III,  era 
que  é  inquirida  juntamente  com  Villa  Pouca;  na  Ta- 
voada  dos  Foraes  Novos  da  Comarca  da  Beira,  em 
que  se  diz  que  apezar  de  haver  memoria  de  antigo, 
particular,  foral,  a  terra  é  do  Bispo  de  Coimbra ;  e  nas 
Memorias  Parochiaes  de  1758  (*),  onde  o  parocho  para 
a  distinguir  da  Louroza  da  comarca  da  Feira,  lhe 
chama  Louroza  da  Serra  da  Estrella,  titulo  que  ado- 
pto para  este  estudo.  Ha  bastantes  anos  que  esta 
igreja  de  Louroza  era  conhecida  e  tida  como  antiga^ 
porque  já  numa  corografia  do  districto  de  Coimbra 
se  diz  :  (^)  «E'  de  fundação  antiquissima  esta  povoação 
e  notável  a  sua  igreja  em  estilo  góticos.  O  auctor  pelo 
visto,  só  olhou  para  os  arcos  aguçados  das  sineiras . .  . 


(•)  oMomoriab  Parochiaes»-V-21-n.'' 147,  pag.  1281. 
(2)  oCorogralia  do  Dist.  de  Coimbra» — Agostinho  d'Andrade, 
1896,  pag.  145. 


Monumentos  medievais  de  Lamego 


^ORTUGAL  é  um  país  em  que  os  grandes  monu- 
fjfíi  mentos  são  raros.  Aqueles  que  a  devoção  e  o 

^^b  fausto  dos  reis  e  ricomens  levantaram,  dos  sé- 
culos XI  ao  XV,  pelos  vales  tranquilos  e  transbordantes 
de  água,  levaram-nos  na  maior  parte  os  séculos  seguin- 
tes, sorvidos  na  voragem  das  guerras  e  dos  terremo-^ 
tos,  ou  transformados  pelas  riquezas  da  ludia  e  pelos 
ouros  e  diamantes  do  Brasil.  Por  isso,  e  ao  contrário  do 
que  sucede  nos  países  do  centro  da  Europa,  onde  cada 
igreja  de  comuna  é  um  monumento  a  visitar,  a  nossa 
primitiva  arquitectura  só  excecionalmente  se  mani- 
festa em  edifícios  grandiosos. 

Se  porém  a  sorte  dos  grandes  monumentos  os  levou 
a  destruições  totais  ou  a  reconstruções  desastradas,  o 
mesmo  não  aconteceu,  felizmente,  a  muitas  igrejinLas 
humildes,  conservadas  intactas  na  sua  pobresa  e  na  da 
freguesia  que  representam  religiosamente,  providen- 
cialmente  libertas  de  doadores,  reformadores  e  brasi- 
leiros ricos. 

São  numerosíssimas  ainda,  desfiando-se  pelas  ser- 
ras e  socalcos  de  Trás-os  Montes,  pelos  outeiros  e 
vales  idílicos  do  Minho,  ou  pelas  agrestes  chapadas 
das  Altas  Beiras,  fazendo  presistir  na  paisagem  e  nos 
povoados,  com  a  negrura  dos  seus  arcaboiços  de  pedra, 


40 


um  pouco  da  rudeza  dos  tempos  remotos  em  que  os 
ergueram.  Inabaláveis,  compactos,  humildes  na  sua 
rude  e  desataviada  fábrica,  indissoluvelmente  ligados 
à  terra  de  que  pouco  parecem  querer  afastar  se,  ê^^ses 
monumentos  româuicos,  da  transição  e  do  primeiro 
gótico,  revelam  melhor  do  que  quaisquer  outros  do- 
cumentos o  espírito  e  a  vida  dos  séculos  que  os 
viram  surgir  da  terra. 

Sobre  os  santuários  primitivos  do  Minho  escreveu 
com  profundo  conhecimento  e  erudição  o  dr.  Manuel 
Monteiro,  tendo  o  sr.  Marques  Abreu  reproduzido 
numerosos  e  interessantes  aspectos  de  igrejas  de  todo 
o  Norte.  Há,  porém,  tanto  que  fazer  nesse  campo,  que 
a  tarefa  pode  dizer-se  apenas  iniciada. 

Tendo  descoberto  ou  visitado,  numa  zona  da  mar- 
gem esquerda  do  Douro  que  tem  por  cabeça  Lamego, 
alguns  edifícios  arcaicos  de  bastante  inteiêsse,  julgo 
de  meu  dever  relaciona  los  desde  já,  como  subsídio 
para  um  trabalho  de  maior  vulto  que  os  descreva  e 
integre  na  história  da  nossa  arquitetura. 

Sem  falar  de  Balsemão,  distante  meia  légua  da  ci- 
dade, e  que  o  ilustre  historiador  e  aruuiteto  espanhol, 
D.  Vicente  Lampere^:  y  Romea  considera  do  século  vii, 
o  que,  apesar  de  opmião  diversa  do  sr.  Joaquim  de 
Vasconcelos,  deve  ter-se  como  verdadeiro,  existem, 
dentro  de  Lamego  mesmo,  os  seguintes  edifícios  le- 
vantados dos  séculos  XI  a  xin : 


Torre  da  Sic.  Esplendida  construção  do  fira  do 
século  XII,  ó  o  que  resta  da  catedral  românica  mais 
tarde  substituída  por  uma  gótica  e  por  fim  pela  que 
lá  se  encontra  ainda.   A  silliaria  que  a  compõe  está 


toda  siglada,  e  três  das  suas  paredes  são  vasadas  de 
janelas  de  arco  aguçado  ou  trilobulado. 

Igreja  de  Santa  Maria  d'Almacave.  Fundação  da 
mesma  época.  De  antigo  conserva:  a  porta  principal, 
de  arco  aguçado,  com  três  arqui voltas  e  faixa  axadre- 
zada debruando  a  mais  larga  destas ;  as  duas  por- 
tas laterais,  de  verga  recta  aguentada  em  modilhões 
voltados  para  a  abertura  ;  e  uma  cruz  talhada  num 
círculo  e  de  braços  vasados  que  assenta  sobre  a  em- 
pena da  fachada. 

Castelo  (Tokkes  Muralhas  e  Cisterna).  No  cas- 
telo de  Lamego,  ainda  perfeitamente  delimitado  pelas 
muralhas  primitivas,  com  as  suas  portas  de  entrada 
(esta  apertada  entre  dois  cubelos)  e  de  saída,  bem 
conservadas,  e  as  suas  torres,  entre  as  quais  a  de  Me- 
nagem, um  pouco  arruinada  mas  erguendo-se  ainda  al- 
tivamente no  tope  da  coliua,  encontra-se  um  conjunto 
muito  notável  de  construçães  do  século  xiii.  Um  dos 
monumentos  mais  interessantes  dessa  série  ó,  sem  dú- 
vida, a  cisterna,  porventura  a  melhor  conservada  do 
país,  longa  uns  vinte  metros,  larga  metade,  alta  outro 
tanto,  toda  de  silharia  retangular,  unida,  lavrada  de 
pico  miúdo  e  siglada,  abobadada  e  com  a  volta  das 
ogivas  sustentada  por  cintas  grossas  que  se  estribam 
em  pilares  da  mesma  espessura,  o  que  tudo  dá  ao 
depósito  do  água  a  feição  de  uma  igreja  da  época. 

Mosteiro  de  S.  JoÀo  de  Tarouca.  A  primeira  pe- 
dra da  igreja  do  mosteiro  afirma-se  que  foi  lançada 
por  Afonso  Henriques  á  volta  da  sua  correria  de 
Trancoso  contra  os  Mouros.   Pela  inscrição  que  ain- 


da  se  conserva  iia  frontaria  —  Fundata  fuit  ista  Era 
M.  C.  Lx.  II  ka/end.  Jidij  —  conhece-se  que  as  obras 
começaram  ou  terminaram  a  30  de  Junho  de  1152  ;  e 
por  um  outro  letreiro  que  ainda  no  século  XV)I  se  en- 
contrava no  templo,  sabe-se  também  que  o  arquiteto 
foi  o  mestre  João  Froilaz,  de  Tarouca  :  —  Toannes  Froy- 
laci  de  larauca  fecit  hoc. 

Embora  houvessem  sido  vándaiicamente  destruídos, 
antes  de  1910,  vastos  edifícios  antigos  do  convento, 
obras  talvez  do  século  xiii,  ainda  aí  restam,  das  pri- 
mitivas construções,  uma  extraordinária  galeria  cobrin- 
do um  ribeiro,  muros,  e  a  igreja  que  é  ampla,  de  três 
naves,  de  estrutura  absolutamente  românica,  apesar 
dos  arcos  aguçados  das  portas  e  das  cintas  das  abo- 
badas. 

Igreja  paroquial  de  Tarouca.  Importante  monu- 
mento que  descobri  por  acaso,  pois  atraídos  pela  fama 
do  mosteiro,  nunca  os  viajantes  se  dirigem  a  Tarouca, 
vila  e  cabeça  de  concelho.  Esta  igreja,  do  fim  do  sé- 
culo xn,  conserva  o  aspecto  exterior  primitivo,  com  a 
porta  lateral,  magnifica  e  assente  sobre  um  corpo  sa- 
liente, mais  imponente  que  a  da  frente ;  a  empena  das 
sineiras,  de  arcos  aguçados  e  sobre  o  lado  direito,  com 
seu  patim  de  serviço  exterior,  partindo  do  coro  ;  e  a 
linha  dos  cachorros  multiformes,  intacta.  O  interior, 
modificado  nos  séculos  posteriores,  não  corresponde 
ao  aspecto  externo. 

Mosteiro  da  Salzeda.  Sagrou-se  a  igreja  deste 
Mosteiro  no  ano  ue  1225  {MonarcJi.  Lus.  L.  AY,  p.  240 
e  ss.).  O  edifício  primitivo,  fundado  por  D.  Tareja 
Aíbnso,  mulher  de  Egas  Moniz,  está  mascarado  pelas 


obras  realizadas  no  século  xviii,  revelando-se,  porém, 
ainda  por  um  arco  da  nave  lateral  esquerda,  e  pela 
silharia  das  paredes  para  o  lado  dos  claustros,  que 
aparece  toda  em  ordem  e  siglada.  Era  uma  linda 
igreja  de  três  naves,  maior  e  muito  mais  interessante 
que  a  de  S.  João  de  Tarouca,  a  que  infelizmente  os 
reformadores  setecentistas  íizeram  perder  o  carácter 
e  a  maírestade. 


Igreja  de  Santa  Maria  de  Cárquere.  A  uns  quatro 
quilómetros  de  Resende,  na  encosta  da  serra.  Fundação 
de  D.  Afonso  Henriques  (?),  que  por  intercessão  da  Sr.^ 
de  Cárquere  se  curou  de  um  defeito  nas  pernas,  mo- 
léstia com  que  havia  nascido.  Da  primitiva  igreja  resta 
uma  pequena  quadra  de  silharia  regular,  cintada  por  uma 
faixa  de  entrelaçado,  em  relevo.  Numa  das  faces  dessa 
construção  abre-se  uma  lirrda  janela  de  volta  redonda 
que  noutro  lugar  deste  liyro  descrevo  e  reproduzo. 

Igreja  de  S.  Martinho  de  Mouros.  Fica  a  fregue- 
sia,  de  que  a  velha  e  imponente  igreja  jie  S.  Martinho 
é  cabeça,  na  vertente  esquerda  da  conca  do  Douro,  a 
umas  quatro  léguas  de  Lamego,  sobre  a  estrada  que 
segue  para  Resende. 

O  templo  é  de  traça  e  tipo  desusado  entre  os  monu- 
mentos românicos  que  tenho  estudado  na  região.  Em 
vez  da  carateristica  empena  das  sineiras,  com  duas  ou 
três  aberturas,  alçada  sobre  a  fachada  ou  sobre  um 
dos  lados,  possue  este  santuário  uma  espécie  de  torre 
assente  sobre  a  frente  da  construção,  a  meio  da  qual, 
vasado  de  arcos  gémeos  e  aguçados,  se  levanta  um 
paralelepípedo  de  cantaria  que  abriga  os  sinos. 


44 


Igkeja  de  Barro.  Situada  sobre  a  estrada  de  Resende, 
a  três  léguas  de  Lamego  e  a  uma  de  S.  Martinho  de 
Mouros,  porem  mais  chegada  à  corrente  do  Douro  do 
que  esta  última  povoação.  Interessante  monumento 
românico  cujo  ar  de  vetustez  é  somente  perturbado 
por  uma  torre  moderna  que  encostaram  ao  edifício  e 
pela  visinhança  de  umas  casas  de  brasileiro  rico,  todas 
berrantes  de  telha  marselheza. 


Igreja  de  Barcos.  A  freguezia  de  Barcos,  perten- 
cente ao  concelho  de  Taboaço,  dista  desta  vila  uns 
quatro  quilómetros  e  fica  situada  sobre  a  cumiada  dos 
montes  que  formam  o  primeiro  socalco  da  muralha  es- 
querda do  vale  do  Douro.  A  igreja  paroquial  é  um 
interessante  exemplar  românico  que  conserva  em 
muito  bom  estado  a  sua  porta  principal  de  volta  re- 
donda e.  as  lateraes  de  arcos  aguçados.  A  cachorrada 
está  completa,  e  todos  os  cantos  ou  silhares  aparecem 
siglados.  Deve  ter  sido  levantada  esta  egreja  entre  os 
meados  dos  séculos  xii  e  xiii. 

Capela  de  Sabrôso.  A  uns  três  quilómetros  de  Bar- 
cos, para  poente,  em  lugar  despovoado,  nas  faldas  de 
um  cabeço  pedregoso  e  regular,  ergue-se  esta  capela 
românica,  porventura  erguida  pelos  mesmo  arquitéto 
e  canteiros  que  traçou  e  lavraram  a  paroquial  de  Bar- 
cos. Conserva  intacta  a  sua  porta  principal,  muito  sim- 
ples, parte  das  paredes,  e  a  cachorrada  da  capela-mór, 
sendo  a  decoração  dos  modilhões  idêntica  àquela  com 
que  deparamos  na  igreja  da  vila  visinha.  Parece  me 
uma  construção  do  começo  do  século  xiii. 

Conserva  ainda,  no  adro  devastado,  numerosas  pedras 


45 


sepulcraes   contemporâneas   dos   primeiros   tempos  da 
fundação. 

Igreja  de  Armamar.  Desconhecida  dos  arqueólogos 
e  historiógrafos  de  arte,  como  algumas  das  anterior- 
mente descritas,  a  igreja  matriz  de  Armamar  é  um 
belo  edifício  românico  de  três  naves,  magnificamente 
conservado.  As  janelas,  tanto  da  sua  grande  abside 
semi-circular  como  dos  dois  absidiolos  que  a  acolitam, 
foram,  porém,  no  século  xvii  transformadas  em  nichos, 
hoje  ocupados  por  três  imagens  de  calcareo  fino,  muito 
boas  esculturas  de  começo  do  século  xvi,  que  mete  dó 
ver  expostas  ás  intempéries  e  aos  estragos  do  rapazio. 

A  porta  principal  é  de  arco  aguçado,  com  duas  ar- 
quivoltas  simples,  cujos  ábacos  e  impostas  são  adorna- 
dos de  bolas.  A  cachorrada  permanece  intacta,  cons- 
tando a  sua  decoração  de  barris,  rolos,  cabeças  de 
javardo  e  esferas.  Toda  a  silharia  está  siglada,  sendo 
muitas  das  siglas  semelhantes  ás  do  Castelo  de  Lamego 
e  Salzedas.  Deve  datar  do  começo  do  século  xiir. 

Existem  ainda  na  mesma  área  de  Lamego  três  mo- 
nomentos  arcaicos  já  plenamente  góticos,  posteriores, 
portanto,  aos  que  acabo  de  mencionar,  e  dos  quais  a 
seu  tempo  me  ocuparei.  São  eles  : 

A  Capela  de  S   Domingos  de  Queimada, 

A  Ponte  e  a  Torre  de  Ucanha, 

A  Torre  do  antigo  convento  de  Ferreirim. 


Nossa  Senhora  de  Cárquere 


jE  Resende   a   Cárquere,   não   chega  a  ser  uma 
légua. 

Sobe  se  por  íngremes  ladeiras,  calçadas  de 
granito  em  blocos  almofadados  e  polidos  pelo  uso,  até 
á  Feira  Nova,  onde  se  entra  sob  um  docel  de  rama- 
das. Daí  para  diante  o  caminho  velho  segue  quási  em 
plano,  pelo  fundo  de  um  vale,  direito  aos  montes  ane- 
grados  que  trepam  para  as  alturas  cobertos  de  arvo- 
redo. A  que  altitude  se  está  já  acima  da  corrente  do 
Douro  !  E,  comtudo,  quanto  ^ão  tem  que  se  escalar 
ainda,  para  alcançar  esses  povoados  serranos  que  se 
alcandoram  entre  os  rochedos  e  os  castanheiros  secu- 
lares ! 

E  manhã  cedo,  e  a  terra,  empapada  da  água  das 
regas  e  do  orvalho,  rescende  frescura.  Como  no  Mi- 
nho e  na  Campania,  a  vinha  enleia-se  no  arvoredo 
solto,  abandonando  braços  que  se  inclinam  e  nos  roçam 
com  doçura  na  passagem. 

Destacado  na  serra  como  um  promontório^  o  morro 
de  Cárquere  aparece,  sobre  a  direita,  as  linhas  indis- 
tintas na  vegetação  envolvente. 

G-alga-se  a  ponte  de  alto  arco,  que  um  painel  devoto 
sagra,  na  entrada,  e  eis-nos  de  novo  a  subir.  De  um 
lado   e  outro: — paredes    novas,   com  o   granito,    alvo 


48 


como  mármore  granuloso,  a  luzir  ;  casas  semeadas  ao 
acaso  das  pousas  da  ladeira;  cantilenas  monótonas  de 
tear  ou  rumores  abafados  de  malhadas  ;  castanheiros 
pingando  ouriços  arreganhados,  os  beiços  espinhosos 
entre  verde  e  leite ;  alminhas  em  blocos  isolados ; 
águas  claras  —  alma  da  serra  —  descendo  em  minúscu- 
las cascatas,  empoçando  aqui,  serpenteando  ali,  sal- 
tando mais  abaixo,  aromatisando  tudo  de  frescor ; 
milhos  tenrinhos — notreza  do  pobre— vagamente íiôr. 
delisados.  .  Atraveissa-se  um  recanto  adorável  da  ter- 
ra portugueza. 

Estamos  no  alto  da  encosta. —  Um  canastro  erguido 
sobre  piões  e  mós  de  pedra — possivelmente  verdadei- 
ras mós  romanas  — ,  uma  capelinha  aberta,  sob  que  se 
abriga  uma  escultura  barbara,  e  eis  a  torre  de  Cár- 
quere,  maciça  e  ameada,  escurecida  e  tristonha,  em 
toda  a  sua  rústica  imponência  de  atalaia  serrana. 


Conforme  narra  Duarte  Galvão  na  sua  Ckronica  del- 
rey  D.  Affmso  Henrigues,  publicada  em  Lisboa  em 
1726  por  Miguel  Lopes  Ferreira,  o  primeiro  rei  de 
Portugal  nasceu  em  Guimarães  no  ano  de  1094  (1).  O 
filho  de  D.  Teresa  e  do  conde  D.  Henrique,  ainda  que 
formoso  e  bem  conformado,  viera,  porém,  á  luz  com 
as  pernas  pegadas  dos  joelhos  para  baixo.  «Pegadas 
las  piernas  desde  las  rodillas  a  los  tovillos»,  esclarece 
eruditamente  Faria  e  Souza  (Europa  Portiig.y  t.  ir, 
p.  32). 

Egas   Moniz,    ricomem    de   Entre    Douro   e    Minho,. 

(')  Outros  escrevem  que  em  1]09. 


40 


levou  o  menino  paia  a  sua  companhia  e  consigo  o 
conservou  durante  largo  tempo,  pedindo  sempre  a 
Deus,  para  seu  amo,  o  «exercicio  dos  pés  que  a  natu- 
reza lhe  negava».  E  aqui  sucede  a  maravilha  que 
Duarte  Galvão  relata  a  páginas  3  e  5  da  sua  Crónica: 
oE  jazendo  D.  Éguas  hua  noyte  dormindo,  sendo  já 
ho  menino  de  cinquo  annos,  lhe  appareceo  nossa  Se- 
nhora,   e   dice  :  D.  Éguas  dormes.   Elle  ha  esta  voz  e 


Kig.   13 

A.  torre  c3o  Níosteiro 
(.I-^oto^ralia  Uo  aiilor) 


visão  acordando,  respondeo  :  Senhora  quem  suss  vás. 
Ella  dice  :  Eu  sam  ha  Virgem  Maria,  que  te  mando  q  vas 
ha  hum  tal  lugar,  dando-lhe  logo  hos  sinaes  delle,  e 
faze  hi  cavar^  e  acharas  hi  huma  Egreja  que  tui  outro  tempo 
foy  começada  em  meu  nome.,  e  hua  Imagem  minha ;  faze 
correger   a   Imagem^   e   ha  Egreja  feita  á  miuha  honra,'  e 

4 


50 


esto  feyto  farás, hi  vigília  poendo  o  Menino  q  crias  sobre  ho 
Altar,  e  sabe  que  guarecera,  e  será  sam  de  todo,  e  novi 
menos  te  trabalha  da  hi  avante  de  ho  bê  guardar^  e  criar 
como  fazes  ;  porque  meu  filho  quer  por  elle  destroir  muitos 
imiguos  da  Fée.r> 

Ora  D.  Egas  seguiu  á  risca  as  ordens  da  Senhora, 
achou  a  igreja  e  a  imagem,  e  o  menino  Afonso  guare- 
ceo.  . .  «E  por  causa  deste  milagre  foy  depois  feyto  em 
esta  Egreja  com  muita  devação  ho  Mosteiro  de  Cár- 
quere...»   ípag.  6  da  Crónica). 

Como  Cárquere  é  uma  grande  estação  arqueológica, 
onde  têem  aparecido  dezenas  de  lápides  funerárias, 
por  sinal  muito  típicas,  não  admira  que  Egas  Moniz 
tivesse  conhecimento  de  que  no  lugar  existia  algum  edi- 
fício antigo  soterrado,  e  que  á  volta  desse  facto  se 
efabulasse  toda  a  lenda. 

Segundo  a  Chronica  dos  Cónegos  Regrantes,  igreja  e 
mosteiro  foram  fundados  pelo  conde  D.  Henrique,  que 
no  próprio  ano  de  1099  começou  as  obras,  em  memo- 
ria do  milagre.  O  edifício  conservou-se  em  poder  dos 
cónegos,  aos  quaes  foi  doado,  até  1561.  Em  1541, 
D.  João  III,  com  grande  zanga  dos  cónegos,  segundo 
o  dá  a  entender  Dom  Frei  Nicolau  de  S.  Maria,  ofere- 
ceu o  mosteiro  ao  Padre  Simão  Rodrigues,  para  lá 
estabelecer  os  seus  jesuítas,  O  astuto  padre  entendeu, 
porém,  que  lhe  convinha  mais  fícar  ao  pé  da  Corte,  e 
trocou  Cárquere  pelo  Mosteiro  de  Santo  Antão  o  Velho, 
ao  pé  do  Castelo  de  Lisboa.  Continuou,  portanto, 
o  convento  em  poder  dos  cónegos  até  1561,  época  em 
que  o  Cardeal  D.  Henrique  cedeu  as  rendas  aos  refe- 
ridos jesuítas.  Tinha  que  ser. 

Tudo  isso  passou.  O  velho  mosteiro  é  hoje  sede  da 
paroquia. 


52 


Em  N.*  S.*  de  Cárquere  contamos,  alem  da  torre 
ducentista,  a  igreja,  o  couventinho,  com  dois  andares, 
flanqueado  de  um  arco  largo  por  onde  se  desce  ao  ter- 
reiro em  frente  do  templo,  e  o  cemitério,  murado  e 
quadrangular,  delimitado,  a  nascente,  por  um  anexo  da 
igreja,  onde  se  encontram  a  sacristia  e  o  pobre  e  frio 
panteon  dos  senhores  de  Resende.  Por  detrás  deste 
anexo  liça  a  residência  paroquial.  Sobre  a  esquerda 
eleva-se  brandamente  o  extremo  do  morro  de  Cárquere, 
o  alto  chamado  «das  procissõest,  foco  principal  do 
antigo  castro  e  da  povoação  romanizada  que  o  conti- 
nuou. A  planta  sumaria  que  levantei,  evidencia  a  dis- 
posição geral  das  construções. 

A  igreja,  de  uma  só  nave,  é  de  fabrica  manuelina^ 
no  corpo,  de  construção  gótica  na  capela-mór.  O  arco 
da  porta  principal,  bastante  pobre ;  o  do  cruzeiro,  com 
três  arquivoltas  ;  o  do  côro^  largo  e  abatido  ;  a  porta 
lateral  esquerda  e  a  cachorrada  polimorfica  da  face 
visível,  estão  claramente  mostrando  o  trabalho  do  pri- 
meiro terço  do  século  xvi.  Na  capela-mór,  as  nervuras 
cruciaes  da  abobada,  as  colunas  grosseiras  que  as 
aguentara,  os  cachorros  do  friso  exterior,  e  as  duas 
janelas  geminadas,  com  seu  óculo  quadrilobado  sob  o 
gume  da  ogiva,  denunciam  o  fim  do  secula  xiii  ou  co- 
meço do  XIV. 

Metido  na  parede  esquerda  da  capela  mór  fica  um 
tumulo  monumental,  impossível  de  examinar  por  causa 
da  armação  de  talha  que  o  reveste.  Parte  da  parede 
desta  banda  foi  rota  para  estabelecer  passagem  para 
uma  sacristia,  de  aspecto  relativamente  moderno. 

Logo   contigua  a  esta  sacristia  encontra-se  a  parte 


51 


mais  antiga  do  edifício,  uma  camará  retaugular,  sim- 
ples e  acanhada,  onde  se  alinham  quatro  arcas  tumu- 
lares de  pedra,  duas  das  quaes,  as  da  esquerda,  se  en- 
costam a  arcadas  abertas  na  espessura  da  parede. 

Os  sarcófagos,  compridos  mais  de  dois  metros,  tra- 
pezoidaes,  pesados,  bárbaros,  adornados  nas  tampas 
com  escudos  oblongos,  onde  se  deliniam  cabras  toscas, 
são  iguaes  aos  da  entrada  de  S.  João  de  Tarouca, 
Santo  André  de  Mafra,  Sé  de  Lisboa,  Vilarinho,  Cerze- 
delo,  Pombeiro,  todos  dos  séculos  xiii  e  xiv. 

Sobre  o  primeiro  da  direita  ha  um  escudo  deitado 
ao  correr  da  tampa,  ornado  com  uma  cabra  entre  duas 
cunhas.  Cravado  na  parede,  por  cima  do  segundo^  um 
retangulo  de  pedra  de  0,66  por  0,45,  mostra  a  seguinte 
inscrição,  em  gótico,  e  em  seis  linhas : 

Aquy.  jas.  ho  virtuoso  sur  —  vasco  m  s  de  resende.  do  — 
.còselho  delrey  don  affon.  — so.  rejedor  da  sua  justiça — na 
comarqua^  dantre  —  duuro  e  minho. 

Por  cima  da  primeira  arca  do  lado  esquerdo,  que 
ostenta  na  tampa  um  escudo  com  duas  cabras,  está  in- 
crustada uma  inscrição  semelhante  á  anterior,  onde 
se  lê : 

Aqui/,  jas.  o  snor.  vasco  —  mis  de  resende  (dtto  1)  ne  — to. 
de.  mar.  tin.  affons.  q. — foy  sor.  de.  toda.  esta.  terra.  de. 
resende. 

Sobranceira  á  segunda  arca  desta  banda  fica  a  ins- 
crição mais  pequena  : 

Aquy  jas  —  o  senor  yd  —  vas  de  —  >vs'  nde. 

Dizem  estas  inscrições  cravadas  na  parede  e,  decerto, 
posteriores  aos  sarcófagos,  respeito  a  estes  e  às  pes- 
soas que  lá  foram  depositadas  ? 

Esta  capela  funerária  dos  senhores  de  Resende, 
única  parte  que  resta  da  fundação  do  Conde  D.  Hen- 


55 


rique  (?)  conserva  exteriormente,  da  banda  do  nascente, 
um  resalto  de  pedra,  lavrado  de  laçaria  entrecruzada, 
e  uma  janela  de  volta  redonda,  completa,  que  ó  das 
cousas  verdadeiramente  interessantes  do  românico, 
entre  nós,  pelas  suas  dimensões  exíguas  e  perfeita 
conservação.  Não  vale  a  pena  estar  a  procurar  termos 
de  comparação  para  os  lavores  das  arquivoltas  e  resalto 
desta  janela;  em  toda  a  Europa  se  encon- 
trariam correspondências  de  forma  e  de- 
coração. É,  porém,  bom  deixar  notado  que 
a  porta  da  torre  do  Mosteiro  de  Travanca 
possue  uma  arquivolta  absolutamente 
igual  á  lavrada  com  cabeças  de  monstros 
que  se  examina  na  nossa  fotografia.  O  sr. 
Joaquim  de  Vasconcelos  atribue  Travanca  _ 
ao  século  xi.  Com  o  devido  respeito,  nare- 

.  t  ^  -t  Imagem,  da. 

ce-nos   que  não  ncaria  mal   coloca-la  no  senhora  cie 
século  XII.  Cárquere,  que  o  Conde  D.  Hen-    ^árQuere, 

...  nr  •  "^  antiga» 

rique  (?)  construiu  e  erigiu  em   Mosteiro,  ,^       ^     .     „ 

^  \    /  o  '     (Tamanho  natural) 

pode  datar,  o  máximo,  do  primeiro  terço  do 
século  XII.  E  a  sua  torre  é  decerto  um  bocado  posterior. 
O  que  admira  é  como  os  ediâcios  do  Mosteiro  tive- 
ram de  ser  renovados  logo  nos  séculos  xiv  e  xvi. 


Na  igreja  ha  duas  imagens  de  grande  antiguidade: 
Nossa  Senhora  «a  Branca»  e  a  Senhora  de  Cárquere. 

A  primeira.  Nossa  Senhora  a  Branca,  ocíipa  o  altar 
da  esquerda,  que  se  encosta  a  um  dos  ombros  do  cru- 
zeiro. E  uma  imagem  um  pouco  menor  que  o  tamanho 
natural,  de  face  larga  e  grossa,  com  coroa  fechada 
pousada  em   cima  da  mantilha,   um  manto   sobre  os 


liombros,  preso,  uo  peito,  por  um  firmai  quadrilobado. 
Com  a  mão  direita  segura  o  manto,  com  a  esquerda  o 
menino,  que  brinca  com  a  correia  lavrada  do  cinto  da 
mãe.  E  uma  escultura  da  escola  de  Coimbra,  do  século 
XIV,  e,  provavelmente,  feita  na  própria  cidade,  porque 
é  de  pedra  de  Ançã.  Possivelmente  o  nome  de  Branca 
lhe  veiu  dessa  circunstancia.  As  mulheres  paridas,  a 
quem  falta  o  leite,  raspam  um  pouco  da  imagem,  mis- 
turam o  pó  em  água,  bebem-no,  e  obtêem  fartura  no 
criar  de  seus  filhos. 

A  imagem  da  Senhora  de  Cárquere  de  que  vou  fa- 
lar, não  é  a  que  se  encontra  sobre  o  altar-mór.  Guar- 
da-se^  com  recato,  dentro  de  uma  caixa  de  relíquias, 
entre  minúsculos  agulheiros  de  Nossa  Senhora,  de  prata 
filigranada,  dos  séculos  xii  ou  xiii.  E  uma  oscultura- 
sinha  de  marfim,  com  0,029  de  altura  e  0,014  de  base, 
de  trabalho  muito  antigo  ('). 

A  Senhora  é  representada  com  O  menino  assente 
sobre  o  joelho  esquerdo,  de  coroa  encordoada  e  denti- 
culada posta  sobre  uma  mantilha  curta,  e  de  túnica  e 
manto.  Com  a  mão  direita  um  pouco  erguida,  abençoa, 
como  os  Cristos  dos  evangeliarios  e  dos  esmaltes.  O 
menino,  coroado  como  a  inãe,  segura  um  livro  na  mão 
esquerda,  e  abençoa  também  com  a  direita ;  os  seus 
pés  nús,  muito  rudes,  estão  virados  na  mesma  direcção. 
Nos  vestuários  ha  manchas  delidas  de  ouro  e  encar- 
nado. 

As  faces  das  duas  figuras,  largas,  ovaes,  inexpres- 
sivas, os  gestos  e  posições,  as  roupagens  sem  rigidez, 
mas  também  sem  maleabilidade,  indicam  um  trabalho 

(')  Alberto  de  Sousa  fiel  e  graciosamente  desenhou  a  figura 
sobre  uma  fotografia  do  autor. 


57 


Kig.  IT 

Janeléi  da.  parte  arcaica  do  edifício 
(Fotogralia  do  autor) 

de  alta  antiguidade.  Nesta  mesma  posição  está  com- 
posta, em  mosaico,  em  Sauto  Apolinário  Novo  de 
Ravena,  uma  madona  do  século  vi  (').   Estaremos  em 


(^)  A.  Venturi,  La  Madone,  Paris,  pag.  3 


58 


presença  de  uma  imagem  visigótica,  ou,  já  do  periodo 
românico  ? 

O  respeito,  o  religioso  cuidado  com  que  eu  lhe  to- 
quei, para  a  fotografar !  Oomo  nos  sentimos  impressio- 
nados sob  as  arcadas  de  uma  igreja  primitiva,  peran- 
te uma  imagem  vista  e  adorada  por  reis,  ricomens  e 
povo  de  séculos  remotos,  que  foi  talvez  levada  como 
talisman,  no  seu  minúsculo  relicário  de  prata,  para  o 
meio  das  refregas  contra  os  mouros,  que  correu  decerto 
as  sete  partidas  do  mundo,  de  um  mundo,  que  nós  não 
conhecemos,  nem  conheceremos  nunca ! 


O  sol  vae  alto  agora.  Desce  das  encostas,  por  entre 
os  castanheiros  copados,  um  som  ritmado  e  alegre  de 
tambor.  Acaso  o  senhor  da  terra  manda  fazer  alardo 
para  algum  fossado  contra  os  mouros  ? ! 

A  paisagem  é,  ainda,  a  mesma  que  conheceram  os 
donatários  de  Resende.  Os  tempos,  porêra,  são  outros. 
Aquele  som,  a  que  uma  voz  estridente  de  rapariga  se 
une  breve,  ó  o  pregão  da  7'óga  serrana  que  vai  para 
as  vindimas  do  Douro,  entre  descantes... 


A  Igreja  de   5.   lT7artinho   de   Mouros 


igreja  românica  de  S.  Martinho  de  Mouros  éo 
mais  imponente  presbitério  rural  que,  do  seu 
estilo,  se  ergue  em  terras  da  Beira  Alta.  Quer 
pela  lenda  que  envolve  a  sua  fundação,  atribuída  aos 
7n'jiiros,  quer  pelo  seu  tipo  construtivo,  diverso  do  usual- 
mente adotado  na  região,  nos  periodos  românico  e 
romano-gótico,  esta  igreja  despertou,  desde  há  muito,  a 
atenção  dos  arqueólogos  e  artistas,  entre  os  quais 
Filipe  Simões  foi  o  primeiro,  salvo  erro,  a  ocupar-se 
dela,  embora  sumariamente,  e  o  ultimo  o  sr.  Marques 
Abreu  que  lhe  fotografou  vários  aspectos  interessan- 
tes, publicados  depois  na  «Arte  Românica». 

Vizinho  da  freguezia  a  que  ela  serve  de  cabeça,  há 
dez  anos  que  a  conheço  e  admiro.  Mas  a  monografia 
especial  que  este  monumento  notável  mereceria,  não  me 
permitem  as  circunstancias  escrevê-la,  emquanto  o 
Estado  não  auxiliar  a  publicação  de  toda  uma  serie  de 
monumentos  cujo  conhecimento  importa  fundamental- 
mente à  historia  da  arte  portuguesa.  No  estudo  pre- 
sente ficam,  porem,  embora  como  mero  subsídio  para 
essa  monografia,  indicadas  as  principais  e  mais  im- 
portantes carateristicas  do  edifício. 

A  igreja   é  de  uma  só  nave,  de  capela-mór  mais  es- 


60 


treita  que  o  corpo,  e  conserva  a  sua  estrutura  e  deco- 
ração primitivas  com  pequenas  alterações. 

Diversamente  do  que  acontece  nos  presbitérios  ro- 
mânicos do  En*^re  Douro  e  Minho  e  Beiras,  a  igreja  de 
S.  Martinho  de  Mouros  não  apresenta  a  fachada  rema- 
tando em  empena  de  duas  aguas,  ou  em  sineira  vasada 
de  uma,  de  duas,  ou  três  ventanas.  A  sua  frontaria  é 
sobrepujada  por  uma  das  faces  de  um  corpo  rectangu- 
lar, a  modo  de  eirado  de  torre,  que  domina  o  primeiro 
quarto  da  nave,  e  que  se  levanta  apoiado  em  três  das 
faces  sobre  as  paredes  da  frontaria  e  lateraes,  e  na 
ultima  sobre  arcos  cujas  colunas  e  pilastras  de  susten- 
tação partem  do  interior  da  igreja,  disposição  que 
julgo  única  nas  construções  românicas  portuguesas. 

Esse  corpo  retangular  que  domina  a  frente  do  tem- 
plo e  lhe  dá  um  aspecto  quasi  militar  resalta  um  tanto 
das  paredes,  apoiado  numa  serie  de  arquinhos,  cujos 
pés  se  estribam  em  cachorros  com  feitio  de  cabeças  de 
bovideos,  perfeitas  ou  apenas  esboçadas.  Chama  o 
sr.  Lamperez  y  Romea  a  este  tipo  de  decoração  —  de 
arquilhos  lombardos  — ,  e,  efetivamente,  o  aspecto  da 
igreja  toma,  por  causa  deles,  um  sabor  bem  mais  italiano 
que  galego  ou  provençal. 

Encontram-se  estes  mesmos  arquinhos  na  cornija  da 
igreja  de  Ferreira  (concelho  de  Paços  de  Ferreira), 
tanto  no  corpo  como  na  sua  abside  redonda  ;  bem  como 
na  fachada  da  primeira  construção  românica  da  igreja 
de  Paderue. 

São  16  os  arquilhos  da  fachada  de  S.  Martinho,  in- 
cluindo o  nono  a  contar  da  esquerda,  na  sua  volta,  o 
arco  terminal  de  uma  fresta  que  risca  a  frente  do 
templo  e  que  serve  para  dar  luz  á  escaía  apertada 
que  conduz  ao  eirado  da  torre. 


61 


A  meio  desta  ultima  construção  levanta-se  um  novo 
corpo  quadrangular,  largo  3,40,  comprido  2,60,  vasado 
de  arcos  aguçados,  espécie  de  alpendre  de  miradouro 
que  serve  de  torre  dos  sinos.  Por  cima  do  telhado 
desta,  a  descoberto  e  desprotegido  contra  o  tempo, 
destaca-se  um  sino  que  ó  percutido  externamente  com 


Igreja  cio  S.  Xltirtintio  cie  Xlouros 
(FotOfíraí;;\  do  autor) 

um  maço  de  ferro.  Este  sistema  é  adotado  geralmente 
lia-  Itália,  podendo  a- junção  do  emprego  dos  arquilhos 
lombardos  com  o  modo  de  colocação  dj  sino,  induzir- 
nos  a  acreditar  que  o  arquiteto  da  igreja  se  inspirou, 
ao  erigi-la,  num  modelo  italiano. 


G2 


A  porta  principal  é  de  arco  aguçado,  com  quatro 
arquivoltas,  sendo  a  externa  acompanhada  por  uma 
faixa  de  ornato  axadrezado  cujos  extremos  vem  assen- 
tar nas  impostas  que  partem  dos  ábacos  e  acompanham 
toda  a  frontaria.  A  disposição  é  absohitamente  idên- 
tica á  da  porta  principal  da  igreja  de  Almacave,  em 
Lamego,  tanto  na  estrutura,  como  na  decoração  dos 
capiteis. 

Apeada,  encostada  á  frontaria,  do  lado  direito,  en- 
contra-se  uma  larga  e  grossa  pedra  cortada  em  ogiva 
que  serviu  de  timpano  a  este  portal  e  apresenta  uma 
cruz  gravada,  a  meio.  Mede  esta  pedra:  de  altura, 
2,0õ  ;  de  largura,  0,20;  de  espessura  0,30. 

A  altura  do  gume  do  arco  projetam-se,  na  fachada, 
as  pedras  regulares  de  quatro  cachorros  em  que  se 
apoiou  a  trave  mestra  do  alpendre  que,  como  em  todas 
as  igrejas  antigas,  precedia  a  entrada,  disposição  que 
em  Portugal  se  perpetuou  nas  capelinhas  dos  séculos  xvii 
e  xviii. 

As  portas  lateraes  primitivas  desapareceram. 
Embora  o  corpo  da  igreja  não  seja  abobado,  as  pa- 
redes estão  reforçadas  com  botareus,  havendo  os  dois 
primeiros  do  balisamento  sido  encorporados  na  pró- 
pria fachada  a  que  dão  um  recorte  cheio  de  graça  e 
leveza.  Uma  cornija  estribada  em  modilhões  desador- 
nados  acompanha  a  linha  dos  beiraes. 

A  captíla  mór  é  retangulâr,  simples.  A  igreja  de 
S.  Martinho  de  Mouros,  como  quasi  todos  os  pequenos 
presbitérios  românicos  e  da  transição,  do  norte  do  país, 
compõese  de  dois  corpos  retangulares,  de  desigual 
largura,  disposição  que  se  encontra  nos  templos  gale- 
gos da  mesma  época,  os  quaes  serviram  certamente  de 
modelo,  em  muita  cousa,  aos  nossos. 


63 


Quem  entra  na  igreja  depara  logo  com  o  fortíssimo 
par  de  pilastras,  que  um  coro  moderno  impede  de  dei- 
xar seguir  com  a  vista  até  aos  três  arcos  que  susten- 
tam a  torre.  Desses  arcos,  o  central,  de  volta  redonda, 
fica  mais  alto  que  o  apainelado  do  teto  da  igreja, 
abrindo-se  os  lateraes,  levemente  aguçados,  bastante 
mais  abaixo  do  arco  principal,  sendo  continuados  por 
abobadas  de  berço  para  o  lado  da  parede  da  frontaria. 


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Kig.  19 

Parte  sviperior  da  fachada  da  igreja  de  S.  Xlartinho 

(Kotografia  do  autor) 


A  importância  desta  interessante  disposição,  exigida 
pelo  peso  formidável  da  torre,  foi  nitidamente  com- 
preendida pelo  sr.  Marques  Abreu,  que  na  «Arte 
Românicai  reproduziu  uma  boa  fotografia  desta  parte 
do  interior. 

A   estes  dois  pilares  correspondem,  na  muralha  in- 
terna   da  frontaria,    duas  colunas,   providas   de   seus 


64 


capiteis  ornados  de  volutas,  sobre  que  devia  assentar 
nm  coro  que  não  passaria,  como  o  de  hoje,  alem  da 
frente  dos  pilares,  mas  se  acantonaria  somente  entre 
eles  e  a  parede.  E  assim  se  explica  que  do  corpo  dos 
pilares,  na  parte  voltada  para  a  porta,  se  separem 
duas  colunas  com  seus  capiteis  ornamentados.  Nestes 
podemos  vêr:  no  da  esquerda,  dois  grandes  touros 
unidos  por  uma  só  cabeça  ;  e  no  da  direita,  dois  homens 
emergindo  de  folhagem,  um  sentado,  com  as  mãos 
postadas  á  altura  do  assento,  e  outro  numa  posição 
ainda  mais  realista,  acocorado  e  com  as  mãos  agarra- 
das á  gola  do  capitel, 

O  arco  do  cruzeiro  é  também,  como  o  da  porta  prin- 
cipal, aguçado,  e  mostra,  tanto  interna  como  externa- 
mente, lavores  denteados  e  losangulares.  Entre  os 
ornatos  puramente  românicos  dos  capiteis  deste  arco 
aparecem  monstros  em  acto  de  tragar  figuras  nuas, 
que  lhe  pendem  da  boca  penduradas  pelas  pernas, 
motivo  repetido  da  porta  principal.  Um  friso  de  folhas 
de  acanto,  motivo  ornamental  clássico  que,  ao  lado 
dos  niotivos  bizantinos  e  bárbaros,  se  empregou  no 
românico,  corre  por  cima  dos  capiteis 

Sobre  este  arco  existo  um  óculo,  emmoldurado  em 
toros,  apresentando  a  abertura  a  forma  de  uma  cruz 
cujos  braços  terminam  em  novos  oculosinhos  de  menor 
diâmetro,  forma  trivial  nos  monumentos  românicos  e 
do  gótico  primário. 

Na  planta  que  apresento,  feita  na  escala  de  1:100, 
pode  examinar-se  a  disposição  atual  das  p.írtes  com- 
ponentes da  igreja,  que  mede :  no  corpo,  17,80  de 
comprimento  e  8,50  de  largo  ;  e  na  capela  maior,  11,16 
de  longo,  e  5,6õ  de  ancho,  medidas  tomadas  no  inte- 
rior. 


65 


De  obras  posteriores  à  fundação  do  templo  pouco 
de  notável  se  conserva  no  interior.  Xa  capela-mór 
estão  dois  bons  quadros  em  madeira,  da  primeira  meta- 
de do  século  XVI,  representando,  o  melhor,  aquela  passa- 


Kig.  20 

Planta  da  igreja  de  S.  Xlartinho  de  Mouros 

Escala  1:100 

(Desenho  reduzido  n  '  ,4) 


gem  da  vida  do  orago  da  igreja  em  que  o  santo  corta 
metade  da  sua  capa  para  a  dar  a  um  mendigo.  A  figura 
de  S.  Martinho,  montado  num  belo  ginete  branco,  re- 


66 


trata  no  aspeto  geral,  nas  roupas,  e  no  rosto,  um  tipo 
de  senhoi'  quinhentista  apresentado  com  esmero. 

No  ombro  esquerdo  da  igreja,  um  metro  afastado 
do  arco  do  cruzeiro,  existe  ainda,  pintada  sobre  uma 
camada  de  estuque  que  reveste  a  silharia,  a  figura  de 
um  bispo  abençoando,  que  dificilmente  se  consegue 
examinar  por  se  achar  encostado,  a  esse  espaço  da 
parede,  um  altar.  Pelo  que  dificultosamente  se  lobriga, 
o  santo  bispo,  de  mitra  e  manto,  abençoa  com  a  dex- 
tra erguida.  A  figura  espalma-se  dentro  de  um  caixi- 
lho preto,  sendo  as  cores  empregadas  na  composição, 
vermelha  e  amarelo  sujo,  muito  grosseiras.  De  um  e 
outro  lado  da  mitra  episcopal,  assente  sobre  uma  ca- 
beleira que  cae  até  ao  pescoço  do  personagem,  está 
escrito  em  letras  góticas;  sãn  braz(?).  Trata-se  de  uma 
obra  inferior  do  começo  do  século  xvi,  de  um  certo 
interesse  pela  raridade  das  pinturas  a  fresco,  desta 
época,  no  nosso  país. 


fí  Igreja  de  Barro 


RGUE  SE  este  interessante  monumento  românico 
na  margem  esquerda  do  Douro,  a  umas  trê3 
léguas  de  Lamego,  junto  da  estrada  que  con- 
duz desta  cidade  a  Resende. 

A  fachada  da  igreja  é  uma  das  mais  curiosas  e  no- 
táveis entre  as  dos  templos  coevos  interamnenses  e 
beirões,  e,  como  a  de  S.  Martinho  de  Mouros,  de  tipo 
desusado  na  região. 

Aparece  a  frontaria  repartida  em  quatro  secções,  se- 
paradas por  resaltos  ou  impostas  que  a  acompanham  a 
toda  a  largura,  correndo  a  primeira  dessas  molduras 
pela  altura  dos  ábacos  dos  capiteis  da  porta  princi- 
pal ;  a  segunda  por  cima  do  gume  do  arco  aguçado  do 
portal ;  a  terceira  na  direcção  dos  capiteis  da  arcatura 
ou  arcada  cega  que  se  cava  na  muralha  sobre  a  entrada ; 
e  a  quarta  entre  a  última  mencionada  e  a  linha  de 
águas  da  empena. 

O  portal  maior,  ó,  como  todas  as  portas  dos  tem- 
plos rcmâuicos,  uma  forte  e  bela  construção  em  que 
a  abertura,  emmoldurada  de  uma  série  de  arquivoltas 
de  arcos  aguçados,  se  vai  tornando  mais  larga  á  me- 
dida que  se  aproxima  da  face  da  muralha.  Mas  nem 
por  os  arcos  aparecerem  aguçados  os  poderemos  con- 


68 


siderar  ogivais.  O  ncme  de  ogival  aplica-se  a  um  sis- 
tema construtivo  e  não  a  uma  forma  de  arco  mais  ou 
menos  subido.  Em  Espanha  encontra-se  este  tipo  de 
arcos  desde  o  começo  do  século  xii  (Santa  Maria  de 
Tarrasa — 1122  e  Catedral  de  Lugo  —  1129),  em  edi- 
fícios do  mais  puro  românico  ;  e  por  toda  a  Península 
foram  empregadas  conjuntamente  as  duas  formas  de 
arco,  aguçado  e  de  pleno  cintro,  até  ao  meado  da 
século  XIII. 

A  parte  superior  do  portal  da  igreja  de  Barro  com- 
põe-se  de  uma  série  de  arcos  em  retirada,  ou  abocina- 
àos^  que  assentam  em  colunas  de  fuste  cilíndrico,  en- 
costadas á  parede,  correspondendo  a  cada  coluna  dois 
arcos  de  esquina  em  fcóro.  Mas,  como  acontece  na 
maioria  dos  edifícios  do  mesmo  género,  estas  colunas 
não  aguentam  de  facto  as  arquivoltas,  recaindo  todo 
o  peso  sobre  os  ábacos  cravados  no  massame  do  muro. 

O  tímpano  da  porta,  desprovido  de  ornatos  em  re- 
levo, è  embelezado  por  uma  cruz  vazada  no  granito. 
Esta  cruz,  porventura  o  melhor  exemplar  no  género, 
entre  as  igrejas  coevas,  do  norte,  deve,  indubitavel- 
mente considerar-se  superioras  cruzes  abertas  nos  tím- 
panos da  porta  lateral  da  Sé  de  Braga  e  nos  dos  por- 
tais dos  rústicos  presbitérios  de  Fonte  Arcada  (La- 
nhoso), Unhão  (Felgueiras)  e  Aruozo,  que  formam 
ura  grupo  especial  dentro  da  colecção  de  tímpanos  his- 
toriados da%  igrejas  do  norte,  cujos  melhores  exem- 
plares se  podem  admirar  em  Rates,  Rio  Máu  e  Bra- 
vães. 

E  a  cruzinha  de  braços  curvos,  desenhada  sobre  o 
centro  da  cruz  maior,  é  igual  aos  símbolos  do  mesmo 
género  que  se  colocavam  sobre  as  empenas  da  fronta- 
ria,  do  arco  do  cruzeiro  e  da  cabeça  da  capela  maior 


f>a 


dos  templos  dos  séculos  xii  e  xiii  (p.  e.  iias  igrejas  de 
Ferreira,  S.^  da  Ourada,  Bravães,  Cerzedelo,  etc), 
A  rosácea  da  frontaria,  muito  simples,  reduzida  a 


Kig.   íil 

F^rontaria  da  igroja  de  Barro 

(Kotofjrafia  do  autor  em  IDlõ) 


tim  circulo  rodeado  de  oito  óculos  mais  pequenos, 
aparece,  neste  monumento,  envolvida  por  uma  arcada 
cega,  de  volta  redonda,  com  as  arquivoltas   de  aresta 


70 


em  toro,  as  quaes  assentam  em  dois  pares  de  colunas 
semelhantes,  na  disposição  e  decoração,  ás  da  porta 
principal.  Encontram-se  aqui  mais  uma  vez  reunidos 
neste  monumento  cuja  fundação  devemos  atribuir  ao 
fim  do  século  xii,  ou  quando  muito,  à  primeira  meta- 
de do  século  XIII,  o  arco  apuntado  e  o  do  pleno  cintro. 

Este  dispositivo  do  janelão  sobre  a  porta  principal 
traz  á  mente  a  fachada  da  Sé  de  Coimbra.  Alem  desta 
aproximação  apenas  encontro  entre  os  monumentos  da 
península  para  tentar  uma  comparação,  o  trecho  da 
grande  janela  ornamentada  que  se  abre  sobre  a  porta 
da  fachada  norte  da  colegiada  de  Toro.  Seria  o  arqui- 
teto  de  Barro  um  espanhol,  como  o  de  S.  Martinho 
fora,  possivelmente,  um  italiano  ? 

O  lado  esquerdo  da  igreja,  com  os  seus  24  cachor- 
ros multiformes  da  cornija,  as  6  misulas  maiores,  a 
meia  altura,  onde  assentou  a  trave  mestra  de  um  al- 
pendre desaparecido,  e  uma  porta  de  arco  aguçado, 
debruado  de  uma  faixa  de  ornato  axadrezado,  pôde 
considerar-se  intacta.  Entre  os  cachorros  da  capela-mór 
divisam-se  uma  cabeça  de  homem  e  um  focinho  tosco 
de  javardo  :  entre  os  do  corpo  da  igreja,  pássaros,  um 
gnomo  acocorado  trincando  qualquer  cousa  informe,  e 
desenhos  vários. 

A  porta  tem  o  timpano  liso  assente  sobre  dois  estri- 
bos semelhantes  aos  que  encontramos  nas  entradas 
lateraes  de  Almacave,  sendo  porém  aqui  esses  estri- 
bos ornamentados.  Do  mesmo  tipo  os  encontramos  na 
igreja  de  San  Isidro  de  Leon,  onde  os  lavraram  de 
cabeças  de  animais  de  bocas  hiantes,  na  Puerta  de 
Platerias  da  catedral  de  Compostela,  na  porta  de  San- 
ta Maria  La  Real,  em  Siguenza  (Navarra),  etc. 

Qianto  á  faixa  de  xadrez,  essa  é  também  vulgar  em 


71 


Espanha  e  frequente  entre  nós,  mostrando  três  igrejas 
desta  região  de  Lamego— S.  Martinho  de  Mouros,  Al- 
macave,   e  Barro  —  as  suas   portadas  decoradas  com 


Kig.  22 

Porta  principal  da  igreja  de  Barro 

(P^otografia  do  autor  em  lOlG) 

ela.  Folheando  a  «Arte  Românica»  de  Marques  Abreu, 
muitos  exemplos  se  poderão  colher  ainda,  e  de  fora  de 
Portugal  poderemos  citar,  escolhidos  entre  mil,  a  porta 


72 


de  San  Quirce,  de  Burgos,  o  claustro  de  São  Domin- 
gos de  Silos,  (Castela),  o  portal  de  Charlieu  (Loire), 
etc,  aparecendo  a  faixa  em  todos  estes  monumentos, 
ora  a  três,  ora  a  quatro,  a  cinco  ou  seis  quadrados  de 
largo.  ** 

No  lado  direito  da  igreja  são  apenas  visiveis  17  ca- 
chorros, escondidos  ou  destruidos  como  foram  os  ou- 
tros pelas  dependências  que  se  encostaram  a  este  lado 
do  templo,  sendo  o  principal  desses  adminiculos  acres- 
centados, a  inestética  torre  moderna  cujo  ultimo  res- 
tauro data  de  1895. 

O  interior  do  corpo  da  igreja  de  Barro,  pobre  e  sim- 
ples, é  alumiado  por  duas  janelas  de  arcos  aguçados, 
com  1,18  de  largo  de  abertura  interna,  mas  que  aflo- 
ram no  exterior  apenas  como  frestas  altas  e  muito  es- 
treitas. Duas  toscas  pias  de  batisar  ocupam  os  ângu- 
los inferiores  do  retangulo,  sendo  os  superiores  escon- 
didos pela  armação  entalhada  de  dois  altares  setecen- 
tist^,s. 

O.  arco  que  dá  passagem  para  a  capela-mór  é  largo, 
aguçado  no  alto,  e  os  seus  pés  incurvam  levemente 
ao  assentarem  na  imposta  que  remata  os  capiteis.  A 
capela-mór  é  abobada  com  uma  abobada  de  berço  for- 
talecida por  duas  cintas  fortes,  a  primeira  assente  em 
colunas  iguaes  ás  do  arco  do  cruzeiro,  e  a  ultima  es- 
tribada em  misulas.  As  colunas  assentam  em  socos, 
altos  1,24  a  1,27,  e  compõem-se  de  base  larga  e  alas- 
trada, com  ornatos  nos  ângulos,  simplificação  das 
clássicas  garras,  fuste  cilíndrico  e  capiteis  ornados, 
sobrepujados  por  uma  imposta  ou  cimaJha  ornada  de 
folhagem  estilisada.  Dos  quatro  capiteis,  o  primeiro 
do  lado  do  epistola  está  lavrado  com  três  figuras  em 
relevo  :   a  primeira  de  um  homem  de  túnica  curta  ou 


73 


saio,  que  segura  na  mão  direita  uma  espécie  de  escudo 
oval  6  levanta  na  esquerda  um  machado  ou  uma  fun- 
da :  a  segunda,  um  outro  homem  empunhando  uma 
lança  e  levando  á  boca  uma  buzina  de  corno  ;  e  a  ul- 
tima um  quadrúpede  de  pernas  altas  e  grande  cabe- 
çôrra,  possivelmente  representando  um  bovideo.  No 
capitel  fronteiro  há  três  animaes  da 
mesma  espécie,  dispostos  em  fila. 
Os  restantes  capiteis  de  cinta  me- 
dia são  envolvidos  por  folhagem  de 
folha  esguia  e  arestas  vivas.  A  im- 
posta que  corre  da  cinta  a  cinta  é 
simples  e  desadornada. 

As  siglas  marcadas  sobre  a  silha- 
ria  pertencem  quasi  todas  ao  alfabeto 
oncial  usado  ao  tempo. 

Dentre  as  igrejas  que  estudei  ou 
visitei  nos  arredores  de  Lamego,  a 
de  Barro  ó  aquela  em  que  encontrei 
maior  copia  de  esculturas  e  inscultu- 
ras.  E  na  frontaria,  além  dos  lavores 
antigos  dos  capiteis  e  das  cabeças 
humanas  das  3  misulas,  vemos  ain- 
da, aos  lados  da  porta  principal, 
duas  cruzes  de  Malta  evidentemente 
posteriores  à  construção  da  igreja, 
que  desde  o  século  xvi  foi  uma  co- 
menda daquela  Ordem  militar. 

Na  ocasião  de  uma  das  minhas  visitas  à  igreja,  em 
1916,  estava  o  interior  pejado  com  as  armações  dos 
andores  que  haviam  figurado  ua  festa  da  freguesia, 
realisada  a  15  de  agosto.  Entre  esses  andores  figurava 
um  barco  rabelo^  perfeitíssimo,  pintado   de  azul  e  ver- 


Plcinta   da   itíreja 
cie    Barrô 

a  1:100 
(reduzido  a  ',  i) 


74 


melho,  em  cuja  ponte  se  erguia  o  tronosinho  da  Se- 
nhora da  Boa- Viagem,  a  pequenina  protetora  dos  ma- 
rinheiros da  freguesia  que,  dia  a  dia,  arriscam  a  vida 
nos  pontos  e  cachões  do  Douro,  que  corre  lá  em  baixo 
entre  penedias  selvagens.  A  Senhora  é  trazida  para  a 
igreja  na  ocasião  da  festa,  da  alta  rocha  onde  se  cava 
o  seu  nicho,  olhado  com  religiosa  piedade  e  esperança 
pela  gente  de  Barqueiros,  Ermida,  Porto  Manso  e 
Frende,  gente  rude  que  compõe  a  tripulação  da  maior 
parte  dos  barcos  que  deslisam  ainda  ou  se  empinam 
sobre  as  aguas  turbulentas  do  Douro. 

Algumas  medidas  tomadas  na  igreja : 

Comprimento  do  corpo,  internamente,  14.'";  largura, 
6,9õ ;  comp.  da  capela-mór,  11,70;  largura,  5,lõ.  Lar- 
gura externa  da  porta  principal,  3,91 ;  largura  interna, 
1,85;  altura  até  ao  tímpano,  2,70.  Largura  da  porta 
lateral  esquerda,  2,40;  largura  interna,  1,77;  altura 
até  às  impostas,  2,46. 


A  Igreja  paroquial  de  Barcos 

(TABOAÇO) 


]evanta-se  o  monumento  na  praça  principal  da 
antiga  vila  de  Barcos,  conservando  quasi  in- 
tacta a  sua  linha  primitiva,  exceto  do  lado 
esquerdo,  acrescentado  com  uma  sacristia  banal  e  de 
péssimo  estilo,  e  na  cabeceira,  levemente  restaurada  no 
século  xviii. 

Compõe-se  de  um  corpo  retangular  e  de  uma  capela 
maior,  desiguaes  na  largura  e  com  uma  só  nave.  A. 
comunicação  com  o  exterior  faz-se  por  três  portaes  de 
arcos  lavrados,  o  principal,  na  fachada,  de  pleno  cintro, 
os  lateraes  mais  simples  e  de  arcos  aguçados. 

A  porta  principal  é  coberta  por  uma  armação  de  três 
arquivoltas,  a  primeira  das  quaes  adornada  de  bolas 
dispostas  sobre  a  aresta  chanfrada,  a  segunda  toreada, 
e  a  interior  cortada  de  riscos  paralelos,  partindo  todas 
de  ábacos  trepezoidaes  que  se  cravam  no  massame  da 
muralha.  Dois  pares  de  colunas  com  seus  capiteis  la- 
vrados, vendo-se  no  primeiro  da  esquerda  uma  cara 
que  apanha  todo  o  capitel,  fingem  aguentar  esses  ába- 
cos também  adornados  de  quadrifolios  soltos,  trevos 
estilisados,  etc,  á  maneira  dos  que  vemos  na  porta 
românica  já  citada  em  estudo  anterior,  de  S.  Pablo  de 
Barcelona. 


76 


As  outras  portas,  as  lateraes,  uma  das  quaes  re- 
produzida artisticamente  na  capa  deste  livro,  são  mais 
singelas  e  mostram  as  arquivoltas  adornadas  de  cabe- 
ças de  cravos,  e  de  bolas. 

A  cornija  da  igreja  ó  sustentada  por  uma   série   de 


Porta  latorfil  direita  da  igreja  de  Btireos 
(F()U)(írafia  do  autor) 

modilliões  uniformes  e  desadornados,  no  género  dos 
da  igreja  de  Santa  Clara  de  Santarém,  posteriores  á 
construção  românica,  vendo-se  sobre  um  deles,  do  lado 
do  Evangelho,  em  letras  góticas,  as  iniciaes  a  \),  pos- 
sivelmente pertencentes  ao  mestre  da  obra,  um  qual- 
quer Afonso  Vicente  do  século  xiv. 


77 


Dos  cachorros  primitivos  ainda  se  vêem  alguns  na 
parede  da  capela-mór  a  que  se  encostou  a  sacristia. 
Um   deles   é   lavrado   com  uma  cruz  em  relevo,  outro 


Fig.  25 

Portex  lateral  esntierciti  da  igreja  c3e  Barcos 
(Fotografia  do  autor) 

com  dois  rolos  atravessados,  e  um  terceiro  com  duas 
mãos  que  seguram  um  phcdus  numa  posição  por  demais 
realista. 


78 


Encostado  a  um  dos  contrafortes  ou  gigantes  deste 
mesmo  lado  do  Evangelho  encontra-se  uma  pequena 
arca  tumular,  cavada  interiormente  com  o  feitio  do 
corpo,  e  tapada  com  uma  lage,  disposta  á  maneira  do 
tumulo  do  conde  D.  Sisenando,  na  Sé  de  Coimbra. 

Não  faltam  na  frontaria  os  cachorros  de  suspensão 
do  alpendre  e,  sobre  a  empena,  as  sineiras  aguçadas. 

Do  lado  direito  da  igreja,  perto  da  porta  lateral,  le- 
vanta-se  um  ediculo  de  granito  sobrepujado  pela  parte 
superior  de  um  tosco  calvário  do  século  xiv  ou  xv, 
para  ali  trazido  de  uma  capela  destruída  nos  arre- 
dores. • 

Toda  a  silharia  regular  da  igreja  aparece  fortemente 
riscada  de  siglas,  quasi  todas  retilineas  e  pouco  va- 
riadas. 

O  interior  do  corpo  da  igreja  é  simples,  salientan- 
do-se  apenas  entre  as  peças  que  o  ocupam  um  púlpito 
de  madeira  do  Brazil,  chapeado  de  bronzes  recortados, 
no  género  do  da  igreja  de  Ferreirim,  possivelmente 
obra  do  celebre  ensambladcr  lamecence  do  principio 
do  século  xviii,  Manuel  de  Sousa. 

A  capela  maior,  coberta  de  grosso  apainelado  de 
castanho,  com  vinte  e  quatro  painéis  pintados,  salpicado 
de  florões,  está,  até  certa  altura,  forrada  de  azulejo 
de  ros8  e  laçaria,  a  azul.  Este  apainelado  rico  cobria 
também  o  corpo  da  igreja,  tendo  sido  arrancado  mo- 
dernamente numa  qualquer  restauração  promovida  por 
bemfeitores  locaes. 

O  arco  do  cruzeiro,  pintado  de  grotescos,  está  data- 
do de  1726. 

Em  poder  do  abade  da  freguezia,  P.^  Araújo  Vilela, 
pessoa  muito  culta  e  que  muito  se  interessa  pela  sua 
igreja,   vi    uma  linda  chapa  de  marfim  lavrada  com  a 


79 


Anunciação,  obra  do  fim  do  século  xv,  que  devido  á 
sua  gentileza  fotografei  e  posso  reproduzir  junta  com 
este  estudo.  Figurou  na  Exposição  de  Arte  Ornamen- 
tal de  Lisboa,  em  1882. 


Kig.  26 

Placa  de  marfim  representando  a  n Anunciação» 

(Fotografia  do  autor) 

Dada  a  raridade  dos  trabalhos  em  marfim  deste 
género  e  desta  época,  entre  nós,  a  placasinha  tem  o 
seu  lugar  naturalmente  indicado  nas  coleções  do  Mu- 
seu Nacional  de  Arte  Antiga. 


fl  capela  de  S^bròso  (Barcos) 


rjjkQ  nieia  légua  de  Barcos,  para  poente,   nas  fal- 
^  das  de  um  mamelão  pedregoso  e  selvático,  de 


cujo  cômoro  se  avista  largo  trato  da  margem 
esquerda  do  Douro  e  parte  da  bacia  do  Tedo,  levan- 
ta-se,  isolada  e  tristonha,  a  capela  de  Sabrôso,  consi- 
derada pelos  povos  das  vizinhanças  como  a  mais 
antiga  da  região. 


Kig.  27 


Vista  lateral  da  capela  de  Sabrôso 
(Fotografia  do  autor) 


82 


É  exagerada,  evidentemente,  a  tradição  popular, 
pois  que  o  templo  não  passa  de  uma  construção  con- 
temporânea da  igreja  de  Barcos,  ou  um  pouco  poste- 
rior a  ela. 

O  seu  isolamento,  porém,  e  as  pedras  lavradas  que 
ficaram  no  seu  adro  devastado,  conduziram,  natural- 
mente, a  essa  tradição  de  vetustez. 

Não  encontrei,  nem  mesmo  procurei,  por  não  ser 
esse  agora  o  meu  intento,  documentos  que  dissessem 
respeito  á  capela  e  nos  elucidassem  acerca  da  sua  ori- 
gem. Parece-me,  porém,  que  aquele  abade  de  Saboroso, 
D.  Pedro  Pires  de  Távora,  cónego  da  Sé  de  Lamego, 
de  que  lia  noticia  em  1300  (^),  tomaria  o  seu  titulo 
eclesiástico  da  abadia  de  que  era  cabeça  o  santuário 
de  que  me  ocupo.  A  época  em  que  aparece  este  abade, 
o  instituidor  da  capela  de  S.  Pedro,  junto  á  igreja  de 
S.  João  de  Távora  (na  região),  condiz  perfeitamente 
com  a  data  que  atribuo  a  Sabroso,  o  século  xiii. 

Compõe-se  o  monumento  de  um  corpo  retangular  e 
de  uma  capela-mór  da  mesma  traça,  apresentando  a 
frontaria  o  mesmo  aspecto  de  muitos  santuários  trans- 
montanos e  leoneses,  com  a  sua  porta  larga,  de  arco 
subido,  e  a  empena  mais  alta  que  o  telhado,  sobre  a 
qual  se  ergue,  ao  meio,  o  campanário,  uma  espécie  de 
ediculo  com  sineira  única. 

Aos  lados  do  arco  duas  misulas  desadornadas  fica- 
ram mostrando  os  pontos  de  apoio  do  alpendre  que 
cobriu,  primitivamente,  a  porta  principal. 

O  friso  do  corpo  da  igreja  é  liso  e  não  fortalecido 
por  modilhões,  que  só  aparecem,  em  número  de    19, 


(*)  «Historia  Eclesiástica  da  Cidade  e  Bispado  de  Lamego»  por 
Joaquim  de  Azevedo  —  Porto  1877,  a  p.  269. 


83 


de  um  e  outro  lado  na  cornija  da  capela  maior.  Como 
os  da  igreja  de  Barcos,  estes  cachorros  são  ornamen- 
tados de  rolos,  caras  e  bolas,  isoladas  ou  aos  pares. 
No  interior,  frio  e  vasio,  apenas  há  que  mencionar 
um  retábulo  com  painéis  pintados  sobre  madeira,  do 


Fig.  28 

Tampa  de   sarcófago,    pedras  ttamulares  e  cabeceiras 
de  sepultura  no  adro  da  capela  de  Sabrôso 

(Fotografia  do  autor) 


século  XVII,  infelizmente  sem  grande  valor  artístico,  e 
algumas  pedras  tumulares,  trapezoidaes,  lavradas,  de 
bastante  interesse  arqueológico.  Em  duas  dessas  lages 
veem-se  insculpidas  cruzes  de  braços  quasi  triangula- 
res, inscritas   num  circulo,  que  uma  vara  terminando 


84 


em  triangulo  parece  sustentar,  como  haste.  Trata-se 
em  meu  parecer,  de  insígnias  abaciaes,  no  género  da& 
que  encontrei  gravadas  sobre  uma  cabeceira  de  sepul- 
tura discoide,  de  Sousel  ('). 

No  adro  ficaram  também  numerosas  pedras  lavra- 
das pertencentes  a  um  cemitério  que  se  extendia  em 
frente  e  dos  lados  da  capela.  Essas  pedras  podemos 
reparti-las    em  três   categorias,    da  seguinte  maneira : 


Pedras  sepulcrais  do  interior  e  do  tidro 
da  capela  de  Sahrôso 


l.*^  —  Uma  tampa  de  sarcófago,  trapezoidal,  com  o 
dorso  em  dois  planos,  lavrada  de  cada  banda  com 
meios  círculos  divergentes,  cavados  na  pedra  (Fig.  28). 

2."  —  Varias  lages  retangulares  esculpidas  de  cruzes 
simples  e  de  outras  do  tipo  das  usadas  nos  monumen- 
tos românicos  e  anteriores. 


(')  «Terra  Portuguesa»  n/"  25  26. 


85 


3.°—  Um  certo  número  de  cabeceiras  de  sepultura, 
discoides,  sustentadas  ou  não  por  um  pedestal,  e  la- 
vradas com  cruzes  numa  das  faces. 

Nas  figuras  28  e  29  encontram-se  fotografados  ou  de- 
senhados exemplares  de  todos  os  tipos  mencionados, 
tendo  o  disco  que  se  divisa  na  figura  28,  colado  sobre 
a  estela  da  cabeceira  da  tampa  de  sarcófago,  sido  colo- 
cado ali  pela  gente  dos  arredores  que  arranjou  as  pe- 
dras  dispersas  num  grupo  armado  a  seu  rude  gosto. 

Numa  das  pedras,  hoje  deitada  sobre  o  murosinho 
■de  resguardo  do  pequeno  adro,  em  frente  da  porta 
principal,  vi  o  desenho  de  um  machado  de  guerra  ou  de 
oficio,  com  a  parte  destinada  á  preensão  dos  dedos 
nitidamente  indicada. 

Todas  estas  rudes  esculturas  pertencem,  evidente- 
mente aos  primeiros  tempos  posteriores  á  fundarão 
da  capela  —  os  séculos  xiii  e  xiv. 


Cabeceiras  de  sepultura  medievais 


^^^^ESDE  tempos  remotos  que  o  homem,  para  come- 
HJk^J  morar  o  passamento  de  outro  Lomem,  notá- 
™Ji^Jiã  vel  por  seus  feitos  e  ações,  ou  caro  ao  cora- 
ção dos  agregados  familiares,  fixou  em  materiais  de 
duração  as  figuras  dos  desaparecidos  ou  os  adornos, 
armas  e  instrumentos  indicativos  da  sua  profissão  ou 
dignidade,  colocando  os  perto  do  local  da  jazida,  como 
uma  religiosa,  perene  e  saudosa  homenagem.  E  este 
costume  chegou  até  nós,  atravez  de  mil  transformações. 
A  gravura  do  homem  nú,  aurignacense,  que  dispara 
o  arco  no  abrigo  de  Laussel  (I)ordogne)^  é  talvez  a 
primeira  representação  funerária  em  que  figura  o  rei 
da  creação,  nas  suas  funções  nobilíssimas  e  primaciais 
de  caçador.  Dessa  época  em  deante  não  rareiam  os 
documentos.  Entre  os  neolíticos,  colocavam-se  nas  se- 
pulturas as  armas  de  pedra,  indicando  o  homem,  as 
mós  braçaes  de  granito  ou  conglomerados,  denunciando 
a  mulher.  Na  idade  do  bronze,  as  cistas  sepulcrais 
cobriam-se  com  lages  insculturadas  de  armas  de  guer- 
reiros (Museus  de  Beja  e  Etnológico).  As  esteias  fune- 
rárias etruscas,  da  idade  do  ferro,  com  correspondên- 
cias na  arqueologia  ibérica,  mostram-nos  os  comba- 
tentes armados,  ou  as  suas  armas  dispostas  isolada' 
mente. 


Até  aqui  só  o  guerreiro  era  digno  de  comemoração 
monumental.  Com  os  romanos,  surge,  porém,  nas  es- 
teias, a  revelação  da  importância  dos  ofícios  da  paz, 
ao  lado  da  das  artes  da  guerra.  Aparecem   os   instru- 


F^ig.  30 

Cabeceiras  de  sepultura  dos  VTusetAS  de  Évora 
e  LisLioa 


mentos  de  oficio.  As  lapides  reproduzem,  em  relevo, 
as  ferramentas  de  que  o  morto  se  serviu  em  vida  : — 
uma  enxó,  como  numa  estela  do  Cairo  ;  toda  a  ferra- 
menta de  marceneiro,  como  sobre  a  pedra  tumular  de 
um  tignarius  de  Autun  (Fig.  32  (').  No  cipo  de  L.  Sta- 
torio  Bathylo,  aparecem,  no  fundo,  um  fio  de  prumo  e 
um  compasso  (^).  No  de  um  outro  marceneiro  grego, 
lactar ius  (fabricante  de  camas),  vemos  a  enxó,  o  com- 
passo, o  esquadro  (Fig.  33)  (^).  Já  em  tempos  cristãos. 


Fig.  31 
Cabeceiras  de    sepulturí»   de   LisUoa,    Beja   e  CoiniUra 


89 


sobre  o  sarcófago   de  um  arquiteto   osteutam-se  todos 
os  instrumentos  indispensáveis  nessa  arte  (*). 

Séculos  caídos,  generali- 
sam-se  com  a  mesma  inten- 
ção comemorativa,  as  cabe- 
ceiras de  sepultura,  circula- 
res como  as  hóstias,  destina- 
das a  sagrar  as  campas  dos 
adros  e  dos  cemitérios  rústi- 
cos, anteriores  ás  inhumações 
nos  templos.  São  esses  do- 
cumentos, interessantíssimos 
j  sob  o  ponto  de  vista  arqueo- 
lógico e  etnográfico,  que  cons- 
tituem o  assunto  deste  estu- 
do. Não  é  sem  razão  que  se 
diz  que,  estudando  as  sepulturas  dos  povos  desapare- 
cidos, se  pode  fazer  a  sua  historia.  . . 


Cipo  do  " tigiiíiriíis,, 


Encontram-se  estas  cabeceira  de  sepultura,  com 
grande  frequência,  junto  das  velhas  igrejas.  Raro  será 
que  não  deparemos  com  algumas  nos  pavimentos  ou 
nos  adros  dos  templos  românicos,  góticos  e  manueli- 
nos, em  especial  das  nossas  províncias  do  centro  e 
sul.  Os  museus,  centrais  ou  regionais,  de  Lisboa 
(Carmo  e  Etnológico),  Santarém,  Évora,  Beja,  Coimbra, 
Figueira  da  Foz  —  guardam  também  grande  porção 
delas.  Há  mesmo  lugares  onde  as  cabeceiras  continuam 


(i)  Dict.  des  Antiq.,  de  Saglio,  letra  T.  p.  335  ;  (2)  R.  Accade- 
inia  dei  Lincei,  1896,  p.  i56 ;  (3)  Dict.  des  Antiq ,  de  Saglio,  letra 
R.  p.  89S ;  (4)  M.  Didron,  Iconographie  Chr.,  Paris,  1S48,  p.  340. 


90 


a  sua  religiosa  função  multisecular.  Vi-as,  não  há 
muito,  erguidas  sobre  campas  dos  cemitérios  de  S. 
João  das  Lampas  e  de  Santa  Iria  (termo  de  Lisboa). 

A  que  época  devemos  atribui-las  ?  Sem  duvida  aos 
tempos  medievaes  posteriores  ao  século  x.  O  seu  uso 
prolongou-se,  depois,  até  ao  século  xviii. 

A  cruz  dos  n/*  1  da  fig.  30,  e'2 
da  fig.  31,  não  tem  a  forma  de  cruz 
de  Cristo,  como  erroneamente  escre- 
veu Leite  de  Vasconcelos  (Arch. 
Port.,  v.  I,  p.  280),  mas  sim  a  da 
cruz  que  aparece  na  arte  cristã  da 
antiguidade  e,  a  seguir,  nos  periodos 
visigótico  (lapides  de  Mertola  e  de 
Beja)  e  românico.  São  deste  tipo  as 
cruzes  que  encimam  ainda  os  telha- 
dos de  algumas  igrejas  românicas  do 
norte  (Nossa  Senhora  da  Azinheira, 
Chaves,  Cerzedelo,  etc.)  A  cruz  do 
n.°  3  da  fig.  30  (Museu  de  Évora) 


Kig.  33 


Cipo 
'leotarius,. 


pertence  evidentemente  ao  século  xv. 
No  Museu  do  Carmo  existe  uma  cabeceira,  que  tem 
lavrada,  duma  banda,  uma  combinação  de  dois  trian. 
gulos  (não  o  sino  saimão)  e,  da  outra,  uma  cruz,  que 
não  pode  deixar  de  ter  sido  gravada  no  século  xvii. 

Como  se  vê,  do  simples  exame  da  forma  do  sinal 
sagrado  do  cristão  se  podem  tirar  conclusões  acerca 
da  sua  cronologia. 

E  possivel  que,  posteriormente  ao  século  xvii,  se 
lavrassem  ainda  cabeceiras  de  sepultura  deste  género. 
Devemos,  porém,  considera-las  como  prolongamentos 
etnográficos  de  costumes  perdidos,  sobre  que  não  vale 
a  pena  insistir. 


91 


Ao  problema  da  atribuição  de  época  a  estas  pedras 
funerárias,  deve  ligar-se  o  da  cronologia  das  sepultu- 


Kig.  3-4 
Do  Xlviseu  de  Santarém 


ras  com  o  feitio  do  corpo  humano,  abertas  em  rocha^ 
sobre  as  quais  ainda  nenhum  arqueólogo  se  quiz  pro- 


Kig,  33 

Do  Nluseu.  de  Santarém 
(Reverso) 


92 


nunciar  definitivamente.  Filipe  Simões,  certamente  le- 
vado pela  semelhança  que  existe  entre  essas  sepultu- 
ras 6  os  sarcófagos  fenícios  (Cadiz)  e  egípcios,  julgou- 
as  pré-romanas.  Leite  de  Vasconcelos,  fundando-se  em 
que  uma  sepultura  de  Zambulheira  (Moncorvo)  tinha 
escrito  no  fundo  vivi,  chega,  por  deduções  filológicas, 
a  considera-las  romanas,  cristãs  (1).  Martins  Sarmento, 
aproximando-se  mais  da  verdade,  escreveu  numa  carta 
(Arch.  Port.,  -v.  VI,  p.  46)  que,  em  «sua  opinião,  as 
sepulturas  em  rocha  já  pertencem  ao  periodo  post-ro- 
mano».  De  resto,  esteve  quasi  a  achar  a  verdadeira 
solução  do  caso,  quando  se  referiu  á  sepultura  de  Al- 
pendurada (Arch.  Port.,  v.  VI,  p.  191). 

Uma  série  de  circunstancias,  dignas  de  ponderação, 
leva-me  a  poder  afirmar,  porém,  que  estas  sepulturas 
são  pura  e  simplesmente  medievaes,  e,  em  grande, 
parte,  posteriores  ao  século  x.  Fundome  para  este  as- 
serto : 

1.°  —  Na  visinhança  de  templos  medievaes  de  cemi- 
térios de  sepulturas  antropomórficas. 

2.'^  — Na  existência  de  sarcófagos  com  a  mesma  for- 
ma, em  edificíos  românicos  e  góticos  (claustros  das 
Sés  de  Coimbra  e  Lisboa,  etc). 

3.°  —  Na  existência  de  sepulturas  abertas  na  rocha 
a  cuja  cabeceiras  ou  pés  existem  cavidades  oblongas, 
evidentemente  destinadas  a  receber  os  espigões  das 
pedras  ornamentaes  de  que  me  ocupo  (2). 


(i)  Arch.  Port.,  v.  Xí,  p.  Sjo. 

{■i)  Num  cabeço  sobranceiro  a  Povos  (Vila  Franca),  existe  ao 
lado  da  capela  gótica  do  Senhor  da  Boa  Morte,  um  vasto  cemi- 
tério de  sepulturas  abertas  na  rocha,  que  foi  estudado  por  Ferra/ 
de  Macedo  e  por  ele  atribuído,  indevidamente,  á  época  romana. 


94 


Tais  cabeceiras,  que  Gabriel  Pereira  classificou  co- 
mo do  século  XV,  têem  um  valor  etnográfico  incalculá- 
vel, pois  que  nos  aparecem  ali  os  objetos  de  uso  agri- 
cola  ou  domestico,  desenhados  com  fidelidade,  embora 
rudemente,  tal  como  se  usavam  há  quatro  ou  cinco 
séculos. 

A  propósito  das  cabeceiras  adornadas  com  alfaias 
agricolas,  surge-nos  o  problema  da  continuidade  de 
algumas  dessas  alfaias  no  uso  comum  hodierno. 

Como  se  nota  nas  figuras  34  e  37,  entre  as  peças  que 
faziam  parte  do  trem  agrícola  do  lavrador,  contam-se 
os  machados,  os  maços  e  o  cesto  de  semear.  Estes  três 
objétos  já  hoje  raramente  se  encontram  reunidos  em 
qualquer  das  nossas  províncias.  O  maço  usam-no  prin- 
cipalmente os  lavradores  do  Minho,  com  o  cabo  enfia- 
do num  buraco  do  timão  do  arado,  perto  do  pescaz.  O 
machado,  não  há  junta  de  bois  do  oriente  de  Traz-os- 
Montes,  desde  Moncorvo  a  Viíihaes,  que  o  não  leve 
cravado  na  canteira  ou  gata  de  ferro,  do  reverso  do 
jugo.  E  este  mesmo  machado,  deve  ser  o  representado 
sobre  uma  das  pedras  do  adro  da  capela  de  Sabrôso 
(Barcos),  atrás  mencionada  (Fig.  28).  O  cesto  dé  se- 
mear aparece  com  uma  certa  frequência  no  Entre 
Douro  e  Minho,  tanto  na  ribeira^  como  na  serra.  Na 
feira  de  S.  Bartolomeu,  em  Penafiel,  vi,  á  venda,  gran- 
de porção  de  cestas  de  semear,  de  cortiça,  feitas  na  fre- 
guezia  de  Raimonde. 

O  sistema  de  semear  com  cesta  eucontra-se  entre  os 


Aos  pés  de  muitas  das  sepulturas  que  aindam  perduram,  divisam- 
se  as  tais  cavidades  destinadas  a  segurar  as  pedras  das  cabecei- 
ras. No  cabeço,  que  está  rodeado  por  uma  muralha  igualmente 
medieval,  tçem  aparecido  moedas  dos  séculos  xii  e  xiii. 


95 


romanos  (fig.  3S),  ao  lado  do  outro  sistema  de  semear 
com  saco  (Dict.  des  Antiq.,  de  Saglio,  palavra  Ihis, 
pag.  923À  O  aparecimento  de  cestas  nas  cabeceiras  de 
sepultura  indica  que  o  sistema  adótado,  ao  tempo,  no 
país,  ou,  pelo  menos,  na  região  ribatejana — a  fregue- 
zia  de  X.  S.  do  O'  da  Olaia  pertence  ao  concelho  de 
Torres  Novas  —  era  o  da  semeadura  à  cesta.  Nas  mi- 
nhas excursões  por  Traz-os-Montes  não  raro  ouvi  di- 
zer que,  antigamente,  se  sementavam  sempre  com  ces- 
ta o  centeio,  o  trigo,  etc.  Agora,  para  o  grão  não 
cair,  pelos  intersticios  dos  vimes,  servem-se  de  latos  ou 
de  sacos. 


Se  grandíssima  parte  das  pedras  de  cabeceira  apre- 
sentam, em  ambas  as  faces, 
gravadas  apenas  as  cruzes, 
as  rosetas,  os  suasticas  e  os 
sino-saimões  —  tudo  sinaes 
de  carater  sagrado  e  de 
remota  ascendência  — ,  mui. 
tas  outras  aparecem-nos  de- 
coradas com  representações 
de  utensílios  e  ferramentas 
indicativas  do  sexo  ou  ocu- 
pação dos  inhumados.  As- 
sim, surgem,  no  reverso  das 
pedras,  as  juntas  de  bois, 
os  arados,  as  tesouras,  os 
fusos  e  as  rocas. 

Excécionalmente,  vi,  em  Sousel,  uma  cabeceira  gra- 
vada com  um  cálix  românico  e  duas  cruzes  da  mesma 


Kig.  3S 
Semeador  romano 


96 


época  (Fig.  40),  que  estão  indicando  claramente  a  pro- 
fissão eclesiástica  do  finado. 

No  museu  de  Beja  há  duas  pedras  com  tesouras 
abertas,  denunciando  o  alfaiate ;  no  de  Évora,  uma 
junta  de  bois,  gravada  no  reverso  da  cabeceira  n.°  B 
da  fig.  30.  No  Museu  de  Santarém  (1)  existe  a  série 
mais  interessante  que  se  conhece  em  Portugal.  Uma 
das  cabeceiras  (fig.  34)  mostra,  de  uma  banda,  a  can- 
ga—  a  mesma  canga  hoje  usada  na  parte  oriental  do 
país  — ,  a  grade,  e  o  timão  que  arrasta  essa  grade,  pro- 
vido da  respetiva  chavelha;  no  reverso  (Fig.  35),  apare- 
cem o  arado,  ligado  à  canga,  a  aguilhada,  um  escopro, 
a  machada,  o  maço,  um  saco  de  cereal  e  um  cesto  para 
a  semeadura.  Noutra  (fig.  37),  é  o  próprio  lavrador, 
vestido  com  um  saio,  como  uma  figura  dos  séculos  xiv- 
XV,  empunhando  a  aguilhada  com  a  dextra,  e  seguran- 


(i)  Provêm  da  freguezia  das  Olaias,  concelho  de  Torres  No- 
vas, e  foram  achadas  em  iSyS  quando  se  preparava  um  terreno 
para  cemitério.  Gfr.  Zeferino  Brandão  —  Monumentos  e  lendas  de 
Santarém,  no  Ba!,  da  Ass.  dos  Arq.,  4."  série,  n.»  8,  p.  7. 

Nas  «Informações  arqueológicas  colhidas  no  Diccionario  Geo- 
graphico,  de  Cardoso»  publicadas  pelo  sr.  Dr.  Mesquita  de  Fi- 
gueiredo no  Archeologo,  encontram-se  as  seguintes  referencias  a 
respeito  da  igreja  de  Santa  Marinha  de  Aljubarrota  (vol.  I,  pag. 
242): — «Divisão-se  ainda  hoje  no  seu  adro  as  sepulturas  com  as 
pedras  lavradas  por  cabeceiras,  com  vários  instrumentos  de  offi- 
cios  esculpidos,  como  são,  arados,  e  outras  insignias  deste  gé- 
nero». 

Nos  «Extratos  arqueológicos  das  Memorias  Parocgiaes  de 
1758»,  publicados  na  mesma  revista  (\o\.  II,  pag.  187),  aparece,  a 
respeito  da  igreja  de  N.  S.  da  Conceição,  ou  da  Serra,  de  Alquei- 
dão,  o  seguinte  :  «Pela  parte  de  fora  da  igreja  se  achão  alguas 
pedras  como  que  servirão  de  campas,  lavradas  já  com  rocas  e 
fuzos,  e  já  com  arados  e  instrumentos  de  agricultura». 


97 


do   iim   cesto   com    a  esquerda,    que  segue  a  junta  de 
bois  jungidos  ao  arado. 

A  dobadoura,  a  roca  com  as  suas  aduelas,  e  o  fuso 
com  o  seu  cossoh-o,  igual  à  caxaréUc  das  terras  de  Mi- 
randa, indicam,  noutra  cabeceira,  as  ocupações  femi- 
ninas da  destinatária  (fig.  36).  No  adro  da  igreja  de 
S.  João  das  Lampas  (Sintra)  encontrei  uma  cabeceira 
gravada  com  os  mesmos  utensílios,  de  um  dos  lados, 
e  do  outro  adornada  com  ílorões  cujo  estilo  indicava 
o  período  manuelino  da  nossa  arquitetura. 

Pertencem  exclusivamente  a  Por- 
tugal estas  curiosas  cabeceiras  de  se- 
pultura ? 

Evidentemente  que  não.  Encon- 
tram-se  iguais  e  adornadas  dos  mes- 
mos signos  de  misteriosa  origem  nos 
países  bascos.  Pereira  de  Lima,  no 
seu  livro /èerosei?asco.ç (Lisboa,  1902), 
reproduz  algumas  e  aliança  que  as 
mais  antigas  delas  remontam  aos  sé- 
culos VIII,  IX  e  X. 

O  meu  ilustre  amigo  Eugénio 
Frankowski,  publicou  na  Terra  Por- 
tuguesa um  largo  e  bem  documentado 
artigo  mostrando  a  difusão  dessas 
cabeceiras  por  toda  a  Península  e 
fazendo  entroncar  a  sua  origem  nos  monumentos  sepul- 
crais ibéricos  e  etruscos  (esteias  de  Clunia,  Bolonha, 
etc). 

Na  Hungria  e  Balkans  (Bósnia,  Servia,  Bulgária, 
Transilvania),  nos  cemitérios  ruraes,  aparecem  esteias 
ou  postes  de  pedra  e  madeira  fspeerkijlzer  e  fejfa)  com 
ornamentos  e  figuras  semelhantes  aos  das  nossas  cabe- 


Kig.  39 

Do  Santo  Amaro 
(BEJA) 


98 


ceiras  (1).  Na  Ásia,  na  America  (2),  entre  os  povos  de 
civilisação  oriental  ou  entre  os  selvagens,  encontramos 
enraizado  o  mesmo  costume. 

Este  uso  é,  portanto,  não  só  de  remota  origem, 
como  se  disse  no  começo,  mas,  ainda,  universal. 
A  forma  especial  das  cabeceiras  tumulares  de  Portu- 
gal, com  correspondência  em  toda  a  Europa  meridio- 
nal, derivou,  em  linha  recta,  das  esteias  romanas  ador- 
nadas de  crescentes,  suasticas  e  rosetas  sexifolias,  tão 
vulgares  no  nosso  país  e  de  tipos  tão  puros,  em  espe- 
cial na  Terra  de  Miranda  e  sua  vizinha  Leon. 

A  generalização  dos  enterramen- 
tos no  interior  das  igrejas  determi- 
nou a  extinção  do  costume  das  cabe- 
ceiras lavradas  com  ferramentas  de 
oficio.  Conheço,  porem,  casos  do  apa- 
recimento dessas  ferramentas,  mes- 
mo em  lages  tumbaes  rétangulares. 
Na  igreja  de  Santo  Amaro,  em  Beja, 
existe  uma  lage  tumular  em  que  se 
vêem  gravados  os  instrumentos  da 
arte  de  ferrador  (Fig.  39).  E  na  igreja 
conventual  de  S.  Bento  de  Avis,  so- 
bre uma  pedra  tumular  em  feitio  de  almofada,  divi- 
sa-se  uma  tosca  relha  de  arado,  que  claramente  atesta 
a  honra  em  que  «Manuel  Luiz^  lavrador,  natural  de 
!á.  Çadorninho  de  Valongo,  termo  de  Beuavila»  tinha 
a  sua  nobre  profissão  de  trabalhador  da  terra... 


Klg.   40 


De  Sousel 


(i)  Cfr.  Worter  uni  Sache.n,  II,  pags.  i23  e  i32  ;  Peasant  Art 
in  Áustria  Sc  Hungary.  fig.  5o6,  e  íigs.  yoS  a  709;  An^.  der  Ethn. 
Abt.  d.Uugarische  A'.  Museums,  lyoS,  pag.  87  e  ss. 

(2)  Rijks  Ethnographisch  Museum  te  Lciden  —  (Sgravenhage, 
1906),  PI.  IX. 


Hossa  Senhora  da  (flzinheira 
de  Outeiro  Seco  (Chaves) 


quatro  quilómetros  de  Chaves,  uns  centos  de 
metros  antes  de  chegar  à  povoação  de  Outeiro 
Seco,  nas  faldas  do  cabeço  da  Senhora  San- 
tana, e  à  orla  da  várzea  do  Tâmega,  y»^ 
levanta-se  a  igreja  da  Senhora  da  Azi- 
nheira, porventura  o  mais  interessante 
monumento  românico  do  extremo  norte 
do  pais. 

Composto  de  dois  corpos  retangu- 
lares  de  desigual  comprimento  e  lar- 
gura, conserva  ainda,  obscurecendo 
a  entrada  e  o  portal,  um  grande  al- 
pendre que  não  condiz,  em  estilo,  com 
o  resto  da  construção. 

Duas  portas  dão  acesso  ao  templo : 
a  principal,  de  volta  redonda,  cuja 
abertura  ó  ampliada  por  duas  arqui- 
voltas  molduradas  e  assentes  em  im- 
postas que,  por  seu  turno,  sobrepujam 
dois  pares  de  colunas  de  base  larga  e 
capiteis  lavrados  ;    e  uma  outra  mais  i^íg.  41 

pequena,  do  lado  direito.  i-edra  tumiuar 

Uma  faixa  esculpida  de  uma  espécie  de   axadrezado 


100 


formado  de  argolas,  debrua  a  ultima  arquivolta,  ro- 
çando na  parte  alta  da  curvatura  por  duas  misulas  que 
serviram  de  ponto  de  apoio  ao  primitivo  alpendre. 

A  porta  lateral  direita,  cujo  arco  aguçado  se  apoia 
sobre  fortes  impostas,  tem  de  altura  total,  1,77,  e  0,82 
de  ombreira  a  ombreira  fO,70  entre  as  impostas^,  sen- 
do portanto  a  sua  abertura  bastante  acanhada. 

Uma  só  janela  antiga  perdura 
no  edifício,  a  que  se  rasga  a  meio 
da  parede  fundeira  da  abside.  E' 
uma  fresta  alta  e  estreita  (0,09  de 
largoy,  provida,  externamente,  de 
uma  bela  arcada  de  ponto  subido,, 
decorada  de  bolas,  descançando 
sobre  colunas.  Sobre  a  empena, 
desta  parede  destaca- se  uma  cruz 
primitiva  que  corresponde  à  que 
encima  a  sineira  de  duas  venta- 
nas  com  volta  de  pleno  cintro, 
erecta  sobre  a  empena  da  fronta- 
ria. 

Toda  a  cachorrada  primeira,  em 
que  se  divisam  desenhos  vários, 
rolos,  bolas  e  caras  de  homens  e 
mulheres,  muito  perfeitos,  se  con- 
serva integralmente,  com  30  modi- 
Ihões  do  lado  esquerdo  do  côrpo^ 
32  do  lado  direito,  e  21  sob  as 
cornijas  da  capela  maior,  distribuídos  10  para  uma 
banda  e  11  para  a  outra  banda. 

O  material  empregado  na  construção  é  o  granito  em 
blocos  talhados  e  faceados,  dispostos  em  fiadas  hori- 
son^^.aes,  com  as  juntas  sempre  verticaes,  ligadas  com 


Kig.  42 

Fia n ta  da  igreja 
a  1:100 

(reduzida  a  '/*) 


101 


argamassa.  Estas  fiadas  não  são  da  mesma  altura, 
como  não  são  do  mesmo  tamanho  os  blocos  ou  cantos 
que  as  compõem. 

O  plano  da  igreja,  de  uma  simplicidade  estrema,  é  o 
mesmo  adotado  na  província  fronteira  em  muitos  dos 
seus  presbitérios  ruraes,   e    de   que  um  dos  exemplos 


Kig.  43 
F»orta  principal 


tipicos  e  divulgados  é  Santa  Eulália  de  Espenuca,  na 
Corunha.  A  pobreza  de  meios  e  tradições  construtivas 
em  Trazos-Montes  fez  com  que  o,  recebêssemos  da 
Galiza,  sem  alteração. 

No  interior  da  igreja,  cuja  nave  única  ó  coberta  d^ 


102 


madeira,  hà  ainda  que  menoionar,  como  trabalho  em 
pedra,  o  arco  do  cruzeiro,  modesto,  mas  cuja  volta  é 
decorada  com  bolas,  e  ainda  várias  pedras  tumulares 
de  lageamento  irregular  do  solo,  uma  das  quais  con- 
serva ainda  muito  nitido  o  desenho  de  um  espadão  de 
combate,  do  século  xiv  ou  xv  e  um  punhal  de  lamina 
curta  e  larga,  insígnias  reveladoras  da  dignidade  do 
cavaleiro  que  essa  pedra  cobriu  na  sua  ultima  jazida. 

Das  paredes  da  capela-mór  pendem  cinco  quadros 
em  madeira,  do  principio  do  século  xvj  que  me  pare- 
ceram bons,  e  por  detraz  do  altar  maior  encontrei  os 
mais  interessantes  frescos  do  mesmo  século,  que  co- 
nheço em  Portugal.  Sobre  a  parede  fundeira,  de  um 
lado  e  outro  da  fresta  atraz  mencionada,  conservavam-se 
em  estado  lamentável  de  abandono,  à  data  da  minha 
ultima  visita  (1916),  dois  lindos  grupos  de  figuras  pin- 
tadas a  fresco,  representando  um  deles  a  passagem  da 
Anunciação,  e  o  outro  dois  santos,  num  dos  quais  re- 
conheci S.  Francisco.  Pela  fresta  desvitrada  entravam 
a  chuva  e  a  neblina  da  veiga,  que,  inverno  a  inverno, 
iam  babando  e  deteriorando  as  pinturas.  Ignoro  o  esta- 
do em  que  se  acham,  mas  como  a  camada  de  estuque 
ja  abria  e  caía  em  partes,  ó  possivel  que  estejam  defi- 
nitivamente perdidos,  e  o  que  ó  peor^  sem  terem  sido 
arquivados  ao  menos  por  um  esboço. 

Toda  a  igreja  deve  ter  sido  pintada  a  fresco.  Certas 
cercaduras  e  uma  inscrição  em  letras  góticas  de  um 
sepulcro  representado  numa  das  paredes,  levam-me  a 
essa  opinião.  Infelizmente  os  pinta-mônos  a  quem  mais 
tarde  foi  entregue  a  tarefa  de  repintar  as  paredes  en- 
09.rregaram-se  de  destruir  quasi  toda  a  obra  antiga. 


Igreja  de  S^mto  flndré,  em  TT?afra 


JA  saída  da  vila  de  Mafra,  para  o  lado  do  mar, 
encontra-se  uma  velha  igreja,  semi-arniinada, 
em  que,  no  propósito  louvável  de  a  restaurar, 
se  instalaram  há  muitos  anos  vários  operários  e  um 
encarregado  das  obras  publicas,  os  quais,  metódica  e 
pausadamente  vão  procedendo  aos  trabalhos,  cuja 
conclusão  se  me  antolha  provável  em  tempo  de  seus 
bisnetos. 

E  um  belo  monumento  do  gótico  primário,  com 
corpo  de  três  naves  e  capela-mór  de  cabeceira  poligo- 
nal, edifício  muito  raro  nesta  desolada  zona  dos  arre- 
dores de  Lisboa,  onde  poucas  construções  arcaicas  os 
terremotos  e  as  restaurações  deixaram  sobreviver,  e 
que  por  isso  mesmo  deve  ser  tratado  com  carinho  e 
convenientemente  protegido. 

Exteriormente  há  que  notar  no  templo  a  porta  prin- 
cipal com  um  belo  arco  ogival  de  três  arquivoltas, 
sendo  as  interna  e  externa  de  aresta  em  toro,  e  a  in- 
tercalada de  esquina  viva,  assentando  todas  em  colu-- 
nas  curtas,  cujos  capiteis  são  adornados  de  folhas  es- 
palmadas e  multinervadas.  Alcança-se  essa  porta  por 
uma  escada  de  seis  degraus. 

A  porta  lateral  direita  reproduz  a  principal  na  dis- 
posição e  decoração. 


104 


A  abside  é  retangular,  terminando  no  topo  livre  em 
três  planos,  fortelecida  em  redor  com  seis  botareus 
providos  de  gárgulas,  e  rematada  por  uma  cimalha  es- 
tribada em   cachorros,  todos   iguaes  e  desprovidos  de 


Kig.  Ac 


IPorta  prinelpfcil  dti  igroja  cie  Sfciiito  A.i-iclré  (Mafrèi) 
(Fotojíiafla  do  aiitor) 

ornamentação.  Duas  janelas  colocadas  ao  centro  da 
construção,  uma  de  cada  lado,  davam  luz  ao  interior. 
As  goteiras  são  de  secção  poligonal,  adornadas  no  tron- 
co com  bolas  e  terminando   em  carrancas  singul^ires, 


106 


Kig.    4  6 

F>orta  lateral  direita  de  Santo  André 

(Fotografia  do  autor) 

A  capela-mór  é  mais  baixa  que  o  corpo.  Na  empena 
da  parede  que  separa  as  duas  partes  da  igreja  divisa- 
-se  um  óculo  de  abertura  quadrilobada,  fortemente  en- 
caxilhado,  a  que  correspondia  na  empena  da  frontaria 
uma  rosácea  hoje  meio  destruída.  Este  óculo  é  de  um 
tipo  vulgar,  precisamente  igual  ao  que  ocupa  idêntico 
lugar,  por  exemplo,  na  igreja  de  S.  Martinho  de  Mouros. 


106 


Interiormente  o  corpo  acha-se  repartido  em  três 
naves,  comportando  as  lateraes  quatro  vãos  abobados^ 
com  abobada  em  barrete  de  clérigo,  de  nervuras  sim- 
ples e  grossas. 

Para  a  capela-mór  entra-se  por  um  arco  muito  largo 
semelhante  ao  da  porta  principal  e  xsomo  ele  ogival, 
de  três  arquivoltas,  com  as  lateraes  em  toro  e  a  inter- 
calada em  aresta,  apoiadas  sobre  ábacos  retangula- 
res  e  capiteis  que  seguem  vagamente  a  inclinação  dos 
fustes  mas  sem  ornatos  ou  com  eles  apenas  indicados. 
Esses  fustes  são  pentagonaes  e  as  bases  assentam  sô- 
,bre  socos  retangulares.  Reconhecem- se  ainda  sobre 
eles  restos  de  pintura  a  negro  e  vermelho,  e  a  dourado 
sobre  os  capiteis. 

As  nervuras  da  abobada,  cujos  pés  vem  descançar 
sobre  colunas  de  capiteis  e  fustes  redondos,  são  gros- 
sas, de  secção  pentagonal,  e  vão  terminar  em  dois  fe- 
chos ornamentados  que  são  ligados  por  uma  fita  de 
cantaria  lavrada,  adornada  deflores,  cabeças  de  cravos, 
rosetas,  rosas  quadradas,  eto.  Dos  dois  fechos,  um  está 
lavrado  com  flores  estilisadas,  e  o  outro  com  um  lin- 
do suástica  de  18  raios  curvos.  Esta  ornamentação 
conserva  um  aspecto  acentuadamente  românico,  o  que 
não  tí  de  admirar,  conhecida  como  é  a  persistência  do» 
motivos  decorativos  bizantinos  até  ao  pleno  natura- 
lismo gótico. 

Na  Estremadura  há  duas  igrejas  que  aparentam 
grande  afinidade  construtiva  e  decorativa  com  Santo 
André  de  Mafra.  São  as  de  S.  Leonardo  da  Atouguia 
da  Baleia  (*)  e  S.  Francisco  de  Alemquer,  as  quais, 
como  a  primeira,  podemos  atribuir  ao  século  xiv. 


(»)  «Terra  Portugueea»  N.«  4,  p.  110  e  s.  e. 


107 


O  material  empregado  na  construção  de  Santo  An- 
dré foi  uma  pedra  apiçarrada,  local,  excetuaudo  os 
portaes  de  honra  e  o  arco  triunfal,  onde  se  utilisou  o 
lioz.  Pouquíssimas  siglas  se  me  depararam  na  silharia, 
e  essas  mesmas  incaracterísticas. 

No    interior  junto    da    parede    direita,    logo    perto 


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Kig.  47 

Trecho   da   faicl-ia   ornamental  do  centro   da  alDobada 
(Fotografia  tio  autor) 


da  entrada,  estão  dois  grandes  sarcófagos  de  lioz. 
branco,  encostados  pelos  topos  superiores.  São  leve- 
mente trapezoidaes,  com  dois  metros  de  comprido, 
0,70  no  topo  superior,  e  0.60  no  inferior.  A  tampa,  de- 
dorso  em  dois  planos,  ó  debrudada  por  uma  cercadura. 


108 


de   folhagem    seguida,    estilisada,    que    acompanha   o 
moimento  sobre  três  lados. 

Um  dos  túmulos  tem  gravados,  no  corpo  da  arca, 
cinco  escudos  esquartelados  de  quinas  e  cadernas.  No 
outro  aparece  este  mesmo  escudo  a  meio  da  arca, 
acolitado  por  outros  dois  cortados  em  faixa  (sem  tra- 
ços de  separação),    ornados   de   esmolneiras   veiradas. 

Ehcontrarn-se  ainda  no-- interior  diversas  inscrições 
lapidares,  quasi  todas  do  século  xviii.  ííuma  lage  que 
foi  levada  para  fora  da  igreja  e'jáz  ao  pé  da  escada 
da  porta  principal,  lê-se  :  Fui  quocl  es  eris  quod  su7n  — 
Franciscus  Aloysius  Pereira  equestris  turmaé  diictof  pos- 
tridie  kal.  januar.  an.  MDCCxxxviii.  Ura  amador  de 
belas  letras  este  capitão  de  cavalos,  que,  possivel- 
mente, combateu  ainda  nas  campanhas  da  restaura- 
ção. . . 

Detráz  da  capela-mór,  apeados  no  meio  das  silvas 
e  dos  pedregulhos,  jazem  dois  sinos  que  pertenceram  á 
torre  ou  sineira  da  igreja,  hoje  destruída.  Ujné  mo- 
derno e  pequeno,  outro,  que  mede  um  metrp  4^  ftltu- 
ra,  está  datado  d.e  1739.    ;  . 

Perto  da  igreja  levantamse  os  restos  de  um  palácio 
que  pertenceu  aòs  Viscondes  de  Vila  Nova  da  Cer- 
veira. ... 

E  aqui  terminam  as  notas  que,  sobre  a  igreja  gótica 
de  Santo  André  de  Mafra,  tomei  num  lindo  dia  de 
•outono  do  ano  de  graça  de  1914. 


Esculturas  arcaicas  do  IHuseu  de 
Lamego 

JAiíA  quem  aborda  Lamego  pela  banda  das  ser- 
ras, e  a  avista  de  longe,  das  estradas  de  Moi- 
menta ou  do  Castro,  a  cidade  aparece  repar- 
tida em  duas  manchas  irregulares  de  casario,  no  meio 
das  quaes  se  ergue,  coroado  da  sua  torre  de  menagem, 
o  morro  amuralhado  do  Castello. 

Uma  dessas  manchas  estende-se  para  o  norte  e  á. 
volta  das  faldas  da  fortaleza,  tendo  por  centro  a  pra- 
ça de  Almacave,  vizinhando  com  as  paredes  escureci- 
dos da  igreja  ducentista  do  mesmo  nome ;  a  outra 
agrupa-se  em  volta  da  Sé  e  prolonga-se  depois  até  o 
populoso  arrabalde  da  ponte  do  Balsemão,  um  dos 
pontos  de  forçada  passagem  no  caminho  para  a  cidade. 

Já  no  século  xvi  a  cidade  estava  dividida  da  mes- 
ma sorte.  Na  Descrição  do  terreno  em  roda  de  Lamego, 
de  1Õ32,  mestre  Kui  Fernandes  «tratador  de  lonas  e 
bordatas»,  mostra-nos  dum  lado  o  arrabalde  da  Seara, 
moradia  do  povo  miúdo  e  trabalhador,  do  outro  lado 
o  bairro  aristocrático  da  Sé,  onde  a  nobreza  levanta- 
va os  seus  palácios  e  se  albergavam  o  bispo,  os  cóne- 
gos e  os  beneficiados,  e  no  meio,  sobre  o  outeiro  cu- 
jas encostas  do  lado  do  nascente  verdejavam  de  vinhas 
em  socalcos,  a  alcáçova  amuralhada  e  torreada. 


110 


Foi  entre  o  bairro  da  Sé  e  as  faldas  do  castelo,  à 
orla  dum  riacho  que  a  «ponte  da  Olaria»  cavalgava 
um  pouco  mais  a  montante,  em  terreno  livre  e  plano, 
que  o  bispo  D.  Manuel  de  Vasconcelos,  que  governou 
a  diocese  até  1786,  decidiu  levantar  um  paço  novo, 
em  que  melhor  se  acomodassem  sua  casa  e  serviços. 

Esse  paço  ergue-se  sobre  um  dos  lados  dum  grande 
espaço  triangular,  hoje  ajardinado,  onde  desemboca  a 
estrada  da  Régua.,  sendo  os  outros  lados,  num  conjun- 
to interessante  de  edificações,  ocupados,  duma  banda 
pelas  casas  do  cabido  e  claustro  da  Sé,  em  que  uma 
inscrição  sob  a  colunata  da  varanda  renascença  ficou 
memorando  a  fundação  pelo  bispo  D.  Manoel  de  No- 
ronha, em  1557  ;  e  da  outra  pela  frontaria  pitoresca  e 
graciosa  do  Hospital  Velho,  lindo  edifício  da  primeira 
metade  do  século  xviii  que  um  incêndio  deixou  redu- 
zido às  paredes,  e  a  que  logo  se  segue  a  massa  pesa- 
da do  antigo  Seminário,  hoje  transformado  em  quar- 
tel. 

Projectado  para  um  local  onde  o  terreno  abundava, 
o  paço  episcopal  não  teve  necessidade,  como  os  de 
Vizeu,  de  S.  Vicente  de  Lisboa,  de  Leiria  ou  de  Évo- 
ra, de  ganhar  em  altura  o  que  lhes  escasseava  eín  lar- 
gueza. Ficou  por  isso  um  edifício  amplo  e  baixo,  qua- 
drangular, de  dois  pavimentos,  incluindo  ura  grande 
pátio  onde  as  liteiras  e  coches  episcopais  podiam  evo- 
lucionar à  vontade,  à  chegada  ou  à  partida  do  bispo 
para  as  peregrinações  diocesanas  ou  para  os  passeios 
às  quintas  de  recreio  de  Arneiros,  de  Medeio,  ou  Cas- 
tro Daire. 

Construido  no  estilo  corrente  no  tempo  de  D.  Maria  I, 
o  edifício  não  apresenta  a  fínura  das  construções  do 
século  XVI,  a  sóbria  firmeza  das  do  século   xvii,    ou   a 


Ill 


gracilidade  das  do  principio  do  século  xviii.  A  sua 
vastidão,  porêin,  o  espaçado  das  janelas,  e  a  sua  pou- 
ca altura  evitam  a  impressão  desagradável  que  as  cons- 
truções do  mesmo  estilo  causam,  em  terras  de  grani- 
to, com  a  acumulação  de  aberturas  e  andares. 


No  salão  de  entrada,  vastíssimo,  encontra-se  um 
grande  numero  de  objectos  de  épocas  diferentes,  en- 
tre os  quais  ha  que  mencionar,  como  notáveis,  quer 
pelas  molduras,  quer  pelo  próprio  valor,  vários  qua- 
dros dos  séculos  xvii  e  xviii.  Entre  os  de  primeira  ca- 
tegoria conta-se  uma  serie  de  retratos  setecentistas, 
emoldurados  de  rica  talha ;  entre  os  da  segunda,  a  co- 
leção  de  telasinhas  do  «Filho  Pródigo».  Esses  qua- 
drinhos em  que  se  relatam  as  aventuras  do  filho  fa- 
amilia  que,  depois  de  pedir  a  sua  legitima  a  vai  rapi- 
damente desperdiçar  no  jogo  e  nos  festins,  terminan- 
do por  cair  na  maior  miséria,  guardar  porcos  uo  mon- 
tado e  voltar,  arrependido,  ao  aprisco  do  lar  paterno, 
são  ocupados  e  movimentados  por  personagens  do  sé- 
culo XVII,  vestidos  a  rigor  e  com  todo  o  requinte  da 
moda,  documento  absolutamente  precioso  para  o  estu- 
do da  indumentária  civil  da  época.  Alberto  Souza  ilus- 
traria com  eles,  maravilhosamente,  tal  ato  ou  novela 
de  Júlio  Dantas.  . . 

Entre  as  peças  mais  curiosas  e  de  maior  interesse 
arqueológico  existentes  neste  salão  do  museu  de  La- 
mego figuram  três  esculturas  representando  a  Senhora, 
e  os  apóstolos  Pedro  e  Paulo,  que  podem  considerar-se, 
sem  favor,  os  mais  antigos  documentos  conhecidos  da 
imaginaria  portugueza  em  madeira. 


112 


In  formaram- me  de  que  provinham  de  Balsemão.  É 
possível;  mas  nas  duas  noticias  impressas  onde  se  fala- 
destas  esculturas,  não  se  menciona  o  lugar  donde  fo- 
ram trazidas. 

Na  monografiasinha  sobre  o  Paço  Episcopal  de  La- 
mego f'Porto-1908^,  o  sr.  J.  J.  Rodrigues  diz-nos  so- 
mente que,  tencionando  o  bispo  D.  Francisco  Vieira e 
Brito  «constituir  no  Palácio  Episcopal  um  muzeu  de 
escultura,  reunindo  o  que,  pelas  igrejas  das  freguezias 
circunvizinhas  poderia  haver  de  dispensável»  conse- 
guiu fazer  recolher  à  sede  do  bispado,  alem  de  uma 
peça  de  real  valor,  uma  Virgem  gravida  do  século  xiv^ 
«algumas  obras  toscas  e  inclassificáveis  de  épocas  ar- 
caicas». Estas  obras  toscas  eram,  indubitavelmente^ 
as  três  esculturas  a  que  me  refiro^  e  que  apezar  de  to- 
dos os  bons  desejos  permaneceram  na  Sé,  abandona- 
das, durante  alguns  anos. 

Aí  as  viu  o  pintor  viziense  Almeida  e  Silva,  que 
numa  noticia  enviada  ao  jornal  O  Século,  e  publicada 
em  10  de  Março  de  1910,  sob  o  titulo  Alguns  esclareci- 
mentos sobre  os  quadros  de  Vizeu,  escreveu  o  que  se  segue  r 

«Incidentalmente,  direi  que  na  Sé  de  Lamego  vi  a 
um  canto  três  esculturas  em  madeira,  a  Virgem,  S.  Pe- 
'^ro  e  S.  Paulo,  que  me  parecem  ser  no  género  o  que 
de  mais  antigo  existe  em  Portugal.  Têem  a  pregaria 
das  roupagens  angulosa  e  cingida  ao  corpo,  n'um  puro' 
estylo  bysantino,  sendo  certamente  anteriores  á  monar- 
chia  portugueza.  A  madeira  delas  esboroava-se,  não  de 
podridão  mas  de  velhice,  por  uma  forma  para  mim. 
desconhecida.  Recomendei  aos  srs.  cónegos  a  estima- 
ção dessas  preciosidades  —  que  deviam  estar  resguar- 
dadas em  redomas  de  vidro  —  não  sabendo  se  as  minhas, 
palavras  foram  ouvidas  ou  não.» 


L,fci  m .    1 1 


Kig.    4S 

Nossa  Senhora  e  S.  t^aulo 

Esculturas  em  madeira  do  Nlusevi  de  Lamego 

(.Fotografia  do  autor) 


li 


113 


As  palavras  do  pintor  não  Ibram  ouvidas  e  as  está- 
tuas continuaram  na  Sé,  até  que  com  a  criação  do 
Museu  de  Lamego  foram  transportadas  ao  antigo  Paço 
do  Bispo,  onde  hoje  estão  entregues  aos  cuidados  do 
sr.  João  Amaral,  proficiente  director  do  estabeleci- 
mento. 

Remontam,  pelo  menos  ao  século  xiv,  essas  imagens. 
Os  apóstolos  parecem  arrancados  de  um  portal  ro- 
mânico, com  as  suas  faces  paradas,  as  barbas  talha- 
das rectilineamente,  as  pregas  rígidas  do  vestuário 
caindo  sem  maleabilidade^  os  pés  e  as  mãos  apontados 
rudimentarmente.  A  Senhora,  de  factura  um  pouco 
mais  cuidada,  mas  em  muito  mau  estado  de  conser- 
vação, aparenta-se  com  as  primeiras   virgens  góticas. 

Faz-lbes  companhia  uma  Senhora  da  Expectação, 
em  pedra  de  Ançã,  representando  com  um  realismo 
puramente  medieval,  a  Virgem  gravida,  a  mão  esquer- 
da pousada  sobre  o  ventre,  no  mesmo  gesto  cheio  de 
abandono  e  de  resguardo  que  as  pejadas  soem  fazer. 

Não  é  única  em  Portugal,  esta  imagem.  Em  Balse- 
mão, bem  perto  de  Lamego,  existe  outra,  e  conheço 
mais  na  Sé  de  Évora,  na  matriz  de  Góes  (esta  desco- 
berta recentemente),  na  igreja  da  Alcáçova,  em  Monte- 
mór-o-Velho,  no  Museu  Machado  de  Castro,  de  Coim- 
bra, (que  pertenceu  á  Sé  Velha),  etc. 

A  denominação  genérica  de  todas  estas  imagens  é  a 
de  €  Senhora  do  O'»  ou  da  Expectação, 

Cinco  quadros  em  madeira,  dos  quaes  um  só  de  real 
valor,  representam  neste  salão,  a  pintura  portuguesa 
do  século  XVI.  O  Padre  Eterno  ou  S.  Canuto,  segundo 
as  duas  interpretações  que  conheço,  aparece,  no  qua- 
dro melhor,  rodeado  de  animaes,  alguns  exóticos,  no- 

8 


114 


tando-se  nesta  taboa  líma  frescura  e  firmeza  de  com- 
posição que  indicam  a  autoria  de  um  bom  artista  do 
primeiro  terço  do  século  de  quinhentos. 

Escanos  forrados  de  couro  lavrado,  cadeirões  de  al- 
to espaldar  e  cachaço  pregado,  secretárias  de  pau  pre- 
to, consoles  entalhadas,  numerosíssimos  exemplares  de 
imagens  estofadas  a  ouro  vivo,  rutilando  de  pedras 
falsas,  obra  dos  escultores  regionaes,  uma  linda  ca- 
deirinha rocaille  e  um  bom  quadro  do  nosso  Briareu 
de  pintura,  Pedro  Alexandrino  de  Carvalho,  comple- 
tam de  um  modo  pitoresco  a  guarnição  artistica  deste 
salão. 

Seguem*se,  na  ala  esquerda  do  edifício,  quatro  salas 
colgadas  de  tapeçarias  que  são  as  melhores  peças  do 
Museu,  e  os  mais  formosos  exemplares  expostos  em 
coleções  portuguesas,  distinguindo-se  nitidamente  en- 
tre elas  três  series  diversas,  duas  do  primeiro  terço 
do  século  XVI,  e  uma  do  principio  do  século  xviii  ('). 


(i)  E  não  era  só  das  suas  tapeçarias  do  Paço  do  Bispo,  que 
a  cidade  de  Lamego  podia  orgulhar-se.  Eram  celebres  também 
os  panos  da  Misericórdia,  porventura  vastíssimas  telas  pintadas 
scenograficamente,  cuja  relação  encontrei  no  Livro  da  Miseri- 
córdia, de  1565,  e  que  transcrevo : 

«■InvC-tario  dos  panos  pintados  cõ  que  se  a  casa  arma  nas 
endoenças : 

Itc  hu  toldo  em  que  esta  pintado  Ds  padre  cõ  quatro  profetas  - 
este  se  arma  do  cruzeiro  para  baixo. 

outro  toldo  em  q  esta  pintado  o  sol  cô  quatro  evangelistas  -  es- 
te se  arma  pegado  cõ  o  outro  e  chega  até  o  coro. 

outro  toldo  que  se  arma  debaixo  do  coro  que  tem  pintados  os 
escudos  e  as  chagas. 

debaixo  do  coro  da  parte  do  evangelho  se  poC  o  pano  do  orto. 


115 


Como  mais  antigas  podemos  considerar  as  que  re- 
presentam a  História  de  Paris,  seguindo-se-lhe  a  His- 
toria de  Édipo,  e  de  época  mais  tardia  já,  a  Historia  de 
Alexandre.  " 

Da  Historia  de  Paris,  existe,  completo,  um  grande 
pano  que  o  Diretor  do  Museu  conseguiu  armar  e  com- 
pletar atravez  mil  canceiras.  As  figuras,  algumas  com 
os  nomes  em  góticos  marcados  sobre  as  roupas  ou  sob 


após  este  o  pano  da  prisam  q  começa  pegado  com  o  peitoril  do 
coro. 

outro  pano  pegado  cõ  este  quando  xpõ  foi  levado  ante  anaz. 

outro  pano  logo  em  que  esta  pintado  ecce  homo. 

outro  logo  do  lavamento  das  mãos  de  pilatos. 

outro  pano  quando  foi  levado  ante  pilatos  e  sentèciado,  e  estes 
chegam  até  o  cruzeiro. 

no  cruzeiro  o  pano  grande  q  atravessa  a  igreja  q  tem  o  encra- 
vam.'» e  crucificam.'"  e  decim.'"  da  cruz. 

da  parte  da  epistolla  logo  pegado  cõ  este  pano  do  cruzeiro  se 
põem  o  pano  quando  meterò  a  xpo  no  muymento. 

abaixo  deste  quando  descendeo  aos  infernos. 

pegado  cò  este  o  pano  da  Resurreiçào. 

logo  abaixo  o  pano  quando  apareseo  aos  apostollos  em  casa  de 
maus. 

outro  pano  quando  xpo  apareseo  aos  appostollos  todos  ecõ  es- 
te chega  ao  peitoril  do  coro  da  epistolla. 

debaixo  do  coro  da  ilharga  da  epistola  se  põem  outro  pano  da 
entrada  de  Jerusalém. 

outros  dous  panos  das  morte  se  põem  as  ilhargas  da  porta  prin- 
cipal e  no  meio  do  postigo  na  meia  porta  hum  pano  peque- 
no de  -uando  se  inforcou  Judas 

debaixo  do  pano  do  cruzeiro  de  hua  ilharga  se  põem  hua  guar- 
da porta  quando  cristo  levou  a  cruz  as  costas. 

da  outra  parte  outra  guarda  porta  do  açoutam.'   de  xpo. 


todos  estes  panos  estam  em  hua  arca  grande  que  esta  na  casa 
do  cabido. 


116 


08  pés  dos  personagens,  tal  como  se  usava  nos  qua- 
dros da  época,  são  do  mesmo  gosto  das  que  encontra- 
mos nas  celebres  Moralidades  e  Historia  de  David  da 
coleção  de  tapeçarias  da  Coroa  de  Hespanha. 

Este  pano  diferencia-se  dos  da  História  de  Édipo 
pela  cercadura  e  pela  larguesa  com  que,  nestes  últimos, 

—  por  ventura  copiados  de  cartões  de  um  mestre  da 
escola  renana,  segundo  opina  o  meu  colega  Luís  Keil 

—  são  tratados  os  personagens. 

A  série  da  História  de  Édipo,  consta  de  vários  panos,, 
no  maior  dos  quaes  se  refere  o  episódio  de  Laio,  rei 
de  Tebas,  que  por  um  oráculo  lhe  haver  dito  que  seu 
filho  o  mataria  o  marídou  lançar  às  feras  no  mont& 
Citeron.  Recolhido  por  uns  pastores  que  o  encontra- 
ram suspenso  de  uma  arvore  com  os  pés  inchados  da 
pressão  das  cordas  (donde  o  nome  de  Oedipo),  levaram- 
no  estes  a  Polibio,  seu  amo,  rei  do  Corinto,  que  edu- 
cou a  creança  como  seu  próprio  filho.  Depois  de  peri- 
pécias várias  Édipo  mata  o  pae,  sem  o  reconhecer,  & 
termina  por  desposar  a  própria  mãe.  Esta  scena  dos- 
esponsaes  é  uma  das  representadas  nos  panos,  cuja 
série,  está  evidentemente,  incompleta. 

O  sr.  dr.  José  de  Figueiredo  atribue  estas  tapeça- 
rias a  uma  das  melhores  oficinas  de  Flandres. 

O  sr.  Joaquim  de  Vasconcelos  publicou  na  Arte  Re- 
ligiosa em  Portugal,  n,°  12,  um  estudo  acerca  das  tape- 
çarias do  Paço,  e  foi  ele  que  pela  primeira  vez  deu  o  no- 
me de  História  de  Édipo,  a  uma  das   séries  de  panos. 

A  última  sala  do  edifício,  cujas  janelas,  ligadas  ex- 
teriormente por  uma  grossa  varanda  corrida  de  gra- 
nito, abrem  para  o  largo  do  antigo  Rossio,  hoje  ajar- 
dinado, abriga  as  melhores  obras  de  pintura  do  Mu- 
seu. E  aí  que  se  encontram  os  quatro  quadros  primi- 


117 


tivos  que  pertenceram  ao  Cabido,  e  que  os  críticos  de 
arte,  portugueses  e  estrangeiros,  colocam  entre  as  me- 
lhores obras  dos  pintores  portuguezes  do  principio  da 
século  XVI. 

Representam-se,  nesses  quadros,  vários  passos  da 
vida  da  Senhora  e  do  Menino,  até  á  Circtimcisão.  No 
■quadro  da  Visita  a  Santa  Izabel,  em  que  as  arquitetu- 
ras  do  fundo  e  a  paisagem  revelam  a  copia  de  um 
original  flamengo,  o  pintor  colocou,  num  canto,  um 
carro  de  bois  beirão,  do  tipo  que  ainda  hoje  se  conser- 
ta entre  Lamego  e  Vizeu. 

Dos  quadros  mais  recentes  e  de  menor  valor,  do 
precioso  mobiliário  dos  séculos  xvii  a  xviii,  de  todo 
esse  mundo  de  santos,  obra  dos  entalhadores  de  La- 
mego, dos  quadrinhos  ingénuos  e  delicados  feitos  pe- 
las freirinhas  do  Convento  das  Chagas,  não  vale  a  pena 
dizer  mais,  nesta  abreviada  descrição  do  Museu,  des- 
tinada somente  a  chamar  a  atenção  sobre  este  belo 
repositório  de  obras  de  arte  que,  devido  aos  esforços 
do  sr.  dr.  Alfredo  de  Souza,  na  região,  e  do  sr.  dr. 
José  de  Figueiredo,  em  Lisboa,  se  conseguiu  criar 
para  salvação  de  preciosidades  e  engrandecimento  da 
cidade. 


Virgens  pejadas 


E  quantos  teem  entrado  no  Museu  Machado  de 
Castro,    de   Coimbra,   esse  precioso   exemplo 
t^^^^i^JÂ  de  quanto  pode  o  muito   amor  de  poucos,  à 


Arte,  ninguém  por  certo  deixou  de  sentir  a  atenção 
solicitada  pela  magnifica  galeria  de  imagens  góticas 
que  lá  se  quedam  deslumbradas  da  luz,  saudosas  dos 
nichos  ensombrados  e  recolhidos  das  suas  velhas  igre- 
jas. A  todas  se  avantaja,  para  mim,  a  Virgem  pejada, 
bela  escultura  do  século  xiv,  em  cujas  roupagens  dé 
panejamentos  superabundantes  se  reconhecem  ainda 
os  vestigios  da  pintura  policromica  com  que  o  medievo 
santeiro  a  estofou. 

Essa  figura,  apesar  do  afastado  da  época  e  do  nos- 
so habitual  atraso  artistico,  é  um  belo  exemplo  do  pro- 
gresso do  trabalho  da  pedra  em  Coimbra,  na  Idade 
Media ;  apresenta  vida  e  realidade  na  expressão  dolo- 
rida e  espectante  da  face,  no  gesto  quebrado  da  mão 
que  aconchega  o  ventre  entumescido,  no  avançar  in- 
quieto e  suplicante  do  outro  braço.  Estava  na  Sé  Ve- 
lha, e  a  seus  pés  rojavam-se,  suplicantes  de  um  bom 
sucesso,  todas  as  mães  da  cidade. 

Não  é  a  única  que  existe  no  distrito.  Em  Montemór- 
-o-Velho,  no  santuário  românico  de  Santa  Maria  da 
Alcáçova,  que  o  bispo  de  Coimbra  D.  Jorge  d'Almeida 


120 


refundiu  no  later  gothic^  outra  Virgem  pejada  repousa, 
ao  abrigo  da  absída  esquerda,  envolta  na  meia  luz  que 
tomba  da  rosácea  da  frontaria. 

Pelo  resto  do  país  aparecem  também,  nos  velhos 
presbitérios  românicos  e  góticos,  e  até  já  fui  encontrar 
uma  na  capela  de  S.  Pedro  de  Balsemão,  aquele  pre- 
cioso relicário  da  arte  e  arquitétura  visigótica,  único 
entre  nós.  Chamam-lhe  lá  a  Senhora  da  Pena,  e  a  três 
quilómetros  apenas,  em  Lamego,  uma  imagem  congéne- 
re é  a  Senhora  dos  Meninos,  hoje  recolhida  no  museu 
da  cidade. 

Disse-me  um  dia  o  Dr.  Teixeira  de  Carvalho,  que 
existia  outra  em  Évora. . .  E  quantas  mais  não  existi- 
riam por  essa  bemdita  terra  de  Portugal  fora,  onde  sem- 
pre houve  mães  anciosas,  no  sacrifício  doloroso  da  ma- 
ternidade ! 

Essa  Senhora  da  Espectação  tem  o  seu  altar  a  meio 
da  nave  central  da  Só  de  Évora  e  obedece  ao  canou 
geral  seguido  pelos  imaginários  de  Coimbra. 

No  intento  de  descobrir  mais  alguma  ainda,  dei-me 
um  dia  a  percorrer  os  tomos  do  Santuário  Marianno^  e 
não  foi  de  todo  infructifero  o  meu  jornadear  pelas  res- 
mas do  seu  papel  amarelecido.  Encontrei  a  primeira 
em  Torres  Novas,  onde  o  auctor  dizia  da  Senhora  do 
Ó,  que  se  encontrava  na  igreja  matriz,  em  Santa  Ma- 
ria do  Castelo  :  fHe  eata  santa  imagem  de  pedra  ;  mas 
de  singular  perfeição.  Tem  de  comprido  seis  palmos. 
No  avultado  do  ventre  sagrado  se  reconhecem  as  es- 
peranças do  parto.  Está  com  a  mão  esquerda  sobre  o 
peito  e  a  direita  estendida.  Está  cingida  com  hua  cor- 
rea  preta,  lavrada  na  mesma  pedra ...» 

Vinha  outra  nas  alturas  de  Tomar,  e  estava  na  «Ca- 
sa de  Nossa  Senhora  do  Ó,  situada  junto  ao  rio  Na- 


121 


bão  na  freguezia  de  S.  Pedro  da  Bibirriquyra. . .  He 
de  pedra,  a  sua  estatura  são  4  palmos,  vê-se  com  o 
ventre  crescido  e  a  mão  direita  sobre  ele  e  na  esquer- 
da um  livro  aberto. . . ». 

Nestas  duas,  cuja  descrição  transcrevo  pelo  que  as 
figuras  são  semelhantes  á  imagem  de  Coimbra,  ha 
referencia  especial  ao  ventre  ;  em  muitas  outras  porem 
4  citado  apenas  o  titulo  da  invocação  :  assim  a  Senho- 
ra do  O,  das  Aguas  Santas  (Leça  do  Bailio),  a  de 
Santa  Ovaia  de  Baixo  (Besteiros),  a  das  Córgas  (Pe- 
nalva de  Viseu)  e  muitas  mais. 

Tive,  em  meadas  de  1919,  ocasião  de  examinar  em 
•Góes  mais  uma  Senhora  deste  tipo,  talvez  um  pouco 
mais  tardia,  que  apareceu  numa  excavaçáo  feita  em 
terreno  contiguo  à  igreja.  Decerto  fora  mandada  en- 
terrar fora  do  templo  por  algum  abade  mais  escrupur 
loso  ou  ignorante.  Recentemente  ainda,  o  prior  de  São 
João  das  Lampas  mandou  enterrar  também  uma  ima- 
gem''do  mesmo  gosto,  que  pertencera  à  igreja  destrui- 
da  de  Garoaria  e  recolhera  ao  seu  presbitério,  inocen- 
temente . . . 

Nenhuma  destas  esculturas  é  posterior  ao  século  x\ft- 
Com  o  gótico  medraram  e  se  espalharam  pelo   paiz  e 
<jom  o  terminar  dele  findou  o  seu  domínio.   A  Renas- 
•cença  fez  desaparecer  de  todo  os  vestigios  de  um  rea- 
lismo que  ela  já  não  compreendia  na  religião. 

O  culto  da  Expectação  continuou  até  nossos  dias, 
mas  nunca  mais  canteiro  algum  ousou  desbastar  na 
pedra  rugosa  a  curva  panda  de  um  ventre,  sob  as  rou- 
pagens distendidas  e  os  cintos  alargados. 


12-: 


A  denominação  genérica  de  todas  estas  imagens  é  a 
de  Senhora  do  O,  ou  da  Expectação  e  narram  os  agió- 
grafos  dos  séculos  xvii  e  xviii  que  a  origem  da  desi- 
gnação remonta  a  tempo  dos  godos.  No  ano  8."  do  rei- 
nado de  Recesvinto  (ano  <3G1),  foi  instituida  em  conci- 
lio celebrado  em  Toledo,  a  festa  da  «Expectação  do 
parto  da  Senhora». ' 

Costumava  a  igreja  e  costuma  ainda,  cantar  nos  se- 
te dias  que  precedem  o  natal  umas  antifonas  que  to- 
das principiara  pela  letra  O  e,  como  dizia  um  desses 
autores,  «clausulava  o  Oficio  Divino  com  huas  vozes 
sem  concerto,  nem  harmonia,  dizendo  todo  o  clero  e 
todo  o  povo,  a  gritos  O,  O,  O.  Destes  O,  O,  teve  o 
principio  o  intitular-se  esta  festa,  do  O,  e  também  o 
dar-s5e  este  titulo  à  mesma  Senhora  em  suas  Imagens, 
que  era  o  mesmo  que  intitularem  á  Senhora  em  seus 
desejos,  ou  celebrar  a  festa  dos  desejos  da  Senhdra.» 

E'  interessante,  como  se  vê,  a  origem  da  designa- 
ção e  náo  deixa  de  ter  um  certo  encanto  a  transfor-, 
mação  popular  do  O  ritual,  no  O  fervoroso  e  ansiado 
de  esperança  materna. 

Instituída  a  festa  na  Hespanha,  na  visinha  Toletum 
e  como  em  Portugal  a  abundância  das  já  citadas  vir- 
gens comprova  o  quanto  ela  se  espalhou  pelo  país,  fa- 
cilmente se  compreende  que  não  terá  sido  menor  a  sua 
dispersão  pelo  resto  da  Peninsula.  Não  vi,  porém,  ain- 
da, em  livro  ou  revista  de  arte,  cousa  alguma  que  me 
autorise  a  acreditar  que  este  culto  e  a  sua  realista  re- 
presentação, se  houvessem  espalhado  na  Itália  ou  na 
França.  Pelo  espanto  que  um  estrangeiro,  membro  do 
congresso  do  Turismo  de  1911,  o  artista  e  pintor  Jan 


123 


Matteix,  de  Toulouse,  me  significou  quando  lhe  mos- 
trei a  Virgem  pejada  do  antigo  Museu  do  Instituto,  que 
afirmou  ser  a  primeira  que  assim  via  e  logo  desenhou, 
acabei  de  convencer-me  de  que  esta  representação  an- 
tropomórfica não  passara  os  Pirinéus. 

De  resto  ha  muitas  outras  cousas  de  igreja  que  sãa 
peculiares  a  Hespanha  e  a  Portugal ;  é  muito  possível 
que  este  culto  não  existisse  sequer  fora  da  Peninsula. 

Evidentemente  a  instituição  desta  festa  teve,  como  a 
de  tantas  outras,  a  utilidade  e  o  fim  claro  de  cristiani- 
zar um  culto  pagão  à  Fecundidade,  existente  entre  os 
ibero-romanos. 

As  representações  esculturaes  das  virgens  d'hoje, 
não  passam  de  cópias  de  esculturas  anteriores,  pagãs. 
Assim,  as  virgens  sentadas,  com  os  hamhiní  ao  colo^ 
aparecem  já  com  frequência  entre  as  deae  matres  da 
panteon  latino,  ou  nas  figuras  da  Demeter  grega  do 
século  V,  tão  delicada  e  deliciosamente  creadas  no  bar- 
ro pelos  coroplastas  beócios. 


Sem  pretender  agora  fazer  uma  ligação  ou  estabe- 
lecer uma  continuidade  tradicional  completa,  para  que 
me  faltam  alguns  elos,  sempre  quero  referir-me  ao- 
quanto  este  realismo  artístico  que  fazia  representar, 
deificada,  a  mulher  gravida,  remonta  longe  nas  épocas 
e  civilisações. 

Desde  as  primitivas  ertis  o  mistério  da  Fecundidade 
impressionou  os  povos ;  nada  portanto  mais  natural 
do  que  a  divinisação  desse  mistério  que  os  fazia  viver  ; 
e  essa  divinisação  unia  na  mesma  veneração  a  mulher 


124 


8  a  natureza,  uma  imagem  da  outra,  ambas  igualmen- 
te fecundas  e  criadoras. 

Descobertas  recentes  teem  resuscitado  dos  estratos 
arqueológicos  pequenas  figurinhas  de  barro,  terre  cotte 
rudimentares  das  idades  do  bronze  e  da  pedra  polida, 
longiquas  antepassadas  das  tanagreanas  de  Difilos,  re- 
presentando divindidades,  entre  as  quaes  ao  lado  de 
ídolos  femininos  de  formas  normaes  se  encontram  ou- 
tros de  ventres  rotundos.  Estes  descobrimentos  fi^e- 
ram-se  no  Egito  neolitico,  em  Malta  préistórica,  na 
camada  micenica  de  Phaestus,  etc,  e  até  foram  acha- 
dos dois  Ídolos  deste  género  em  Adulis  (Colónia  Eri- 
trea),  do  século  v  depois  de  Cristo. 

Dedicaram-se  ao  assunto  alguns  dos  melhores  tra- 
balhadores da  arqueologia,  e  pelos  estudos  de  sábios 
como  Angelo  Mosso,  que  lhe  reservou  um  capitulo  da 
sua  «Preistoria»,  chega-se  hoje  à  conclusão  de  que  des- 
de os  mais  remotos  tempos  o  homem  adorou  a  mulher 
pejada,  simbolo  da  Fecundidade. 

As  Senhoras  do  O,  não  vieram,  portanto,  senão  con- 
tinuar uma  tradição  religiosa  muito  antiga. 


Lfcim.   III 


Kig.  49 


Senhoras  da  EspectaçSo,  ovi  do  O,  do  Vluseti  de  Lamego 
e  da  capela  de  Balsem5o 

^Fotog^afias  do  autorj 


Qapela  da  Senhora  de  Guadalupe 
(5.  Paio-Vila  Real) 


%l 


uns  quatro  quilómetros  de  Vila-Real,  para  NEl. 
sobre  um  cabeço  cujas  faldas  são  hoje  contor-- 
nadas  pela  linha  férrea  da  Régua  a  Vidago,  le- 
vanta se  a  capela  da  Senhora  de  Guadalupe,  um  belo 
monumento  erguido  durante  o  século  xv,  mas  cuja 
simplicidade  arquitetonica  facilmente  nos  induziria  a 
considera-lo  de  época  anterior. 

Isto  mesmo  tem  sucedido  com  outros  templos  da. 
região.  A  igreja  de  S.  Domingos,  o  que  resta  do  con- 
vento vilarealense  de  dominicanos  destruído  por  um 
incêndio,  e  fundado  em  1422,  foi  já  considerada,  pela 
sua  rudeza  estrutural  e  decorativa,  uma  construção 
românica  (').  E  a  capela  de  S.  Diniz,  na  vila  velha, 
dentro  de  cemitério  moderno,  poderia  também,  se  não 
houvesse  a  certeza  da  data  da  sua  fundação,  ser  repu- 
tada igualmente  como  monumento  anterior  ao  sécu- 
lo xiii,  o  mesmo  acontecendo  a  tantos  outros  edifícios 
religiosos  transmontanos,  dessa  época  e  seguintes,  pois 
que  sempre  à  província  chegaram  com  atrazo  os  pa- 
drões das  modas. 


(í)  Vide  a  serie  de  artigos  «Vila  Real  de  Traz  os  Montes»,  pu- 
Llicados  pelo  dr.  António  Granjo,  na  Lacta,  em  1910. 


126 


São  poucas  e  confusas  as  indicações  referentes  a  esta 
igreja,  que  mal  aparece  citada  nos  agiologios  ou  nas 
corografias.  O  próprio  ncme  o  recoliii  no  povo  que  lhe 
fica  mais  vizinho. 

Ergue-se  o  monumento,  imponente  e  maciço,  sobre 
um  terreno  um  tudo  nada  declivoso,  levantando  bem 
alto  a  sua  frontaria  lisa  e  tostada  dos  séculos,  que  a 
empena,  encimada  por  una  sineira  esguia,  parece  tor- 
nar mais  alta  ainda. 

Uma  porta  de  arco  subido,  modesta,  encaxilhada  de 
ombreiras  toreadas,  a  que  uma  arcada  cega,  —  cujos 
pés  assentam  em  misulas  à  altura  em  que  na  porta  de-i 
veriam  existir  os  capiteis^  —  serve  de  sobreceu  orna- 
mental, dá  acesso  ao  templo,  na  fachada.  Duas  portas 
lateraes,  do  mesmo  gosto,  mas  de  volta  redonda  e  com 
as  arcadas  superiores  adornadas,  completam  o  número 
habitual  das  aberturas  ao  rez  da  terra  que  comporta- 
vam os  edifícios  religiosos  do  tempo. 

Sobre  as  portas  e  logo  por  cima  da  linha  dos  cachor- 
ros de  suspensão  dos  alpendres  —  4  na  frente  e  8  late- 
ralmente, —  corre  um  resalto  de  pedra  a  todo  o  compri-* 
mento  das  muralhas,  adotado,  evidentemente,  para  des- 
monotonizar  as  grandes  superfícies  lisas,  caída  em  des- 
uso como  estava  já,  no  tempo  da  edificação,  a  fábrica 
variada  dos  portaes  românicos,  pesados  por  vezes,  mas 
quê  só  por  si  enchiam  de  vida  e  animação  a  face  gra- 
nítica dos  presbitérios. 

No  largo  espaço  compreendido  entre  o  resalto  apon- 
tado e  a  sineira  que  sobrepuja  a  empena  da  frontaria — 
em  verdade  quanto  mais  ligeiramente  do  que  nos  ediíi- 
cios  dos  séculos  XII  e  XIII,  — abre-se  um  óculo  emmoldu- 
rado,  a  que  corresponde,  na  empena  da  parede  fundeira 
do  corpo,  um   outro  de  luz  recortada  em  sino-saimão. 


I 


127 


Uma  soberba  liaha  de  26  cachôrroá  aguenta  o  friso, 
de  cada  lado,  sendo   quasi  todos   esculpidos  diversa- 


10      ^ 

tii  5 

i) 


mente,  com  representações  de  figuras  humanas  e  de 
diabos,  salientando-se  uma  série  de  caras  de  homens, 
envolvidos  em  capuzes,  e  de  mulheres,  de  mantilha  so- 
queixada.   Alguns   dos   bustos   são   acompanhados  de 


128 


braços,  que  seguram  quer  um  livro,  quer  uma  borra- 
cha, ou  uma  roca  envolvida  no  seu  maneio  de  lã. 

Entrando,  nota  se  que  a  capela  é  tão  grande  como 
qualquer  das  igrejas  românicas  atraz  estudadas,  pois 
mede  17,tíO  de  comprido,  no  corpo,  por  S,õO  de  largo, 
e  na  capela  maior,  respectivamente^  8,70  por  5,26. 

O  arco  tçjunfal  é  de  ogiva  larga,  pesado  e  sem  en- 
feites, com  as  esquinas  das  pilastras,  na  parte  voltada 
para  o  corpo  da  igreja,  chanfradas, 

A  capela-mór  é  muito  mais  baixa  que  o  corpo  e 
ameada  externamente,  já  à  moda  do  século  xv,  vendo-se 
cravado  um  escudo  episcopal  na  sua  parede  fundeira, 
que  é  rematada  por  um  calvariosinho  muito  tosco,  da 
mesma  época  e  semelhante  a  outro  que  ficou  num  lar- 
go, perto  da  frontaría  da  igreja. 

Várias  siglas  em  letras  góticas,  m,  h,  g,  d,  9,  e  abre- 
viaturas dos  nomes  dos  canteiros,  g.°  (gonçalo)  e  á." 
(diogo),  aparecem  gravadas  sobre  os  silhares  e  até  so- 
bre os  cachorros. 

Restam  ainda  no  lagêdo  do  solo  algumas  incrições, 
como  a  da  pedra  tumbal  de  um  Álvaro  Lopes,  de  1657, 
e  uma  outra  mais  importante  pela  designação  do  bo- 
cal, a — 5.*  de  Marti  Vaz  de  S.  Paio.  Fidalgo  da  casa  delrei 
meu  s."""  e  Erd."*  1595;  e  nas  paredes  pinturas  horríveis 
que  possivelmente  substituíram  bons  frescos  do  fim  do 
século  XV,  pois  que  à  igreja  atribui,  para  época  de  fun- 
dação^ a  segunda  metade  deste  século. 

Em  1464  foi  D.  Afonso  V  em  peregrinação  a  Gua- 
dalupe, e  é  possível  que  depois  desta  viagem  o  culto 
pela  Senhora  dessa  invocação  se  afervorasse  em  Por- 
tugal, provocando  fundações  religiosas  como  esta  de 
que  me  acabo  de  ocupar. 


Uma  estátua  tumular  da  Sé  de  Lisboa 


|.MA  e  meia  do  dia  29  de  Junho  de  1916.  O  sol 
dardeja  a  pino  sobre  a  silharia  escurecida  e 
patinada  da  Sé.  Pelo  grande  portal,  sujo  e 
frio,  entro  na  meia  treva  das  naves,  cortada  a  espaços 
de  reflexos  dos  azulejos  que  a  luz,  tombando  do  alto, 
vem  ferir  irregularmente.  Sob  o  cruzeiro  um  cónego 
gesticula  ante  um  grupo  desatento.  Mesmo  dentro  das 
naves  o  ar  aqueceu. 

Uma  tosca  porta  de  tabões  mal  aplainados  separa  a 
igreja  da  sua  charola  em  obras.  Passada  ela  deixa-se 
o  mundo  religioso  e  entra-se  no  da  arqueologia. 

As  capelas  do  deambulatório,  desaparecendo  sob 
prumos  6  andaimes,  parecem  troços  de  obra  nova.  A 
uma  delas,  já  completa,  com  o  lioz  picado  brilhando, 
recolheram  novamente  os  três  sarcófagos  estudados 
por  Gabriel  Pereira.  A  luz,  coada  suavemente  pelos 
vitrais  envolve  de  um  tecido  tremente  de  sombras  as 
estátuas  jacentes,  o  ricomem  barbado,  tentando  ainda 
arrancar  fora  a  espada,  as  mulheres,  tranquilas,  lendo 
os  seus  livros  de  oração  de  laudas  gravadas  em  gótico, 
abertos  sobre  o  peito.  Pregas  rígidas  do  vestuário, 
sapatos  em  bico,  lebreus  aos  pés.  Esculturas  do  pleno 
século  XIV,  duras,  de  uma  dureza  ainda  acentuada  pelo 
lioz  era  que  as  talharam. 

9 


130 


Passa-se  para  o  Claustro,  de  lagêdo  em  substituição 
e  arcos  destroçados.  No  ângulo  esquerdo,  na  capela 
de  Santo  Aleixo,  as  obras  de  restauração  acabam  de 
pôr  a  descoberto,  caído  o  estuque  das  jDaredes  laterais, 
os  vãos  de  dois  pares  de  arcosolios  ogivais  que  abri- 
gam cada  um  seu  sarcófago.  Dois  dos  moimentos  são 
cobertos  por  estátuas  tumbais  ;  do  lado  direito  é  um 
bispo,  quási  informe  pelas  depredações  sofridas ;  do 
lado  esquerdo  uma  dona. 

Na  presença  de  José  de  Figueiredo,  Luciano  Freire 
e  Costa  Mota,  do  Conselho  de  Arte,  e  de  António 
Couto,  director  das  obras,  procede-se  à  abertura  dos 
túmulos.  Aparecem  os  pobres  esqueletos,  requeimados 
e  resequídos,  dos  grandes  senhores  que  ali  jouveram ! 
Na  arca  tumular  do  bispo  ficaram  as  luvas  e  parte  de 
um  tecido  rico,  que  o  meu  amigo  D.  Sebastião  Pessa- 
nha estudou  há  pouco,  no  seu  Núcleo  de  Tecidos^  II. 

Fica-nos,  como  despojo  opimo  da  visita,  a  memória 
da  estátua  tumular  feminina.  A  dona  desconhecida, 
cinta  apertada  por  uma  correia,  esmolneira  caída, 
mantilha  soqueixada  monacalmente,  está  de  mãos  pos- 
tas ;  e  dois  anjos  esguios,  estendidos  ao  correr  da  pe- 
dra, parecem  segurar  um  lindo  baldaquino  gótico,  no 
género  dos  das  sepulturas  de  D.  Pedro  e  D.  In,ês  em 
Alcobaça,  docel  de  pedra  filigranada  que  lhe  cobre  a 
almofada  onde  repousa  a  cabeça. 


Lam.  IV 


Tampa  de  ui-n  sarcófago  da  capela 
de  Santo  Aleixo  (Sé  de  Lisboa) 


(.Fotografia  de  Liiis  Keil) 


A  capela  de  S-  Domingos  de  Fontêlo 

(LAMCõO) 


Ta  serra  de  S.  Domingos,  que  extende  a  linha 
irregular  das  suas  corcovas  pedregosas  a  E  e 
SE.  de  Lamego,  coroando  o  píncaro  mais  ele- 
vado dela,  conserva-se  ainda,  quási  sem  modificações, 
a  capela  que  D.  Afonso  V  lá  mandou  erigir  para  me- 
mória da  protecção  divina  ao  seu  tálamo  real. 

De  facto,  e  segundo  a  tradição,  o  rei,  desolado 
com  a  esterilidade  da  esposa  e  depois  de  ter  ex- 
perimentado os  mais  variados  adjuvantes  para  obter 
geração,  recorreu,  como  último  remédio,  à  prática 
supersticiosa  de  ir  dormir  uma  noite  em  sembra  com 
a  rainha,  sobre  uma  velha  pedra  existente  na  serra  de 
S.  Domingos. 

Claramente  se  pode  depreender  da  narração  que  se 
tratava  de  uma  pedra  milagrosa  conhecida  por  algum 
fidalgo  da  côrté,  vizinho  de  Lamego,  crente  nas  qua- 
lidades procreativas  do  penedo  e  que  como  tal  o  indi- 
cou ao  rei. 

Não  são  raras  no  país  e  na  Europa  estas  pedras,  e 
a  de  S.  Domingos  apresenta  o  especial  interesse  de 
aparecer  num  lugar  que  foi  o  assento  de  um  castro  preis- 
tórico.  Vizinho  da  serra,  cujas  cumiadas  avisto,  do  meu 
casal   das   ribas   do   Douro,  dominando  a  paisagem 


132 


enchendo-a  para  o  lado  do  nascente,  como  para  o- 
norte  e  poente  a  dominam  e  atravancam  as  cristas  do 
Marão  e  seus  contrafortes  levantados  desde  a  corrente 


Kjg.  5i2 

Capela  de  S    Domingos 
(Fologralia  do  uutnr) 


do  Rio,  muitas  vezes  a  percorri  e  lhe  sondei  os  picos 
e  quebradas. 


133 


Logo  a  quando  da  primeira  visita,  era  1912,  reco- 
nheci que  o  cabeço  onde  se  ergue  a  Capela  fora  o 
centro  de  uma  povoação  preistórica,  de  que  se  encon- 
travam ainda  troços  de  muros  e  fragmentos  cerâmicos 
característicos  da  idade  do  ferro,  sem  iníiuéncia  roma- 
na. Estava  explicada  a  origem  da  podra  procriadora. 
Yinha  de  tempos  preistóricos  a  ideia  supersticiosa  que 
a  envolvia. 

Procurei-a  depois  baldadamente  na  capela.  Ninguém 
me  soube  dar  notícias,  e  a  própria  tradição  da  visita 
rial  anda  quási  perdida.  A  meu  avô,  homem  forte  de 
outro  ciclo  histórico,  cujos  olhos  assistiram  ainda  ao 
despontar  do  clarão  aurorial  de  um  novo  mundo,  per- 
guntei se  a  conhecia  ou  a  tinha  visto  alguma  vez. 
Disse-me  que,  quando  novo,  acompanhava  com  a  gente 
da  sua  Penajoia  as  procissões  propiciatórias  a  S.  Do-- 
mingos,  para  extermínio  do  'pulgão  da  vinha,  a  vira  a 
um  canto  da  capela.  Tinha  vagamente  o  feitio  de  um 
leito. 

Algum  abade  escrupuloso  e  ignorante  a  terá  feito 
britar  e  incorporar  nos  muros  de  suporte  do  terraço 
do  santuário,  esse  terraço  donde  os  olhos  se  enchem 
de  uma  das  grandes  paisagens  de  Portugal... 

A  capela,  fundação  rial,  como  o  demonstra  o  escudo 
coroado  que  encima  o  gume  do  arco  da  porta  princi- 
pal, é  um  edifício  de  aparência  modesta,  todo  de  silha- 
ria  regular,  de  corpo  e  capela-mór  rectangulares,  com 
uma  só  nave.  Mede,  interiormente,  11  metros  por  7.42, 
no  corpo,  e  0,1-4  por  4,98  na  capela  maior. 

A  porta  principal,  de  ogiva,  com  duas  arquivoltas 
oblíquas,  emmoldurada  por  um  arco  toreado  recamado 
externamente  de  flores  estilisadas,  tem  os  capiteis  e 
bases  decoradas  com  uma  faixa  contínua  adornada  de 


134 


ramagem  e  mascarões  toscos.  A  porta  lateral  direita, 
subida  sobre  alguns  degraus  como  a  principal,  é  de 
volta  redonda,  e  mostra  o  tímpano  recortado  com  sé- 
ries de  lóbulos  do  mais  puro  gótico  joanino. 

O  interior,  desataviado,  é  somente  embelezado  por 
um  belo  arco  triunfal,  largo,  com  as  pilastras  e  volta 
salpicadas  de  motivos  decorativos  vegetais  e  animais, 
e  por  uma  porta  de  comunicação  para  a  sacristia,  com 
o  tímpano  lavrado  no  mesmo  gosto  da  porta  lateral 
direita. 


Palácio   dos  Comendadores 
e  Igreja   da  6ga 


I^Sf^  uma  légua,  pouco  mais,  de  Condeixa  a  Nova, 
^t^oM  ©noontra-se  a  pequena  freguezia  da  Ega,  hoje 
@â!^â  muito  abandonada  e  decaída,  mas  que  outr'ora 
foi  uma  Comenda  importante  da  Ordem  de  Cristo,  que 
em  principies  de  século  xvi  levantou  lá  um  palácio  e 
engrandeceu  a  igreja. 

Três  cousas  ha  dignas  de  menção,  no  povoado  :  o 
pelourinho,  também  do  século  xvi,  ainda  com^in^a  in- 
teira e  ângulos  de  tronco  chanfrados  —  logo  à  entrada 
da  terra,  numa  baixa  ;  a  igreja,  a  meia  encosta  de  uma 
ladeira;  e,  num  alto,  por  fim,  o  palácio,  arruinando-se 
de  mal  cuidado. 

Assenta  o  «Paço»,  como  por  lá  dizem,  sobre  um  ca- 
beço redondo,  cuja  base  pouco  maior  largura  terá  que 
o  âmbito  dos  alicerces,  e  as  suas  paredes  elevam-se  a 
prumo  do  solo  numa  massa  quadrangular,  pesada  e 
maciça,  que  apenas  para  o  Sul  amacia  a  sua  rigidez 
geométrica  com  uns  acrescentos  mais  baixos.  O  seu 
exterior  apresenta-nos  uma  interessante  série  de  lar- 
gas janelas  manuelinas,  condemnadas  a  desaparecer 
brevemente,  porque  em  parte  os  muros  esboroam-se. 
Algumas  delas  —  três  dos  acrescentos  e  uma  do  palá- 
cio, teem  os  arcos  abatidos  e  as  esquinas  das  ombrei- 


136 


ras  chanfradas  ;  as  outras  —  cinco  de  uma  só  luz  e  uma 
geminada,  com  a  coluna  central  torcida  e  arcos  redon- 
dos de  bordos  faceados  (como  umas  de  Alemquer)  — 
têm  também  as  esquinas  cortadas  e  as  padieiras  das 
vergas  largamente  trabalhadas,  mostrando  um  claro 
exemplo  do  cuidado  com  que  nessa  época  se  lavravam 
as  cantarias  de  vista. 

Mais  algumas  janelas  havia,  mas  as  guarnições  de 
pedra  têm-lhe  sido  retiradas,  e  não  será  de  grande  pro- 
feta dizer  que  o  mesmo  sucederá  em  breve  ás  outras, 
já  citadas,  porque  o  palácio  vae  morrendo  num  aban- 
dono, que,  aliás  não  data  de  ontem  ;  já  nas  Memorias 
Parochiaes,  de  1758,  o  pároco,  falando  da  cabeça  da 
sua  freguesia,  diz :  «Não  he  terra  murada,  nem  praça 
d'armas  e  só  no  simo  da  vila  se  conservam  huas  pare- 
des antigas,  que  ha  tradiçam  foram  de  habitaçam  do 
Comendador. . .  e  tem  o  nome  de  Paço». 

De  tempos  remotos  foi  o  lugar  do  Paço  pertença  e 
moradia  dos  Comendadores.  Na  cVisitaçào  da  Ordem 
de  Christo»  de  1508,  fala-se  de  uma  habitação  grande, 
mas  não  era  ainda  o  actual  palácio  :  esse  foi  construí- 
do alguns  anos  mais  tarde,  a  quando  ás  obras  da  igreja. 

Este  solar  da  Ega  é  um  bom  exemplar  de  palácio 
manuelino,  e  merecia  não  ser  esquecido  das  entidades 
que  superintendem  sobre  os  monumentos  portugueses, 
talqualmente  o  seu  parceiro  da  Pampilhosa  do  Botão, 
quiçá  mas  interessante,  e  onde  uma  inscrição  de  1510 
testemunha  á  época  exacta  da  construção.  Esse  palá- 
cio do  Botão,  casa  de  recreio  ou  hospital  das  freiras 
do  convento  de  Lorvão,  fundado  por  Catarina  d'Eça 
abadessa  do  grande  mosteiro,  tem  as  fachadas  larga- 
mente cortadas  de  janelas  curiosas  e  muito  variadas 
que  só  por  si  dariam  um  bom  contingente  a  quem  qui- 


137 


zesse  fazer  o  necessário  álbum  de  desenhos  das  portas 
e  janelas  manuelinas  de  todo  o  pais. 

Tanto  lá  como  na  Ega  se  pode  notar  que  houve  da 
parte  dos  arquitectos  a  preocupação  de  variar  os  de- 
senhos das  vergas  e  não  deixar  uma  janela  completa- 
mente igual  a  outra,  quer  em  luzes  quer  em  ornamen- 
tação. 

E  essa  também  uma  das  características  da  nossa 
apropriação  e  ligeira  modificação  manueliua,  do  último 
gótico. 


A  igreja  é  um  edifício  reconstruído  no  século  xvi, 
em  pleno  manuelino  naturalista,  sem  mistura  de  later 
íjothic  ou  de  renascença,  e  encontra-se  já  modificada, 
em  partes,  por  sucessivas  restaurações.  Havia  sido  an- 
teriormente uma  igreja  gótica  que  a  «Visitação»  de 
1508  descreve,  com  a  sua  ousia  alta  exteriormente 
aguentada  em  botareos^  com  as  suas  paredes  cafeladas, 
a  sua  nave  única  e  simples,  e  os  alpendres  das  suas 
duas  portas. 

A  actual  porta  principal  é  singela,  emoldurada  de 
troncos  de  laranjeira  enlaçados,  e  coberta  de  uma 
abobada  de  oarena,  que  um  trifolio  de  cordão  envolve, 
€om  cachos  de  três  romãs  pendentes  das  intersecções 
dos  lóbulos.  A  frontaria  conserva  ainda  as  ameias  que, 
à  data  da  reconstrucção  manuelina,  rodeavam  porven- 
tura todo  o  alto  do  edifício.  Do  lado  esquerdo  existe 
uma  portinha  de  abobada  trabalhada,  muito  seme- 
lhante á  única  desse  estilo  que  resta  no  claustro  do 
convento  de  S.  Marcos. 

O  corpo  da  igreja,    de  uma  só  nave,    está  revestido 


138 


até  certa  altura  de  azulejo  a  branco  e  azul,  em  que  os 
desenhos  são  séries  de  uma  espécie  de  cruzes  de  S.  Tia- 
go, brancas  ;  deve  ser  do  século  xviii,  porque  no  «Tom- 
bo» de  1705  ainda  não  figura. 

Chegadas  ao  arco  da  capela-mór  abrem-se  na  nave 
duas  capelas,  fronteiras  e  iguais,  de  boa  renascença^ 
com  belos  portaes  e  esplendidas  cúpulas  lavradas  e 
pintadas,  um  tanto  abatidas,  sendo  na  da  esquerda  os 
Clãs  de  lamp  figurinhas  de  anjos  em  relevo.  Esta  capela 
da  esquerda,  do  Senhor  Jesus,  é  forrada  de  azulejo 
de  laçaria,  igual  ao  do  corpo  da  igreja. 

Na  capela  da  direita  admira-se  um  retábulo  de  pe- 
dra, de  renascença  pura,  dividido  em  seis  quadros — ou 
seja  um  triptico  de  dois  andares  — ,  com  santos  nos 
nichos  inferiores  e  nas  predelas,  e  um  quadro  da 
Ceia  na  divisão  central  superior,  sobre  o  tabernáculo. 
Nos  portais,  faltam  os  spandnls,  onde  os  auctores  da 
renascença  francesa  colocavam  os  graciosos  óculos  de 
figuras.  As  vergas  assentam  em  dois  curtos  modilhões 
saidos  para  o  vão  das  ombreiras  rectas,  que  colunas 
em  tabernacle  icork  avivam  do  centro  para  a  parte  su- 
perior. 

Esta  capela  da  direita,  do  Santíssimo,  tem  as  paredes 
cobertas  de  azulejos  brancos  e  azues  que  formam  com- 
binações de  caixilhos,  como  em  Celas,  Sé  Velha,  etc, 
notando-se  em  muitos  vestigios  de  uma  douragem  pos- 
terior. 

O  arco  da  capela-mór  é  torcido,  de  volta  redonda 
perfeita,  sendo  a  ornamentação  das  ombreiras  externas^ 
de  troncos  chagados  dos  característicos  nós  cortados,  e 
a  das  internas,  de  bolas  até  á  altura  dos  capiteis,  e,  de- 
pois no  arco,  de  rosas  quadradas,  —  como  no  arco  do 
campanariosinho  da  capela  de  BrUnhós  (Soure),   etc. 


I 


139 


O  tecto  da  mesma  aguenta-seem  nervuras  finas,  cujos 
pés  se  apoiam  em  misúlas  de  figuras,  (uma  cabeça 
de  homem,  caras  anchas,  um  carneiro,  etc.)  e  o  de- 
senho dos  artesões  de  ligação,  que  faz  lembrar  quatro 
abobadas  de  carena  hgadas  pelos  pés,  é  absolutamen- 
te igual  ao  da  abobada  do  coro  de  S.  Paulo  de  Alma- 
siva  ou  de  Frades. 

O  fecho  central  da  abobada  tem  lavrada  a  cruz  de 
Cristo. 

As  paredes  estão  forradas  de  azulejo  idêntico  ao  da 
capela  do  Santíssimo.  Na  «Visitação»  de  1508,  os  vi- 
sitadores aconselham  o  comendador-moor  a  que  colo- 
que depressa  os  azulejos  que  havia  comprado  ha  pou- 
co :  não  podem  ser  estes,  nem  os  do  corpo  da  igreja, 
muito  menos  antigos.  Tratava-se,  evidentemente,  de 
azulejos  sevilhanos. 

O  mais  interessante  porém  da  capela-mór,  e  da  igre- 
ja, afinal,  é  o  retábulo  pintado,  o  painel  da  Senhora  da 
(jrraça,  protectora  d^  Comenda. 

E  um  triptico  de  madeira  com  o  pano  central  mais 
elevado  que  os  lateraes,  razoável  pintura  do  século  xvi, 
retocada  em  alguns  pontos,  deteriorada  noutros  com  as 
covas  dos  pregos  que  os  armadores  quando  da  festa  do 
Santíssimo  se  entretinham  a  fazer-lhe  para  segurar  o 
trono  das  exposições  solenes. 

No  pano  central  vê-se  a  Senhora  da  Graça  numa  sedia^ 
com  o  menino  ao  colo,  e  ambos,  mãe  e  filho,  olham  para 
um  cavaleiro  de  Cristo,  de  barbas  pretas  e  caidas, 
que  de  joelhos,  envergando  o  manto  da  Ordem,  com 
um  missal  aberto  nas  mãos,  os  contempla  também  de- 
votamente. No  pano  da  direita  ha  uma  visão  de  S.  Paulo; 
no  da  esquerda  aglomeram-se  várias  scenas  :  dois  san- 
tos grandes,  barbados,   no  primeiro  plano,  depois  um 


140 


magote  de  legionários,  e  no  alto,  muito  pequeno,  como 
figura  de  aparição,  um  Christo  carregando  a  cruz. 

No  saio  de  am  dos  legionários  deste  pano  encon- 
tra-se,  o  que  é  muito  importante,  um  monograma : 
I.  Gr.  Quem  será  este  pintor  quo  assigna  I  Gr.  e  cujo 
nome  não  encontro  no  Dicionário  de  Sousa  Viterbo  ? 

Se  o  nome  do  pintor  nos  é  desconhecido,  uma  cousa 
consegui  ao  menos  saber  :  o  nome  do  personagem  ajoe- 
lhado e  a  época  do  quadro. 

Filipe  Simões,  a  páginas  246  dos  Escritos  DiVtrsos,  diz 
o  seguinte  :  «Na  egreja  da  Ega,  perto  de  Condeixa, 
conserva-se  um  retábulo  com  três  pinturas ;  na  princi- 
pal delias  está  um  cavalleiro  de  Christo,  cujo  rosto, 
nada  flamengo,  se  assemelha  ao  d'el-rei  D.  Manuel». 
Numa  nota  a  seguir,  apresenta  depois  a  hipótese  de 
ter  o  quadro  sido  doado  pelo  próprio  D.  Manuel,  que 
era  grão-mestre  da  Ordem. 

Infelizmente  nada  disso  é  verdadeiro  ;  nem  o  quadro 
é  gótico,  nem  foi  oferecido  por  D.  Manuel.  O  retratado 
deve  ser  um  comendador  da  Ega,  que  viveu  em  fins  do 
século  XVI  e  começos  do  século  xvii,  D.  Afonso  de  Len- 
castre, como  parece  provar  o  único  documento  que  en- 
contrei, referente  ao  retábulo.  E  este  o  Tombo  da  Co- 
menda-mór  da  Ega,  em  1705,  em  que  a  páginas  40  v,°, 
se  encontra  o  relato  da  medição  da  igreja,  nos  termos 
seguintes  :  a  Achou  que  a  dita  Igreja  matriz  desta  villa, 
e  era  da  invocação  de  Nossa  Senhora  da  Graça  a  qual 
tinha  capela-mór  na  qual  estava  o  altar  maior  da  dita 
Senhora  da  Graça  e  nella  hum  retábulo  bem  pintado 
de  boas  pinturas  com  suas  colunas  e  divisoius  e  rema- 
tes e  guarnissoiíls  tudo  dourado  sobre  madeira  e  divi- 
dido em  três  painéis  e  no  de  meio  está  a  pintura  da 
Senhora  asentada  com  hú  minino  no  coUo  e  ao  pee  de 


141 


giollios  retratado  o  Comendador  mor  que  foi  desta  Co- 
menda Dom  Afifonso  de  Alencastre  e  nos  dous  painéis 
que  estão  nas  ilhargas  deste  no  da  parte  do  Evange- 
lho se  vê  a  pintura  de  São  Pedro  no  passo  da  queda 
de  Simão  Mago  e  no  outro  painel  está  a  pintura  da. 
queda  de  São  Paulo  e  no  remate  em  sima  do  Painel 
da  Senhora  está  hum  Painel  com  a  pintura  do  Padre 
^Eterno  sobre  o  qual  está  o  escudo  das  armas  Reais 
sobre  a  crux  de  Christo ...» 

Assim  reza,  continuando  depois  com  a  descrição  da 
igreja,  o  documento  que  mais  perto  está  da  época  da 
ofeita  do  painel.  Havia  um  Tombo  do  começo  do  sé- 
culo xvii  que  esclareceria  de  todo  a  questão. .  .  se  nãa 
tivesse  desaparecido. 


Portas  manuelinas  dos  arredores 
de  Lisboa 


[xcÉTUADOS  OS  edifícios  dos  Jerónimos,  Torre 
de  Belém  e  Paço  de  Sintra,  onde  o  rnanutlino 
se  manifesta  exuberante  e  copiosamente,  pou- 
cos são  os  restos  desta  maneira  construtiva  e  decora- 
tiva do  gótico,  que  os  terremotos  ou  as  restaurações 
deixaram  chegar  até  nós,  em  Lisboa  e  seus  arredores. 

Como  trechos  isolados  ficaram,  na  capital,  os  portais 
da  Conceição  Velha,  da  Madalena,  da  ermida  dos  Re- 
médios, em  Aliáma,  de  um  outro  edifí^^io  religioso  na 
Eua  da  Mouraria;  as  portas  da  «Casa  dos  Bicos»  e 
de  várias  outras  casas  particulares  ;  e,  finalmente,  o 
interessante  claustro  do  «Coleginho»  de  Santo  Antão 
o  Velho,  que  foi  a  primeira  casa  que  a  Companhia  de 
Jesus  teve  em  Portugal. 

Nos  arrabaldes  a  pobreza  de  edifícios  ou  troços  de 
edifícios  manuelinos  é  ainda  maior.  Conservam-se  con- 
tudo as  portas  de  Cheias,  da  Madre  de  Deus,  em  Xa- 
bregas, da  igreja  matrís  do  Lumiar,  da  capela  de  S. 
Sebastião,  do  mesmo  lugar,  da  igreja  da  Póvoa  de 
Santo  Adrião,  da  matrís  de  Belas,  etc 

Em  estudo  que  preparo  deixarei  relacionados  e  foto- 
grafados todos  os  restos  manuelinos  que  perduram  na 
Estremadura.  Vêr-se  há  então  como  foi  a  essa  provín- 


14t 


cia  que  maior  quinhão  coube,  em  quantidade  e  quali- 
dade, do  estilo  brilhante  e  rico  que  artistas  portugue- 
ses G  espanhóis,  conjuntamente,  souberam  arrancar  dos 
velhos  modelos  góticos. 


Kig.  õ3 

I-^orta    ;3a  Capola  de  S.  SebastiSo,  no  L,\imiar 
(Koloíínina  do  ;uilor) 

Acompanham  esta  nota,  como  exemplificação,  três 
portas  pouco  conhecidas  :  a  da  matrís  de  Belas,  a  da 
igreja  da  Póvoa  de  Santo  Adrião  e  a  da  capela  de  S. 
Sebastião,  no  Lumiar. 


Monumentos  de  Fóvos  do  [Ribatejo 


jciiAS  vezes  havia  eu  já  notado  do  comboio, 
passada  Vila  Franca,  a  curiosa  série  de  três 
cabeços  que  se  seguem  à  povoação,  a  mon- 
tante, estranhos  de  aparência,  o  primeiro  liso  è  ín- 
greme, sarrudo  de  mato,  o  segundo  salpicado  de  olival, 
e  o  último,  já  dominando  a  Quinta  das  Areias  e  a  Cas- 
tanheira, vestido  de  pinhal  denso.  Solicitava  especial- 
mente a  atenção  o  do  meio,  menos  elevado  que  os  vi- 
zinhos, cujo  topo  aparecia  confusamente  coroado  de 
ruinas  dentre  as  quaes  se  projectava  uma  cúpula  bas- 
tante subida,  vagamente  russa  de  aspecto,  sobresaindo 
com  a  crueza  de  um  borrão  de  cal  no  amarelo- escuro 
do  solo  e  dos  restos  de  muros.  A  velocidade  do  com- 
boio, porém,  a  breve  trecho  substituia  por  outros  este 
scenário,  e  esvaídas  como  o  fumo  da  locomotiva  as  hi- 
póteses rápidas  que,  ácêrca  das  ruinas,  eu  arquitectava, 
ficava  apenas  de  pé  o  desejo  de,  mais  tarde  ou  mais  cedo, 
fazer  o  seu  reconhecimento. 

Por  um  florido  e  cálido  15  de  Maio,  em  1913,  per- 
corri pela  primeira  vez  o  cabeço,  e  do  que  n^ssa  e  em 
subsequentes  visitas  vi,  faço  agora  um  curto  apanhado, 
torrageado  no  maço  de  apontamentos  que  tenho  rotu- 
lado com  o  nome  de  «Povos». 

10 


14G 


A  meia  légua  de  Vila  Franca,  para  N.  E.,  seguindo 
para  montante  da  corrente  do  Tejo,  fica  a  pequena  al- 
deia de  Povos,  antiga  vila  hoje  decaída  da  sua  impor- 


(I'(>l<>(,'ilili:i   cl<i  JHiloii 


tância,  mas  em  que  um  lindo  pelourinho  manuelino,  re- 
centemente restaurado  pelos  cuidados  de  uma  distinta 


147 


família  da  região,  ficou  atestando  a  categoria  munici 
pai  desse  modesto  agregado  rural. 

Este  pelourinho,  ao  contrário  do  que  sucedeu  a  tan- 
tos outros  por  esse  país  fora,  tem  sido  altamente  ba- 
fejado pela  sorte. Fizeram-lhe  a  história,  restauraram-no 
e  conservam-no  com  amor. 

No  seu  curioso  livro  sobre  as  Antiguidades  do  moder- 
no concelho  de  Vila  Franca  (Lisboa,  1893J^  Lino  de  Ma- 
cedo transcreveu,  a  propósito  da  vila  de  Povos  toda 
uma  larga  memória  manuscrita  que  o  Dr.  João  Amaral, 
filhote  da  terra  e  miguelista  da  gema,  escreveu  aí  por 
185<),  crivada  de  erros  de  vária  espécie,  resfolgante  de 
chamorrismo  recolhido.  Por  duas  vezes  o  bacharel  (mui- 
to velho  à  data  da  redacção  da  memória,  o  que  o  des- 
culpa de  todos  os  seus  pecados)  se  ocupa  do  pelouri- 
nho. Numa  das  referências  escreve  que  ano  meio  desta 
rua  (a  Direita)  se  vê  a  praça  da  villa  com  o  seu  pelou- 
rinho com  os  vestígios  de  golilhas  com  que  puniam  os 
crimes  de  posturas  da  câmara  e  também  tem  o  escudo 
com  as  armas  dos  condes  da  Castanheira»  ;  e  na  outra 
acrescenta  que  o  monumento  assentava  sobre  uma  pea- 
nha  de  quatro  degraus  e  que  tinha  vinte  e  tantos  palmos 
de  alto. 

Hoje  são  somente  dois  os  degraus  sobre  que  se  firma 
a  coluna  do  pelourinho.  ^Sipinhu  cravam-se  quatro  bra- 
ços de  ferro,  dispostos  em  cruz,  os  quais  terminam  em 
cabeças  estilisadas  de  animal,  donde  pendem  quatro  ar- 
golas. No  capitel,  escudetes  em  relevo  ostentam  as  bar- 
ras oblíquas  do  escudo  dos  condes  da  Castanheira.  Uma 
decoração  característica  do  manuelino  na  sua  face  na- 
turalista veste  a  coluna  nas  duas  partes  em  que  a  di- 
vide, pelo  meio,  o  engrossamento  duplo,  do  tronco. 

Seriam  todos  os  pelourinhos  providos,  primitivamen- 


148 


te,  destes  ferros  e  argolas,  que  também  tenho  encon- 
trado noutros  pontos,  por  exemplo,  bem  perto  de  Lis- 
boa, em  Vila  Fresca  de  Azeitão  ?  Há  quem  opine  que 


^!'  :.,-tifm^ 


Kig,  Õ4 

l'ori;il  da  motrlx  fie  >-ielí-is 

(I'»tOKi:>lia  lio  iilitor) 


sim,  e  acrescente  que  esses  aparelhos  serviam  para  enfor- 
car, expor  e  apolear  os  criminosos,  tendo  sido  manda- 
dos arrancar  depois  do  advento  do  constitucionalismo; 
e  há  também  quem  julgue  o  contrário,  considerando-os 


149 


meros  enfeites.  Sem  pretender  discutir  o  vellio  tema 
da  diferenciação  entre  pelonrinhos  e  picotas,  limito-me 
a  transcrever  alguns  períodos  do  Livro  II  das  Lendas 
da  Índia,  de  Gaspar  Correia,  que  alguma  cousa  informam 
acerca  do  destino  dos  braços  e  argolas  dos  pelouri- 
nhos. 

De  pág.  441  :  *< Durando  o  trabalho  da  obra,  o  Go- 
vernador (Afonso  de  Abuquerque)  mandou  no  bazar 
da  cidade  (Ormuz)  fazer  uma  picota  sobre  um  mas- 
to.  com  muytos  degraos  em  derredor,  è  no  masto  pos- 
tas muitas  argolas  e  ganchos  para  enforcar,  e  hum  cepo 
preso  por  cadea  para  cortar  nelle  mãos  e  cabeças  ;  o 
que  sendo  acabado,  o  Governador,  de  noite,  com  pou- 
cos homens  a  foy  vêr,  e  chegando  a  ella,  pôs  os  joe- 
lhos no  primeyro  degrau,  e  com  o  barrete  na  mão,  disse  : 
—  Deos  te  salve  pêra  sempre,  e  acrescente  em  verdade, 
vara  de  real  justiça  d'El-E,e3'  nosso  senhor,  per  Deos 
querida  e  amada  pêra  punição  dos  máos  e  conservação 
e  guarda  dos  bons  que  pouco  podem —  ». 

E  mais  adeante  :  aPelo  que  se  forão;  mas  achando 
algum  de  que  as  molheres  faziáo  acusações,  o  Gover- 
nador os  mandava  atar  nos  collares  da  picota,  e  me- 
ter-lhe  uma  frecha  atravessada  nos  narizes.  .  . » 

Deliciosas  scenas  de  costumes  do  século  xvi,  que, 
além  de  tudo  o  mais,  nos  esclarecem  sobre  a  função 
dos  tais  ganchos  e  argolas,  hoje  tão  raros  ! 

Seguindo  Rua  Direita  fora  deparava-se,  do  lado  es- 
querdo, com  a  igreja  matriz,  da  invocação  de  N.  S.  da 
Assunção,  que  o  Dr.  Amaral  na  sua  memória  diz  ter 
ficado  arruinada  no  terremoto  de  1755  e  haver  sido 
reconstruida  no  ano  de  1790. 

A  igreja  paroquiai  de  Povos  do  Ribatejo  eraumtem- 
plosinho  de  mediana  grandeza,  bem  proporcionado,  do 


150 


século  XVI,  adornado  com  um  belo  portal  talhado  e  flo- 
reado em  mamielino  naturalistico. 

E  digo  era  porque  o  presbitério  já  não  existe.  Em 
seu  logar  levanta-se  agora,  vasta,  alegre,  higiénica,  a 
escola  da  povoação,  que  oxalá  se  aguente  de  pé  tan- 
tos séculos,  pelo  menos,  quantos  lá  se  conservou  o 
templo,  do  que  duvido,  atento  o  péssimo  material  com 
que  hoje  se  edifica. 

E  esta,  que  me  conste,  a  primeira  vez  que  uma  igreja 
desaparece  para  nos  seus  alicerces  se  levantar  uma  es- 
cola. Templos  transformados  em  casas  de  educação, 
encontramos  com  frequência,  em  Portugal,  em  França, 
na  Espanha  ou  na  Itália;  mas  o  caso  apontado  de  um 
desaparecimento  total,  é,  poremquanto,  ao  que  me  cons- 
ta, virgem.  E  eu  aponto-o,  além  de  tudo  o  mais,  para  que 
fique  delimitado  com  precisão  o  ponto  onde  os  futuros 
arqueólogos  hão-de  procurar  o  uhi  da  igreja  de  Povos. 

De  resto,  esse  pobre  santuário  estava  de  há  muito, 
desde  o  mégasismo,  absolutamente  condenado,  arrui- 
nado, caindo  aos  pedaços ;  destelhado,  servia,  na  oca- 
sião da  minha  primeira  visita,  de  cavalariça.  Faltava- 
-Ihe  já  o  seu  lindo  e  característico  portal,  que,  segundo 
me  informaram,  fora  comprado  por  um  ricaço  quahjuer, 
e  levado  para  Sintra,  onde  de  novo  o  haviam  armado. 
O  solo  desaparecia  sob  montes  de  destroços  e  de  lenha, 
atravez  as  abertas  da  qual  alvejavam  as  tampas  se- 
pulcrais da  carreira  central  da  nave.  Dentre  essas  pe- 
dras, copiei  as  inscrições  incompletas  que  indicavam 
as  sepulturas  de  uma  Antónia  Barroza,  falecida  a  12 
de  janeiro  de  1648;  de  Maria  Chaves  d'Aguiar;  e  de 
um  Bizarro.  . .  falecido  no  ano  de  1540.  Esta  inscrição, 
ainda  em  letra  gótica,  pode  talvez  servir-nos  para  de- 
limitar a  data  possível  da  terminação   da  igreja,    pois 


151 


como  86  sabe  o  manutlino  internou-se  pelo  século  xvi  até 
quási  ao  seu  meado,  não  faltando  santuários  desse  es- 
tilo construídos  posteriormente  a  1530, 

Na  minha  última  visita  a  Povos  fui  encontrar  o  adro 
e  o  caminho  que  o  liga  com  a  estrada,  pejados  de  lages 
de  calcáreo  e  de  pedras  afeiçoadas  que  haviam  perten- 
cido ao  pavimento  do  templo.  Não  vi  entre  elas,  as  já 
mencionadas;  mas  deparei  com  duas  ainda  inéditas, 
uma  das  quais  diz  :  tS.  de  Manoel  Cosmo  e  da  sua  mo- 
Iher  lues  Guuma  Lhba  e  de  seus  erdeivos  faleseo  a  2õ  de 
Março  de  1628;  e  a  outra:  aS'.*  do  Capitão  Ant.'^  Cosmo 
e  de  seus  erd,"'  fcd^°  em  Fevereiro  de  1646. s 

E  curioso  notar  como  nas  inscrições  os  apelidos  das 
mulheres  tomam  uma  terminação  femenina  :  Barroza, 
Loba. 

Junto  da  escada  que  dá  acesso  à  escola  atual  per- 
manece a  pia  de  água  benta  da  igreja,  um  monolito  em 
forma  de  cálix,  de  copa  e  pé  oitavados,  também  em 
estilo  manuelino.  Tem  1,20  de  altura,  está  em  razoável 
estado  de  conservação,  bem  podendo  figurar  num  mu- 
seu de  Lisboa,  se  em  Lisboa  existissem  museus  desti- 
nados a  receber,  como  nas  cabeças  dos  distritos,  os 
monumentos  de  arqueologia  moderna  que  a  cada  passo 
aparecem  nas  demolições  e  transformações  dos  edifícios 
da  capital. 


Ao  norte  da  povoação,  servindo-lhe  de  fundo,  ergue-se 
uma  colina  pronunciadamente  cónica,  de  encostas  de- 
clivosas, a  cujas  faldas  se  encostam  as  casas  de  Povos 
que  ficam  do  lado  esquerdo  da  estrada  que  segue  ao 
Carregado  e  a  Santarém.  Essa  colina  aparece  isolada, 


]õ-.á 


por  completo  desligada  dos  montes  que  a  precedem  e 
a  continuam,  antigas  balisas  naturais  e  primárias  da 
margem  direita  do  Tejo.  Olhada  da  estrada,  a  altura 
do  cabeço,  coroada  por  uma  capela  meio  escondida  pelos 
paredões  escalavrados  de  uma  velha  moradia  de  vastas 
dimensões  que  se  alça  sobre  os  pendores  orientais  do 
monte,  aparenta  um  ar  de  abandono  e  ruina  que  con- 
frange, apezar  das  manchas  alegres  das  oliveiras. 

Trepada  de  frente  a  íngreme  ladeira,  o  que  primeiro 
chama  a  atenção  quando  nos  encontramos  no  cimo  é  uma 
muralha,  alta  em  pontos  mais  de  4  metros,  assente  so- 
bre os  afloramentos  do  grés,  que  é  a  rocha  estructural 
do  monte,  muralha  construída  de  duas  idas  paralelas 
de  aparelho  miúdo  revestindo  uma  massa  fortemente 
aglutinada  de  pedras  irregulares. 

Toda  a  coroa  do  monte  é  guarnecida  de  muros  como 
este,  em  parte  esboroados,  em  parte  enterrados,  os  quais 
seguidos  cuidadosamente  deliniam  uma  fortificação  pro- 
vavelmente de  plano  rectangular,  alongada  ao  correr  da 
crista  na  direcção  nordeste-sudoeste.  Do  lado  que  olha 
o  Tejo  esta  muralha  prolonga-se,  quási  intacta,  por  es- 
paço aproximado  de  70  metros,  quási  em  linha  recta; 
do  lado  contrário  lobriga-se  ainda  á  flor  do  terreno,  por 
mais  de  20  metros.  Nos  lados  menores  do  rectângulo, 
embora  se  reconheçam,  aqui  e  ali,  restos  de  alvenaria, 
não  se  consegue  balisar  o  traçado  primitivo,  que  devia 
acusar  a  largura  de  25  metros  entre  os  lados  maiores. 

O  fortim,  pois  é  do  que  se  trata,  poderia  medir  uns 
70  metros  de  comprido  por  25  de  largo,  e  ocupava  uma 
posição  defensiva  e  estratégica,  explendida,  pela  difi- 
culdade do  acesso  e  pela  proximidade  do  rio,  então  mui- 
to mais  chegado  a  Povos,  de  que  só  se  começou  a  afas- 
tar no  fim  do  século  xviii. 


15;? 


A  situarão  especial  deste  cabeço,  fácil  de  defender, 
pouco  elevado,  colocado  a  cavaleiro  da  estrada  margi- 
nal que  desde  tempos  imemoriais  ligava  Lisboa  a  San- 
tarém, estrada  que  os  romanos  apenas  aproveitaram  e 
melhoraram,  fez  com  que  o  guarnecessem  de  muros  e 
o  transformassem  num  posto  militar. 

Em  que  época  foi  realizado  este  trabalho  ?  O  sim- 
ples exame  superficial  dos  muros  afasta  logo  a  ideia 
de  um  trabalho  romano,  pois  que  nem  a  disposição  das 
pedras  nem  o  material  apresentam  afinidades  com  o 
empregado  pelos  dominadores  do  mundo  antigo.  Tem 
de  procurar-se  em  tempos  mais  chegados  ao  nosso,  essa 
época.  Trata-se,  evidentemente  de  um  trabalho  medie- 
val, talvez  datando  da  fundação  da  monarquia. 

Para  nordeste,  era  plano  um  pouco  inferior,  ao  nível  da 
base  das  muralhas,  ficam  a  capela  do  Senhor  da  Bôa 
Morte,  que  deu  o  nome  ao  cabeço,  e  o  casarão  arrui- 
nado que  já  mencionei  e  que  nada  nos  interessa. 

A  capela  é  formada  de  dois  corpos  rectangulares, 
de  desigual  largura  e  comprimento,  e  de  uma  só  navei 
O  seu  arco  triunfal,  de  duas  faces,  bem  talhado  em 
ogiva  fresca  e  alta,  com  os  capiteis  adornados  de  bo- 
las, é  uma  bôa  construção  do  século  xv,  pertencendo 
também  à  segundo  metade  desse  século  os  pináculos 
cónicos  de  base  em  denticules,  que  coroam  os  botareus 
da  capela-mór,  A  cúpula,  alta,  oitavada,  firma-se  em 
nervuras  de  tipo  mais  recente. 

É  junto  do  adro  da  capela,  no  ponto  em  que  a  rocha 
aliora,  que  se  divisam,  excavados  no  grés,  os  restos 
de  umas  20  sepulturas  antropomórficas,  medievais, 
Seguem-se  os  sarcófagos  lado  a  lado,  em  diversos  an- 
dares no  declive,  vendo-se  alguns  acompanhados  de 
cavidades  oblongas  destinadas  a  receber  os  pés  daque- 


151 


las  pedras  sepulciais,  discoides,  de  que  me  ocupei  em 
estudo  anterior. 

No  chão,  a  pouca  distância  do  santuário  deparei 
com  a  cabeça  de  uma  ara  romana,  com  0,70  de  lado, 
e  0,25  de  altura  até  um  cordão  lavrado  que  lhe  corre 
em  volta  rematando  o  ornato  ondulado,  de  estilo 
clássico,  que  veste  as  quatro  íaces  da  pedra.  Vê-se 
pois  que,  a  menos  da  pedra  ter  sido  levada  para  ali 
posteriormente,  o  que  não  é  natural,  existiu  no  local 
um  santuário  rural,  uma  dessas  capelinhas  em  que 
se  venerava  qualquer  divindade  secundária,  das  que 
enxameavam  no  pauteon  latino  e  lusitano,  e  que 
os  viandantes  que  passavam  cá  em  baixo,  na  via  las- 
tricata  que  levava  a  Scalabis  e  a  Emérita,  olhariam 
com  religioso  respeito. 

Toda  a  história  do  cabeço  do  Senhor  de  Bôa  Morte, 
de  Povos,  pode  ficar  assim  condensada. 

Tempo  de  romanos  :  —  Existência  de  um  santuário, 
capelinha,  ou  fanum  consagrado  a  uma  divindade  do 
panteon  lusitano-romano. 

Tempos  medievais;  — a)  Fortim  medieval,  possivel- 
mente erguido  para  defesa  da  margem  direita  do  Tejo 
contra  as  incursões  dos  Mouros  alentejanos  ;  h)  Capela 
e  sepulturas  antropomórficas  do  século  xv. 

Tempos  modernos  :  —  Modificações  na  capela.  Cons- 
trução do  casarão  setecentista,  hoje  arruinado. 


índice  dos  capítulos 


1  —  Arcos  romanos  de  Portugal Pág.    7 

2  —  O  templo  romano  de  Sant'Ana  do  Campo  (Arraio- 

los)  »     17 

3  —  A  igreja  de  Louroza  da  Serra  da  Estrela »     25 

4  —  Monumentos  medievais  de  Lamego »    39 

5  —  Nossa  Senhora  de  Cárquere »     47 

6  —  A  igreja  de  S.  Martinho  de  Mouros »     69 

7  —  A  igreja  de  Barro »     G7 

8  —  A  igreja  paroquial  de  Barcos  (Taboáço) »     75 

9  —  A  capela  de  Sabrôso  (Barcos) «     81 

10  —  Cabeceiras  de  sepultura  medievais u     87 

11  —  N.  Senhora  da  Azinheira  de  Outeiro  Seco  (Chaves)  »     99 

12  —  A  igreja  de  Santo  André,  em  Mafra »  103 

13  —  Esculturas  arcaicas  do  Museu  de  Lamego »  109 

14  —  Virgens  pejadas u  119 

15  —  A  capela  da  Senhora  de  Guadalupe  (S.  Paio  —  Vila 

Real »  125 

16  —  Uma  estátua  tumular  da  Sé  de  Lisboa »  129 

17  —  A  capela  de  S.  Domingos  de  Fontêlo  (Lamego). . .  »  131 

18  —  Palácio  dos  Comendadores  e  igreja  da  Ega »  134 

19  —  Portas  manuelinas  dos  arredores  de  Lisboa  ....  u  143 

20  —  Monumentos  de  Povos  do  Ribatejo »  145 


índice  das  gravuras 


Fig.   1  (em  íolha  separada)  Arco  romano  de  Aramenha. 

10  —  Porta  de  Mertola  (?),  em  Beja. 

11  —  Porta  de  Avis,  em  Beja, 

13  —  Antiga  porta  de  Évora,  em  Beja. 

14  —  Arco  da  Bobadela. 

15  —  Porta  do  palácio  ducal  de  Vila  Viçosa. 
19  —  Templo  romano  de  Santana  do  Campo  (Arraio- 
los), Lado  poente. 

21  —  O  que  resta  do  braço  de  poente. 

23  —  O  que  resta  do  braço  de  nascente. 

24  —  Planta  do  edifício. 

29  —  Inscrição  da  igreja  de  Louroza  (Era  dccccl). 
33  —  Arco  lateral  na  igreja  de  Louroza. 
49  —  Torre  do  mosteiro  de  Cárquere. 
51  —  Vista  geral  do  mosteiro. 
58  —  Planta  dos  edifícios  do  mosteiro. 
55  —  Imagem  de  Nossa  Senhora  de  Cárquere. 
57  —  Janela  românica  de  Cárquere. 
61  —  Igreja  de  S.  Martinho  de  Mouros. 
63  —  Torre  de  S.  Martinho. 
65  —  Planta  da  igreja  de  S.  Martinho, 
69  —  Frontaría  da  igreja  de  Barro. 
71  —  Porta  principal  da  igreja  de  Barro. 
73  —  Planta  da  igreja  de  Barro. 

76  —  Porta  lateral  direita  da  igreja  de  Barcos. 

77  —  Porta  lateral  esquerda  da  igreja  de  Barcos. 

79  —  Placa  de  marfim  representando  a  «Anunciação». 

81  —  A  capela  de  Sabrôso  (Barcosj. 

83  —  Tampa  de  sarcófago,  pedras  tumulares  e  cabe- 
ceiras de  sepultura,  no  adro  da  capela  de 
Sabrôso. 


2 

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21 

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25 

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26 

P- 

27 

P' 

28 

P' 

158  índice  das  gravuras 

Fig.  29  p.  84  —  Pedras  sepulcrais  do  interior  e  do  adro  da  ca- 
pela de  Sabrôso. 

>  30  p.  88  —  Cabeceiras  de  sepulturas  dos  museus  de  Évora 
e  Lisboa. 

»  31  p.  88  —  Cabeceiras  de  sepulturas  de  Lisboa.  Beja  e 
Coimbra. 

u  32  p.    89  —  Cipo  do  tigiiarius. 

»  33  p.    90  —  Cipo  do  Itctarius. 

»  34  p.  91  —  Cabeceiras  de  sepulturas  do  museu  de  San- 
tarém. 

»  35  p.    92  —  Idem. 

»  36  p.    93  —  Idem. 

»  37  p.    95  —  Idem. 

u  38  p.    96  —  Semeador  romano. 

u  39  p.  97  —  Pedra  tumular  de  um  ferrador,  em  Santo  Ama- 
ro (Beja). 

M  40  p.    98  —  Cabeceira  discoide  de  Sousel. 

»  41  p.    99  —  Pedra  tumular  da  igreja  de  Outeiro  Seco. 

»  42  p.  100  —  Planta  da  igi'eja  de  Outeiro  Seco. 

«  43  p.  101  —  Porta  principal  da  igreja  de  Outeiro  Seco  (Cha- 
ves). 

»  45  p.  104  —  Porta  principal  de  Santo  André  (Mafra). 

u  46  p.  105  —  Porta  lateral  direita  de  Santo  André. 

«  47  p.  107  —  Trecho  da  faixa  ornamental  do  centro  da  abó- 
boda  da  capela-mór  da  igreja. 

u  48  (em  folha  seperada).  Esculturas  arcaicas  do  museu  de 
Lamego.   Nossa  Senhora,  e  S.  Paulo. 

••  49  (em  folha  separada).  Virgens  pejadas,  de  Lamego  (Mu- 
seu e  Balsemão). 

•>  50  p.  127  —  Capela  da  Senhora  de  Guadalupe  (S.  Paio  — 
Vila  Real). 

«  51  (em  folha  separada)  Estátua  tumular  da  capela  de  San- 
to Aleixo  (claustro  da  Sé  de  Lisboa). 

»  52  p.  132  —  Capela  de  S.  Domingos  de  Fontêlo. 

u  53  p.  143  —  Porta  da  capela  de  S.  Sebastião,  no  Lumiar. 

u  54  p.  146  —  Porta  da  igreja  de  Povoa  de  Santo  Adrião. 

»  55  p.  148  —  Porta  da  matriz  de  Belas. 


Erratas 


102 
107 
116 
121 
128 


ondi-  SC  lé 

lcia-»e 

século  XV 

século  XVI 

faicha 

taixa 

meadas 

meados 

góticos 

gótico 

bocal 

local 

Entre  as  obras  do  autor,  mencionadas  a  pág.  4,  figuram 
como  publicados  em  1919,  os  trabalhos  :  AzuUjos  Datados  (2.* 
ediçào),  e  Um  tímido  Renascença.  Dificuldades  tipográficas  insu- 
peiáveis  fizeram  com  que  esses  trabalhes,  destinados  a  apare- 
cerem antes  deste,  só  possam  estar  postos  à  venda  posterior- 
mente à  publicação  dos  Monumentos  e  Esculturas. 


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Edição  definitiva  das  obras 

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Professor  da   Faculdade  de  Lettras  da   Universidade 
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NA 
1321 
C6 
1919 


Correia,  Vergilio 

Monumentos  e  esculturas